Internacional

REPERCUSSÕES DO GOLPE NA BOLÍVIA

Eleições na Bolívia: para o golpista Camacho, "se continuarmos assim, Evo volta"

O MAS (de Evo Morales), com Luis Arce Catacora, encabeça a pesquisa com 31,6%. Os demais candidatos estão cerca de 14% de distância.

quarta-feira 19 de fevereiro| Edição do dia

No último domingo, dia 16 de fevereiro, os resultados da pesquisa de intenção de votos, feita pela empresa CiesMori, veio a tona. O MAS (de Evo Morales), com Luis Arce Catacora, encabeça a pesquisa com 31,6%. Os demais candidatos estão cerca de 14% de distância: Carlos Mesa do Comunidad Ciudadada com 17,1%, em terceiro lugar ficou Áñez, com 16,5% e logo em seguida Camacho com 9,6%. Este último, logo após saber dos resultados, anunciou que coloca sua candidatura à disposição em prol da unidade e pediu o adiantamento urgente da reunião que a direita tinha programado para o dia 3 de abril.

No dia 03 de fevereiro se encerrou o processo de registro das siglas e listas de candidatos para as eleições no país após o golpe contra Evo Morales. Foram registrados oito partidos políticos. O MAS com a dupla formada pelo ex ministro da economia de Evo Morales, Luis Arce Catacora, e seu ex chanceler, David Choquehuanca. A direita golpista, fragmentada, entrou na corrida eleitoral com sete chapas, que vão desde expressões de centro-direita como a do ex vice presidente do Gonzalo Sánchez de Lozada, Carlos Mesa, até variantes evangélicas e com traços reacionários como as candidaturas de Áñez, pela frente “Juntos”, que se autoproclamou presidenta cumprindo a promessa de voltar a colocar a Bíblia no Palácio; Fernando Camacho pela frente "Creemos" (Acreditamos, em português) que iniciou sua campanha eleitoral com um ritual religioso na igreja de Cotoca; Jorge “Tuto” Quiroga (ex vice presidente del falecido ditador Hugo Bánzer Suárez) da frente “Libre 21” (Livre 21, em português) que citou textos bíblicos quando anunciou sua candidatura; e o pastor evangélico Chi Hyun Chung que iniciou sua campanha eleitoral na cidade de Sucre assinalando que "estamos cansados de comunistas, é necessário instalar uma Bolívia para Cristo".

Os resultado de uma pesquisa realizada por Ciesmori causaram uma tensão grande em todos os partidos e candidatos da direita. A mesma que mostrou que a intenção de voto para o MAS o levaria a ter, no primeiro turno, cerca de 31,6% de votos e com tais resultados poderia conseguir a maioria na Assembleia Legislativa.

Frente a esta ameaça, Ricardo Paz, o chefe de campanha do candidato presidencial Carlos Mesa, assinalou que "o que os políticos conseguiram em termos de unidade, os cidadãos devem conseguir agora, de maneira a concentrar o voto em uma candidatura". Outras vozes por outro lado, começaram a reclamas que não pode ser possível que a fragmentação da direita e a ganância dos candidatos jogue para cima o esforço que a "rebelião das pititas" - como a direita chama ao movimento cívico, clerical, empresarial, policial e militar que consumou o golpe de estado - conseguiu ao se livrar "do tirano" depois de 14 anos de governo. Assim, voltam a surgir as reinvindicações da unidade da direita frente à grande ameaça de que o MAS retorne ao poder.

Nesse cenário, começa a se desenhar que são três as forças políticas que têm possibilidades de disputar o controle do Estado nas próximas eleições do dia 3 de maio. O MAS, "Juntos" de Jeanine Áñez e a “Comunidad Ciudadana” de Carlos Mesa.

Frente a isso, o reacionário ex líder cívico Luis Fernando Camacho, em um ato desesperado sinalizou que está disposto a deixar sua candidatura em branco e pediu que de forma urgente se adiante a reunião que a direita tinha programado para o dia 3 de abril com o objetivo de que "todos apoiem somente uma candidatura". Em suas palavras, que foram divulgadas pelo Diario Página Siete:

"Sim, nós deixamos nossa candidatura em branco, e deixaremos quantas vezes for necessário pela Bolívia, mas sentemos e façamos somente uma candidatura (...). "

Os que pedem a proscrição dos principais candidatos do MAS levantam a voz

Enquanto os resultados de CiesMori deixam o MAS em uma posição "cômoda", que gozaria de uma vantagem de mais de 14 pontos em relação a seus rivais, outra discussão vem se desenvolvendo. Trata-se dos pedidos de proscrever as candidaturas de Evo Morales, como primeiro senador por Cochabamba, e seu candidato à presidência, Luis Arce Catacora.

Esta terça, o Órgão Eleitoral Plurinacional publicou a lista dos candidatos habilitados, inabilitados e dos casos impugnados que se encontram em processo de revisão para determinar se seguirão nas próximas listas. Entre os casos impugnados se encontra o Evo Morales, Luis Arce assim como Diego Pari (ex chanceler de Evo Morales que assumiu o cargo substituindo David Choquehuanca).

O Comitê Cívico de Santa Cruz convocou, nesta sexta, uma reunião de todos os Comitês Cívicos a nível nacional. Também anunciaram que a assembleia da cruceñidad resolveu que em caso da candidatura do Evo Morales se oficialize, iniciarão uma paralização civil por tempo indeterminado, reatualizando sua política ao ameaçar colocar nas ruas os paramilitares da União Juvenil Cruceñista (UJC) e da Resistência Juvenil Cochala (RJC).

O Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) tem até sexta, dia 21 de fevereiro para se pronunciar sobra a habilitação e não de Evo Morales e Luis Arce. Ao não habilitar Arce, o candidato com a maior intenção de votos no país seria proscrito e seria colocado em dúvida a legitimidade política (não mais jurídica) de um processo eleitoral nada democrático. Agora, se legitimam a Arce seriam obrigados a legitimar Evo Morales.

Para além da verossimilhança dos resultados da pesquisa de CiesMori, o certo é que o efeito político é um chamado a ordem a toda a direita dispersa pela recolocação da urgência da unidade. O primeiro a ir para escanteio, como assinalamos linhas acima é Camacho após perder o apoio da Resistencia Juvenil Cochala que hoje anunciou sua retirada da Aliança Creemos para ir com Juntos de Añez. Por sua vez, o Mas se declarou em estado de "emergência permanente" ante a possível proscrição de seus principais candidatos.

Neste cenário, ainda incerto, está para ver-se como vão se desenvolvendo as forças sociais em favor ou contra a resolução que será emitida pela Justiça eleitoral (TSE). No caso de que Arce e Morales estejam habilitados o comite cívico pró Santa Cruz cumprirá sua ameaça de iniciar uma paralisação indefinida com bloqueio de estradas? em caso de faze-lo, o movimento dos produtores de coca e o norte de Santa Cruz e os setores que o MAS ainda tem controle, que medidas tomarão? Em caso do oposto se confirmar, de que o TSE desabilite a esses candidatos, que medidas tomará o MAS que já se declara em estado de emergência? Como responderá o exército e a polícia ante um eventual triunfo do MAS? Recordemos que esta segunda feira, dia 17 de fevereiro, o ministro da Defesa, Luis Fernando López, em uma cerimonia de licenciamento de soldados e marinheiros disse "voces camaradas não devem permitir a dissolução das "Forças Armadas nem da Polícia como pretedem os seguidores de venezolanos e cubanos", em declarações que mereceriam vaias das pessoas concentradas no ato ao colocar em evidência a vontade golpista de impedir por qualquer meio que o MAS volte ao Palácio.

Entretanto, a estratégia do MAS, desde o mesmo golpe de estado até hoje tem sido de colaborar e negociar permamentente com a direita golpista em nome da pacificação do país e ao custo do sangue derramado do povo nos massacres de Sacaba, Senkata e de Ovejuyo, ao custo de centenas de feridos e detidos.

Pese a tremenda perseguição política, aos processos a dezenas de trabalhadores e estudantes de El Alto e de distinas partes do país que foram detidos ilegalmente, torturados como começa a se revelar agora, o MAS somente se dedica a apostar em derrotar os golpistas nas eleições - quando essas mesmas estão severamente questionadas - e desmobiliza sistematicamente qualquer possibilidade de luta. Com todo isso, o novo regime e o Governo de Añez parece até que pretende eleger o candidato do MAS.




Tópicos relacionados

Golpe de Estado Bolívia   /    Evo Morales   /    golpe   /    Internacional

Comentários

Comentar