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Eleições para Reitor da USP: uma primeira análise dos candidatos

Saiu a lista dos candidatos a reitor da USP num processo marcado pela falta de democracia.

terça-feira 26 de setembro| Edição do dia

Ontem, às 17h, tornou-se pública a lista dos candidatos a reitoria da maior universidade pública do país, a USP. São quatro chapas inscritas. As eleições ocorrerão no dia 30 de outubro. A publicação das chapas que concorrerão à reitoria da USP abre oficialmente a corrida eleitoral (leia-se e os acordos e negociatas para a conformação da próxima gestão). A próxima gestão (de 2018 a 2022) é inicialmente escolhida a partir de uma lista tríplice dos mais votados (eletronicamente a partir deste ano) pelo Conselho Universitário, Conselhos Centrais, Congregações das Unidades e Conselhos Deliberativos dos Museus e dos Institutos Especializados, no dia 30 de outubro. Todos estes órgãos somados não chegam a 1% de toda a comunidade universitária composta por cerca de 95 mil estudantes, 14 mil funcionários e 6 mil docentes !! A lista com as três chapas mais votadas é encaminhada ao governador, a quem cabe a escolha final. No dia 23 de outubro uma consulta pública deverá ser feita. Pura demagogia, já que a maioria dos conselheiros com direito à voto pertencem a alta casta burocrática da universidade e não se guiam por essa consulta.

Os conselheiros com direito a voto nesta eleição são eleitos para o CO e congregações de forma absolutamente anti-democrática. Proporcionalmente, os conselhos e congregações também são representam a composição da comunidade da USP. Estudantes, que são maioria absoluta na universidade (em torno de 95 mil) têm direito a um número ínfimo de vagas no Conselho Universitário (CO) e nas congregações. Os funcionários, quase 15 mil na universidade, também são uma minúscula minoria. A larga maioria são docentes, principalmente do alto escalão da casta universitária. Destes últimos, apenas os docentes titulares, que são minoria entre os professores, podem se candidatar a reitor. Ou seja, são deixados de lado os demais professores, mas também funcionário e estudantes. Como se não bastasse, mesmo esses 1% da comunidade universitária valem menos que uma pessoa, o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. É a ele quem cabe a escolha do próximo reitor. Fica evidente o caráter antidemocrático das eleições para reitor na USP. Algo que curiosamente sequer é mencionado pelas chapas concorrentes.

A lista divulgada pela Universidade de São Paulo traz as seguintes indicações:

Chapa “USP: EXCELENCIA PARA A SOCIEDADE” composta pelos candidatos a reitor Vahan Agopyan (atual vice- reitor) e Vice-Reitor: Antonio Carlos Hernandes (atual pró-reitor de graduação);

Chapa “A USP É MAIOR QUE A CRISE POR UMA UNIVERSIDADE RENOVADA” composta pela candidata a reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda (atual diretora da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) e pelo Vice-Reitor Paulo Borba Casella (Faculdade de Direito);

Chapa “POR UMA USP PARTICIPATIVA” composta pelo candidato a reitor Ildo Luís Sauer (Vice-Diretor do lnstituto de Energia e Ambiente, antigo IEE) e Vice-Reitor Tércio Ambrizzi (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas);

Chapa “USP: AUTONOMTA COM SOLUÇÕES INOVADORAS” composta pelo candidato a reitor Ricardo Ribeiro Terra (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) e a Vice-Reitor Albérico Borges Ferreira da Silva (Instituto de Química de São Carlos);

As eleições para reitor na USP ocorrem em um cenário estadual marcado pelas disputas eleitorais dentro do próprio PSDB paulista com a troca de farpas entre Alckmin e Dória para as eleições de 2018. No plano interno à universidade, as eleições se inserem em uma profunda desmoralização e desgaste das instituições do regime universitário. A gestão de Marco Antonio Zago escancarou aquilo que durante anos sempre se mostrou à comunidade universitária como uma casta de burocratas que comandam a universidade de costas para os interesses dos trabalhadores e do povo pobre e de braços abertos para as empresas e os interesses corporativos do mercado. A gestão Zago ficou marcada pela truculência e por aprovar a chamada PEC do fim da USP em uma reunião do Conselho Universitário (órgão máximo de decisões na USP) que só pode ocorrer após uma verdadeira chuva de bombas e um espetáculo de horrores em frente à reitoria. Nenhum dos candidatos consegue reverter o nível de desgaste do regime universitário, e tampouco o profundo processo de desmonte que a USP vem passando. Ao contrário, até mesmo o candidato que especula-se ser o mais provável a ocupar a cadeira de reitor nos próximos 4 anos, Vahan Agopyan sofre com rechaço de parte da burocracia universitária e já se fala nos corredores que deve entrar pela ausência de outra figura mais forte. O candidato “oficial”, além de ser ligado a uma das unidades mais fortes da USP como é a Escola Politécnica, é visto como continuidade direta da gestão Zago,o que ele tampouco tem o trabalho de esconder em seu próprio programa de gestão, que deve seguir a linha de ajustes e desmonte dos chamados Parâmetros para a Sustentabilidade Econômico-Financeira da USP.

A lista divulgada não traz nenhuma surpresa. Encabeça a lista o candidato “oficial” Vahan Agoyan que faz parte da atual gestão com a chapa intitulada “USP: excelência para a sociedade” e que tem como candidato a vice-Reitor Antonio Carlos Hernandes. Não à toa, em seu programa, Vahan retoma o projeto do atual reitor, Marco Antônio Zago. Vale lembrar que é esta atual gestão que acelerou o processo de desmonte e sucateamento da USP. Marcada pela perseguição à organização sindical dos trabalhadores e estudantes, Zago e Vahan, tentaram processar e demitir dois diretores sindicais negros, Marcello Pablito Santos e Zelito, por lutarem junto aos estudantes por cotas raciais na universidade. A sede do Sindicato dos trabalhadores da USP (Sintusp) foi duramente atacada por essa gestão, sendo retirada do local que ocupava há mais de 50 anos.

Também essa gestão perseguiu os trabalhadores que lutaram contra o arrocho salarial em 2016, impondo o desconto dos dias parados, mesmo com ordem judicial contraria ao desconto. A vitória judicial dos trabalhadores não foi suficiente para a reitoria pagar os dias descontados (62 dias) e os trabalhadores seguem sem seus salários.

Há 2 anos Zago e Vahan implementaram o projeto KOBAN, que aprofundou o convênio com a Polícia Militar. O resultado é o aumento da repressão à estudantes e trabalhadores sem a diminuição do número de roubos e furtos, conforme apontou pesquisa divulgada pela Folha de São Paulo. Ao contrário, a PM de Zago e Vahan foi responsável por tornar a USP um verdadeiro palco de guerra durante uma manifestação pacífica de funcionários, docentes e estudantes no dia 7 de março deste ano. Agrediram com chutes e pontapés e levaram presa uma educadora da creche que filmava a ação e com cassetetes feriram na cabeça uma funcionária da Faculdade de Educação e um estudante da ECA que foi preso enquanto era atendido no hospital para tratar dos ferimentos. Tudo para aprovar os chamados Parâmetros de Sustentabilidade da USP, que nada mais é do que um plano concreto de destruição da universidade, com arrocho salarial e demissões em massa previstos no plano.

Desde seu início, a gestão Zago-Vahan cancelou novas matrículas nas creches universitárias. Centenas de mães estudantes e trabalhadoras e crianças foram impedidas de ingressar nas creches da USP até o ano de 2017. O plano era bem simples, acabar com as creches da USP. Depois de muita luta, as inscrições e matrículas foram reabertas, mas em um número menor do que existia antes. A abertura de matrículas no entanto não significou que as creches estão seguras. No início deste ano, Zago e Vahan fecharam uma das creches, a creche Oeste. A absurda ação da reitoria foi respondida com um amplo e democrático movimento de ocupação da creche oete pela sua reabertura. Mesmo com a vitória judicial, a creche continua fechada, mostrando mais uma vez que a atual gestão não respeita sequer a justiça.

Desde que assumiu a reitoria, Zago e Vahan marcharam a todo o vapor contra as unidade de saúde. Deram início ao processo de desvinculação do Hospital de Reabilitação de Anomalias Crânio-Faciais de Bauru e no sucateamento do Hospital Universitários e dos Centros Saúde-Escola. O objetivo é entregar essas unidades para fundações privadas, como já acontece com o Hospital das Clínicas. É este o legado da atual reitoria que Vahan Agopyan faz parte e pretende dar continuidade.

Os demais candidatos não se apresentam como uma alternativa à atual gestão. A atual diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda (que tem como vice Paulo Borba Casella), já fez parte desta gestão, como Pró-Reitora de Cultura e Extensão Universitária. Em seu programa tenta se posicionar como opositora da atual gestão. Porém, ao citar os “acontecimentos do dia 7 de março” além de sequer citar a terrível repressão a que foram submetidos não apenas seus colegas de profissão, mas centenas de trabalhadores e estudantes, não se posiciona de forma clara contra os ditos parâmetros. Aliás, todo o seu programa escorrega na não posição e ao propor de forma ampla e abstrata “valores humanistas, plurais, republicanos, includentes, sobretudo altivos”. Oras, os trabalhadores e estudantes da USP não se opõe a nenhum dos valores acima. Mas o que isso quer dizer? O que Maria Arminda não explica em seu programa, que tenta se apresentar como o “mal menor” é como vamos ter valores humanos, plurais e republicanos em uma universidade marcada pela desumanidade praticada com os trabalhadores, sobretudo os terceirizados? Como falar em pluralidade se as vozes dos lutadores são abafadas com processos administrativos, criminais e a repressão policial? O programa de Maria Arminda não aponta nenhuma alternativa a estes problemas.

Em seu programa fala abertamente sobre a crise das universidades, acusando “grupos corporativo-sindicais” de fazerem “ouvidos moucos a seu enfrentamento firme”. Qual o enfrentamento firme sua chapa propõe? Como atual gestão da direção da maior unidade de ensino dentro da USP, Maria Arminda ainda falha na ausência de diálogo amplo. Instalou câmeras na faculdade sem sequer consultar estudantes ou trabalhadores, manteve um número extremamente baixo de trabalhadoras terceirizadas, já foram 50 há alguns anos e hoje são 27 trabalhadores em uma unidade onde circulam mais de 400 professores, 300 funcionários e mais de 12 mil alunos.

A chapa encabeçada por Ildo Luís Sauer (que tem como vice Tércio Ambrizzi), intitulada “Por uma USP participativa” pode ser resumida em uma linha, retirada de seu próprio programa: “ Não obstante iniciativas e ações, empreendidas pela atual gestão, na direção correta para enfrentar a grave crise, estas foram muito tímidas, poucas e tardias.”(...) “Vamos caminhar UNIDOS para atingirmos nosso objetivo, que é ter uma universidade atuante, participativa e de classe mundial. (...)

Ou seja, é uma chapa que, embora aparentemente não tenha chances de sair vitoriosa, caso o saia não se enfrenta ao verdadeiro desmonte que a atual gestão executou na USP, limitando-se a falar em “diálogo” e “participação” mas sem apontar nenhuma medida concreta com a qual se pode efetivar essa participação. O que acha sobre a proposta de Estatuinte Livre e Soberana defendida pelo movimento como forma de assegurar a “participação” dos três setores que compõem a universidade? Como falar em caminhar unidos se a crise da universidade está sendo descarregada sobre as nossas costas? Quais medidas concretas pensa para reverter a devastação feita por Zago? Não bastasse isso, ao falar da crise financeira da USP o Prof. Ildo Sauer deixa nas entrelinhas a possibilidade de que o orçamento da universidade seja complementado através de “novos paradigmas de apoio e fontes de recursos, sempre com a hegemonia da universidade pública”, o que seriam os referidos novos paradigmas? Será que o professor se refere a entrada de capital privado complementar ao orçamento público tal qual existe em algumas unidades da USP?

Por fim, a chapa encabeçada por Ricardo Ribeiro Terra (que tem como vice Albérico Borges Ferreira da Silva) e se intitula “Autonomia com soluções inovadoras”, celebra a atual gestão. Em um programa de pouco mais de 3 páginas, comemora a aprovação dos Parâmetros de Sustentabilidade e insiste em afirmar que há funcionários em excesso! Vale lembrar que o número de funcionários diminuiu enquanto o número de estudantes duplicou nos últimos anos. Para Terra, assim como para Zago e Vahan, a culpa da crise é o número de funcionários, a eles pouco importa se estamos adoecendo de tanto trabalhar.

Bruno Gilga Rocha, representante dos funcionários no Conselho Universitário declarou:

“Os programas de todas as candidaturas deixam uma coisa muito clara...
Vahan, como candidato oficial da atual reitoria, obviamente defende todo os desmonte que ajudou a implementar, e continuidade dessa linha.
Ricardo Terra faz críticas, mas no sentido de aprofundar a linha produtivista e privatizante, e diz que essa gestão teve "o sucesso de retirar a USP da falência datada", e que a USP "insistiu em manter-se amarrada a uma pesada estrutura de funcionários em excesso".
Ildo Sauer, que se apresenta como ex-diretor da ADUSP, diz que "Não obstante iniciativas e ações, empreendidas pela atual gestão, na direção correta para enfrentar a grave crise, estas foram muito tímidas, poucas e tardias"
E Maria Arminda, mesmo se apresentando como oposição, diz que a crise tem que ser resolvida "mesmo que grupos corporativo-sindicais ainda façam ouvidos moucos a seu enfrentamento firme".
Essas declarações mostram como o acordo mais forte que todos têm é em torno das medidas pra jogar a crise nas costas dos trabalhadores, estudantes e do que resta de universidade pública!”

A democracia dos 1%

O quadro acima mostra que não é possível esperar que qualquer uma das chapas atenda aos reais interesses dos estudantes, trabalhadores e professores e dos trabalhadores e do povo pobre que sustentam a Universidade de São Paulo. Nos programas sobram generalidades e é completamente ausente o reconhecimento do caráter escandalosamente anti-democrático da indicação para reitor e de todas as decisões tomadas em um verdadeiro jogo de cartas marcadas onde primam as negociatas e acordos para preservar os interesses de uma casta que controla o poder na universidade há 84 anos. Precisamos avançar na unidade entre estudantes, trabalhadores e professores para arrancar com a nossa força o controle das mãos desse punhado de parasitas que estão levando a USP para o buraco, e entregando-a cada vez mais aos interesses do capital privado. Para isso vamos ter que avançar para dissolver o Conselho Universitário e o cargo arcaico e monárquico de reitor na universidade, impor com a força da nossa luta uma Estatuinte Livre e Soberana que permita aos estudantes, professores e trabalhadores decidirem todos os rumos da USP e formar um governo composto pelos três setores, com maioria estudantil que possa democratizar o acesso a universidade implementando as cotas raciais proporcionas a população negra e indígena do Estado de São Paulo rumo ao fim do vestibular para que todos os filhos da classe trabalhadora e o povo pobre possam estudar. Em um governo assim poderíamos questionar também o conteúdo de tudo o que é produzido na universidade, avançando para construir uma universidade a serviço dos trabalhadores e do povo pobre. Se avançamos nesse sentido certamente estaríamos em melhores condições para partir do questionamento da universidade de classe para o questionamento da sociedade de classes!

Veja o vídeo gravado por Bruno Gilga Rocha a respeito das “eleições” para reitor:




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