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Eleições dos Estados Unidos: a decadência de um império entre a direita de Trump e a resistência das lutas negras

As atuais eleições dos Estados Unidos são um dos fatos mais importantes da situação internacional e marca uma mudança de tempos. A forte polarização política e social herdada das condições da crise de 2008 resultou no surgimento de novos fenômenos políticos anti-establishment pela esquerda, como Sanders, e pela direita, como Trump.

Fernanda Montagner

São Paulo

sexta-feira 19 de agosto| Edição do dia

Obama, que havia sido eleito como uma nova cara, negro e com o lema da esperança e da mudança, despertou grandes expectativas, que logo foram ruindo. Obama foi um dos presidentes que mais deportou imigrantes, manteve a violência policial contra os negros, e ainda teve uma política de salvamento dos bancos, enquanto a população sofria com a crise. O Occupy Wall Street é a primeira expressão política da crise, denunciando a desigualdade social nos EUA. Em 2013 ocorre a explosão de grandes movimentos em resposta à violência racista da polícia chamado "Black Lives Matters", que seguem até hoje.

A atual eleição é resultado desse processo, e por que é tão importante? Porque esses novos fenômenos são resultado da crise dos principais projetos do imperialismo no último período, que foi o neoliberalismo com a soberania dos EUA. Ou seja, é a crise de toda uma época desde o fim da guerra fria. Chamamos essa crise de orgânica, para definir uma crise estrutural e de conjunto, que escancara as contradições profundas onde a classe dominante não pode mais resolver pela via de seus métodos de dominação política habituais.

Abrindo, assim, um período de profundo questionamento e rupturas de setores importantes das classes exploradas com os partidos tradicionais, conservadores ou socialdemocratas, que haviam adotado o mesmo programa neoliberal. Essa crise pode expressar fenômenos à direita e à esquerda. Particularmente Trump, é um dos principais fenômenos à direita no mundo, e se utiliza do desespero social, com o aumento das demissões e fechamento de fábricas causado pelos capitalistas, para ganhar influência em setores da classe trabalhadora tradicional a partir de um discurso populista de fazer os “EUA grande de novo”, e de um “rompimento” com o sistema político atual.

Donald Trump é a forma mais acabada da decadência dos EUA, sua campanha é marcada por afirmações racistas, machistas e homofóbicas, sendo um dos seus principais motes a luta contra o terrorismos e a imigração. Nas suas propostas estão desde a construção de um muro com o México, assim como impedir a imigração de países como Iraque, Síria e Afeganistão para manter os imigrantes “radicais” fora do território americano.

Por outro lado, Hilary Clinton vem trabalhando para ganhar espaço através da política do medo de um possível “Trump presidente”, e grande parte da burguesia está unida pela Hillary, financiando sua campanha, inclusive setores Republicanos que acham Trump um candidato “incontrolável”. Hillary por sua vez não consegue causar entusiasmo, aparece como "candidata responsável", mas que não é nenhuma alternativa para a juventude e os trabalhadores, e sim representa a continuidade de uma política militarista agressiva, que busca recompor a hegemonia dos Estados Unidos.

Por sua vez, os fenômenos à esquerda se desenvolvem no seio da luta contra o racismo, na juventude e no movimento operário mais precário, que luta pelo aumento do salário mínimo de U$15 a hora, contra a violência policial e o racismo (Black Life Matters), nas greves de professores, entre outros. O candidato Bernie Sanders havia ganhado muito entusiasmo dessa juventude pelo seu discurso “socialista” (80% dos menores de 30 anos optaram por apoiá-lo), mas que rapidamente se perdeu quando declarou apoio a Hillary, chegando a ser vaiado numa convenção democrata. Essa juventude que começa a expressar novas formas de pensar e busca o “socialismo”, ainda que confuso e sem ainda ter o conteúdo de combate ao capitalismo como saída da crise, indica um questionamento aos aspectos mais selvagens do capitalismo, e pode pré-anunciar um giro à esquerda nos próximos anos.




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