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Elza Soares, a mulher do fim do mundo, que vai cantar até o fim

Show no Ibirapuera, público negro jovem, faixa etária abaixo dos 20 anos. Todos esperam Criolo entrar no palco. Antes disso entra Elza com os cabelos coloridos em cima de uma cadeira de rodas. O público pergunta quem é ela, tiram um sarro com a cor de seu cabelo. Elza grita: “a carne mais barata do mercado é a minha carne negra”. A conversa paralela acaba e surge um respeito repentino pela cantora de 85 anos, que retoma os palcos com seu novo disco “A mulher do fim do mundo”.

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

quarta-feira 13 de janeiro de 2016| Edição do dia

A voz de Elza Soares ainda segue rasgando, arrepiando e desafiando a ordem. Nessa nova obra, seu disco de número 34 em sua longa carreira, que já se revelou como o melhor disco de 2015 e uma das grandes obras da música nacional brasileira, Elza segue afirmando a força da mulher negra que é. Elza é a mulher do fim do mundo, que vai cantar até o fim. Esse é sobretudo um disco de resistência.

O disco composto por novos músicos da cena brasileira como Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Clima, Marcelo Cabral, Guilherme Kastrup, Felipe Roseno , Celso Sim e Alice Coutinho, é o primeiro disco inteiramente de músicas inéditas de Elza Soares. Lançado no dia 3 de outubro do ultimo ano já encabeçou a grande esmagadora maioria das listas de melhores discos.

O disco se abre com a voz de Elza a capela, cantando, quase recitando “Coração do Mar”, letra de José Miguel Wisnick sobre o poema de Oswald De Andrade. Delicadamente, quase desapercebido é sobre os navios negreiros essa canção, sobre as viagens carregadas de sangue, que vieram dar em escolas de samba. Sobre a solidão de quem cantava “se eu tivesse um amor”, a solidão do negro, que persiste até hoje. “É um navio humano quente, negreiro do mangue”

E o samba se inicia em “Mulher do fim do mundo”, música de Romulo Fróes e Alice Coutinho. No carnaval, no samba, na avenida, “na chuva de confetes” em que se deixa a dor, a solidão negra já dita, a “pele preta”. É também onde essa mulher declara que irá “cantar até o fim do mundo”.

A mulher do fim do mundo é também “Maria da Vila Matilde”, personagem criada por Douglas Germano, que levanta a voz pro seu agressor e avisa em alto e bom som “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim” e a cuíca faz coro; a agressão não vai passar impune.

Em “Luz vermelha”, de Kiko Dinucci e Clima, é o fim do mundo, o apocalipse que se canta. O fim do mundo é, como todo o disco, na favela que acontece, pois é ainda Elza, a mulher que nasceu na favela Moça Bonita, em Padre Miguel no Rio de Janeiro que nos fala que ninguém vai sobrar nem o “rei da cocada” no meio do tiroteio quando ela soltar a bomba, pois ela é o povo negro da favela.

“Pra fuder”, de Kiko Dinucci, declara o desejo, o tesão que a mulher sente, da qual a mulher é sujeito. Elza destrói a imagem da mulher que é “comida”, é ela quem põe o outro pra gemer, quem faz do outro “presa”. A mulher não é passiva no jogo “pra fuder”, muito pelo contrário.

O tema da transexualidade vem em “Benedita”, de Celso Sim e Pepê Mata Machado. A letra começa descrevendo a morte de Benedito, que depois surge, junto com a mudança do ritmo musical, como Benedita, muito “mais que uma menina”, é mulher forte, “Homicida, suicida, apareceu, aparecida/ É maldita, é senhora, é bendita, apavora/ Vem armada, não rendida, faz do beco sacristia”. Benedita é exatamente o contrário de Benedito, descrito como “fera ferida”; Benedita “abre a navalha na boca” na zona do crack, apontando também o ambiente de miséria em que a transexual Benedita vive.

O disco é de favela e “Firmeza?!”, de Rodrigo Matos, vem trazer o palavreado e as falas de lá. A letra é construída inteiramente com as frases que são ditas no encontro entre duas pessoas que não se veem há tempos e se esbarram nas ruas onde foram criados juntos.

No tango “Dança”, de Cacá Machado e Romulo Fróes, vem esse sentimento de resistência, onde Elza diz que quando renascer – e esse disco é o seu renascimento – irá deixar a dança entrar no corpo. Elza ainda quer renascer, quer mais tempo, pois não há interesse nenhum em morrer.

Em “O canal”, de Rodrigo Campos, Elza canta Alessandra que não vai bem, que sente o “brilho do farol de Alexandre, o Grande”. Canta o rio no Egito onde existiu o farol de Alexandria. Canta o peso do homem sobre a mulher.

“Solto”, de Marcelo Cabral e Clima, trará mais uma vez a solidão “preta”, a solidão da mulher negra sobre os acordes de violão e violino. Uma solidão que diz diretamente ao corpo, física e não subjetiva, sob a sua própria sombra.

Há as distorções no fim de “Solto”, e um silencio repentino e curto para se iniciar “Comigo”, Romulo Fróes e Alberto tassinari. “Levo minha mãe comigo(...)” - rasga a voz de Elza mais uma vez a capela – “(...) pois deu-me seu próprio ser”. A mãe é sua ancestralidade, quem a lembra que não há solidão, há toda uma história, uma carga e um peso em ser mulher negra.

O disco acaba em um silêncio enorme, apenas o que resta é a voz de Elza cantando bem baixinho, quase inaudível; é um ato de resistência, mesmo depois do fim resta a voz dessa mulher dizendo que o que a “fez morrer vai lhe fazer voltar”, retomando a letra de “Dança”. É a mulher do fim do mundo que vai cantar até o fim.




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