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Em Belém, Psol se alia ao PT na direção oposta de uma alternativa para os trabalhadores

Seguindo a tendência de realizar alianças em diversas capitais do país, em Belém o Psol sairá com coligação junto com o PT para as eleições, indo no caminho contrário de uma saída independente para a classe trabalhadora.

sábado 25 de julho| Edição do dia

Essas alianças estão acontecendo em diversas cidades. Em Florianópolis, a aliança encabeçada pelo PSOL deve reunir também PT, PCdoB, PSB, PDT e Rede. Em Recife, Manaus e Rio Branco o PSOL deve apoiar o PT, e seguem discussões tanto em Belo Horizonte como também no Rio de Janeiro, além do apoio do PSOL ao PT em cidades importantes como Campinas. Em Porto Alegre a chapa proposta pelo PSOL para unificar PT, PCdoB e o PSOL não avançou por negativa dos dois primeiros. No Rio de Janeiro, Marcelo Freixo abriu mão da disputa com o argumento de que só concorreria em uma chapa de unidade.

Em Manaus, na reunião do Diretório Municipal foi decidido o nome de Jonas Araújo como o pré-candidato do partido, com a possibilidade de compor a chapa de um "bloco de esquerda", incluindo aí partidos que deram muitos votos a favor do golpe institucional de 2016, como é o caso do PSB. Na mesma reunião foi aprovada a construção e o fortalecimento de uma articulação entre os partidos de esquerda para as eleições municipais, envolvendo o PT, PCB, PSTU, PSB, Rede e PCdoB. Apesar da aliança ainda não estar consolidada, o próprio pré-candidato chegou a afirmar que vê na candidatura de José Ricardo, do PT, a maior projeção eleitoral. Ou seja, abre mão de apresentar uma alternativa independente nas eleições.

Em Belém, o diretório municipal do PT decidiu apoiar o nome do deputado federal Edmilson Rodrigues (Psol) para disputar a prefeitura da capital paraense nas eleições desse ano, e indicou o nome da vereadora petista Ivanise Gasparim para compor a chapa como vice. Edmilson já foi prefeito da capital por dois mandatos, quando era filiado ao PT. Atualmente, a chapa da aliança também busca o apoio de partidos como PCdoB e PDT.

Por trás do discurso de combater a extrema-direita está uma lógica eleitoreira que não coloca que o aspecto mais fundamental para combater Bolsonaro, Mourão e os militares é que os trabalhadores coloquem suas forças nas ruas com uma política própria, independente de todos os setores patronais. A aliança com o PT e PCdoB, além de PDT e PSB, vai no sentido contrário. A trégua que Bolsonaro, o STF, o congresso e os governadores estão implementando para passar reformas contra a nossa classe, inclui também os governadores petistas, que também aplicam as reformas fundamentais para o mercado financeiro. O PT está aprovando a Reforma da Previdência no Rio Grande do Norte, assim como Rui Costa (PT) aprovou na Bahia antes da pandemia colocando a tropa de choque para reprimir manifestantes. Enquanto isso, Camilo Santana foi contra os atos antifascistas. Não é a toa que a CUT e a CTB não tomam nenhuma medida de organização e mobilização nos sindicatos que dirigem. Por isso, é preciso questionar: uma aliança nesses marcos de fato fortaleceria os trabalhadores e uma saída que priorize as vidas, e não os lucros?

Bolsonaro ao lado de Paulo Guedes e com seu governo repleto de militares saudosistas da sanguinária ditadura militar já deixou claro que quer acabar com os direitos trabalhistas e sociais. Sua prioridade é seguir com a agenda de privatizações e destruir o meio ambiente para representar os setores mais concentrados dos empresários. Esse projeto começou com o golpe institucional de 2016, que ocorreu para dar continuidade a ataques ainda mais profundos dos que o PT estava implementando, e depois teve continuidade com as eleições manipuladas de 2018.

Agora com a pandemia esse projeto fica ainda mais explícito, com os governos dividindo ainda mais a classe trabalhadora entre quem pode ou não fazer quarentena, permitindo uma série de demissões e sem oferecer medidas de prevenção para o combate ao vírus, como testes massivos, estatização de todo o sistema de saúde, auxílio emergencial de 2000 reais para atender as necessidades básicas dentre outras questões. O resultado dessa política são mais de 85 mil mortes no Brasil – sem contar a subnotificação – e, segundo os dados do IBGE, um aumento de mais de 26% no desemprego nos últimos dois meses.

Como Thiago Flamé afirmou em um artigo recentemente publicado,

“Enquanto o PCdoB entra com tudo na política de frente ampla e busca alianças com a direita neoliberal, o PT mantém um duplo discurso. Lula faz um discurso mais radical, se colocando retoricamente como inimigo número 1 de Guedes, rechaçando as articulações com a direita tradicional e defendendo chapa própria no PT no maior número de cidades em que isso seja possível, deixando a discussão das alianças para os segundos turnos. Já Haddad e os governadores participam das articulações com a direita tradicional e mantém um discurso mais moderado. De conjunto esse duplo discurso do PT, somado à política dos governadores e a passividade nos sindicatos, é funcional a manter o governo Bolsonaro desgastado até 2022, quando o PT teria melhores chances de vencer as eleições. Nós estivemos desde o primeiro momento denunciando o golpe em 2016 e exigindo o direito do povo votar em Lula em 2018, mas nunca confundimos nosso rechaço ao golpe institucional e a extrema-direita com um apoio político ao PT. Nas condições de crise econômica e social, vemos como atuam os governos petistas e do PCdoB (para não falar de PSB, Rede e PDT!) em todos os estados em que governam, aplicando a reforma da previdência (mesmo em meio à pandemia, como fez Fátima Bezerra no RN), inclusive reprimindo protestos dos servidores públicos. Já PSB e PDT, ambos os partidos, por exemplo, junto com a Rede, deram votos a favor do projeto de privatização do saneamento apoiado por Guedes e Maia.”

Qualquer saída que busque se aliar com quem freia as lutas dos trabalhadores nos sindicatos vai na contramão de uma alternativa independente da nossa classe capaz de impor uma saída contra o governo Bolsonaro e todo esse regime degradado. Precisamos de uma saída profunda e radical, que não busca nenhum tipo de aliança com setores burgueses que nos atacam. Uma alternativa que não se contente em mudar apenas os jogadores pela via do impeachment que colocaria Mourão na presidência, mas que batalhe pelo Fora Bolsonaro e Mourão e avance para fortalecer as lutas nas ruas e mudar as regras do jogo. A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT), da Argentina, vem levantando um polo de unificação da esquerda classista e revolucionária, questionando abertamente esse sistema degradado que é o capitalismo. Esse é um grande exemplo que a esquerda brasileira poderia seguir.

Os trabalhadores precisam refazer todas as leis que estão aí para nos atacar, a partir de uma nova Constituição a favor do povo e pra fazer que a crise econômica seja paga pelos empresários. Uma nova constituinte na qual, com a força da mobilização, batalhemos pela revogação das MPs que reduzem salários e da reforma trabalhista, pela proibição das demissões e pela divisão de horas de trabalho para todos aqueles que precisam trabalhar sejam empregados, sem que haja diminuição dos salários.

É importante impulsionar uma Assembleia Nacional Constituinte que permita debater também todos grandes temas nacionais, como acabar com o latifúndio, impor o fim do pagamento da dívida pública, a reestatização de todas empresas e riquezas nacionais entregues ao imperialismo, sob controle dos trabalhadores. Uma assembleia assim, democrática e que se choque com os interesses da burguesia, poderia ajudar os trabalhadores a verem a necessidade de impor um governo operário de ruptura com o capitalismo

É importante que uma parcela do eleitorado petista esteja buscando uma alternativa ao PT e disposta a votar no PSOL. Essa força social seria uma grande base para dar passos decididos na construção de uma força material de mobilização para construir uma resposta de independência de classe frente à crise em curso, fortalecendo essa batalha no terreno eleitoral, batalhando por superar pela esquerda o PT, a burocracia e a esquerda institucional. No entanto, as alianças que está buscando esse partido não apresentam um projeto que esteja à altura dos anseios deste importante setor social.




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