MULHERES CONTRA A DIREITA

#EleNão e pesquisas eleitorais: a derrota da extrema-direita será pela luta de classes

Após os atos do #Elenão no dia 29 de setembro e do giro do Globo, Datafolha e outros monopólios capitalistas em prol de Bolsonaro, se faz ainda mais fundamental fortalecer o combate à ultradireita. Mas para isso é preciso saber que a derrota de todo reacionarismo virá pela luta de classes, e não pelas eleições, como quer fazer crer o PT

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

quarta-feira 3 de outubro| Edição do dia

Nas redes sociais, nas ruas nas conversas as mulheres têm destilado ódio contra Bolsonaro. Isso se demonstrou nos atos do 29, e segue agora após a divulgação da campanha feita pelo Globo em seu favor em base à pesquisa de metodologia duvidosa do Ibope, e após a esposa de Moro ter declarado apoio ao ultradireitista. Após ver que seu candidato neoliberal tradicional, como Alckmin, não emplaca, agora o Globo abandonou toda a demagogia que vinha fazendo com as mulheres, negros e LGBTs, e assume sua feição mais alinhada com seu objetivo estratégico de descarregar a crise nas costas dos trabalhadores, e avançar na privatização e entrega das riquezas do país ao imperialismo. Teve como aliada também a pesquisa do Datafolha, que demonstrou os mesmos resultados.

Rapidamente questionamentos surgiram nas redes sociais. Como pode ser que após os atos convocados pela #Elenão a intenção de voto em Bolsonaro tenha se fortalecido? A máquina da mídia burguesa, e seus institutos de pesquisa foi ágil. Uma hipótese é que tenham adiantado a necessidade de desencorajar que se avance nas ruas contra a ultradireita, disseminando que essa via de ação termina colaborando para fortalecer aquilo que se almeja combater, no caso Bolsonaro.

Uma continuidade na tentativa de alcançar o que os capitalistas, sua imprensa, partidos e o Judiciário cada vez mais autoritário querem com essas eleições, a mais manipulada da história recente do país. A delação de Palocci contra Lula e Dilma simplesmente vaza, marcando a entrada novamente de Moro e seus joguetes na cena política. Agora que o PSDB, seu patrocinador oficial, decaiu Moro presta seus “serviços” a Bolsonaro. Um jogo sujo promovido através da ação da Lava Jato protagonizada por juízes submissos aos interesses capitalistas estrangeiros, que ganham em um mês o que a ampla maioria dos trabalhadores não ganha em um ano para que sigam enriquecendo, enquanto descarregam a crise sobre os nossos ombros. A própria constituição de 1988, tutelada pelos militares, está sendo reescrita desde o golpe mais à direita, e estamos diante de um novo capítulo disso.

Os “mercados” não tardaram em responder. O mesmo Globo veio à público novamente dizer que o resultado favorável a Bolsonaro nas pesquisas haviam elevado o valor das ações estatais, e pressionado a uma baixa do dólar, que vinha alcançando níveis de alta muito grandes. Mais uma manobra para forçar a aprovação do candidato da ultradireita. Dessa maneira, capitalistas, Judiciário, imprensa dos ricos e o capital financeiro dão as mãos para em um movimento atacar os trabalhadores, e seus direitos políticos mais básicos.

Também não tardou para que algumas máscaras, já gastas por certo, caíssem. Como a de Ciro Gomes, que frente aos resultados do Ibope e do Datafolha, classificou os atos contra Bolsonaro do dia 29 como um “erro”. Isso depois de ter dito que “as mulheres salvariam o Brasil”, e ter tentando fazer sua vice, a porta-voz dos ruralistas e igualmente reacionária Kátia Abreu como parte do #Elenão.

Bolsonaro agora, que tem novos aliados, seguirá destilando machismo, homofobia, ódio aos pobres e negros que defende, mas também pela hipocrisia, pois se diz um outsider político quando na verdade lamberá as botas dos mesmos que roubaram os trabalhadores (http://esquerdadiario.com.br/ideiasdeesquerda/?p=379), usando um discurso típico da escória de humanidade mais reacionária. Somos parte do ódio contra ele, já que lutamos todos os dias contra essa sociedade de opressão. Mas queremos ir além, e libertar a sociedade de toda a exploração capitalista. Para isso essa raiva justa, que se expressou nos atos do dia 29, deve ser canalizada para uma estratégia e um programa que realmente possam responder aos anseios das mulheres. Frente à amplitude do movimento do dia 29, e agora dos recentes dados das pesquisas eleitorais, é que queremos debater como avançar em derrotar efetivamente a ultradireita de Bolsonaro, e tudo o que ele representa, sem fortalecer o mal menor petista, que foi quem em 13 anos de governo abriu caminho à direita.
Onde leva a estratégia de conciliação com os golpistas.

O movimento #Elenão, apesar de ter levado milhares às ruas, teve um significado de “unidade nacional” de todos e todas contra Bolsonaro, numa tentativa de fortalecer eleitoralmente o PT. Mas é assim que derrotaremos a ultradireita e arrancaremos nossas demandas? Cada vez é mais claro que não. A derrota da ultradireita não será eleitoral, por uma vitória do PT, ou de Ciro Gomes, já que mesmo que isso ocorresse o reacionarismo abjeto de Bolsonaro já domina um setor. Esses reacionários que estão ousando levantar a cabeça devem ser combatidos com todas as nossas forças, mas pela luta de classes.

Por mais que o ato do dia 29 tenha movimentado centenas de milhares pelo país, terminou-se não levando até o final a sua potencialidade, ao ser refém da estratégia eleitoral do PT ao propagar a mentira de que a situação de crise no país se resolverá pelo voto. É preciso debater amplamente esse balanço, ainda mais agora com a subida das tendências de voto em Bolsonaro, pois mais uma vez a estratégia de conciliação com os golpistas levada à frente pelo PT permite o fortalecimento da ultradireita.

Assim, não se pode confiar que o PT será parte da batalha consequente contra o reacionarismo de Bolsonaro. Muito pelo contrário. Além de querer canalizar tudo para a eleição do Haddad, o PT foi o responsável por abrir caminho para a direita, que alentou o nascimento dessa ultradireita. Nunca lutou, por exemplo, contra o golpe de 2016. Pactuou com figuras como Eduardo Cunha. Colocou como vice Temer. E Dilma fez uma campanha em 2014 dizendo que não atacaria. E atacou. Isso abriu caminho para a Lava Jato, e não as manifestações de junho de 2013, como a narrativa oficial petista quer fazer crer, por mais contraditórias que tenham sido pela ausência de uma direção revolucionária.

Agora frente ao fortalecimento de Bolsonaro, Haddad está oferecendo um verdadeiro pacto com os mesmos golpistas. Vem negociando com ninguém menos que o PSDB, após o mea culpa de Tasso Jereissati, MDB e setores do centrão. Também deu declarações de que manterá os ajustes, como a reforma da previdência. Em meio às mais sujas manobras do Judiciário, dos capitalistas e seus porta-vozes, Haddad e o PT seguem mantendo sua política de canalizar toda a raiva contra a ultradireita para as eleições mais farsescas, disseminando a mentira de que votando se solucionará a crise política, econômica e social do país. Os agentes que dominam essa democracia degradada, cuja decadência se aprofunda a cada dia, sorriem agradecidos. Marx dizia que a tragédia se repete como farsa. Agora vemos o PT pactuar com os mesmos setores que estiveram por trás do golpe de 2016.

Como é possível combater a ultradireita consequentemente se a própria política do PT, de ter sido freio dos trabalhadores na luta contra o golpe e negociatas com a direita, pavimentou o caminho para o crescimento para essa mesma ultradireita? Acerta quem responde que não é possível.

Uma saída de fundo deve ecoar na voz das mulheres

No capitalismo não existe mal menor para as mulheres. A crise sempre é mais dura para nós. As mulheres trabalhadoras são as que ocupam os piores postos de trabalho, amargam a precarização, a dupla às vezes tripla jornada. Por isso fomos parte das manifestações do dia 29 de setembro, mas com a perspectiva clara de que nem todas as mulheres são nossas aliadas nessa luta, como Sheherazade, Kátia Abreu, Marina Silva, ou mesmo Manuela D’Avila, que está a serviço de conciliação quando se necessita de organização e de uma política independente. Muito menos qualquer um que se eleger no lugar de Bolsonaro. Precisamos ser firmes, e através da luta de classes fazer com que todos os que são contra a ultradireita não tenham medo, mas se organizem para enfrenta-la. E isso não eleitoralmente, mas ao lado dos trabalhadores.

Essa perspectiva é fundamental para impor o fim da politização das Forças Armadas, que fortalece Bolsonaro. Que lute pelo fim da intervenção federal no Rio de Janeiro. Confiar na força das mulheres, que ao lado dos trabalhadores, podem abrir caminho para uma saída de fundo à crise capitalista, superando as ilusões no mal menor.
Evidentemente isso não significa que Haddad e Bolsonaro sejam iguais. Bolsonaro encarna uma ultradireita das mais racistas, homofóbicas e machistas que existem. Uma poeira de humanidade. Como exemplar da pior espécie de escória reacionária, Bolsonaro não hesita em dizer que atacará frontalmente os direitos das mulheres. Nós precisamos nos organizar, e isso vai para muito além das eleições. Nas escolas, nas fábricas, nas ruas, as mulheres precisam se unir aos trabalhadores para varremos essas poeiras de humanidade ultradireitistas.

Mas tampouco pode-se cair na ilusão de que Haddad não atacará as mulheres. Não podemos deixar que a nossa energia seja capitalizada para saídas que são na prática seguir nos atacando. O caráter contraditório de unidade nacional dos atos do dia 29 não significa que esses não tenham expressado a raiva, como dissemos legítima e da qual somos linha de frente, de amplos setores contra a Bolsonaro. Ou que não tenha assumido uma proporção significativa. Pelo contrário, as marchas em cidades como o Rio de Janeiro foram esmagadoramente maiores que a convocada em defesa de Bolsonaro, e são parte da energia internacional que as mulheres vem demonstrando. Mas a questão é que isso só reforça a necessidade de debater com qual estratégia e programa esse movimento deve se desenvolver.

As mulheres precisam ligar suas demandas à resposta à essa situação política, e se organizar para arrancá-las pela luta de classes. E isso significa se aliarem aos trabalhadores, classe à qual as mulheres são cada vez mais integradas. Só assim enfrentaremos consequentemente a ultradireita. É preciso ter claro que mesmo que Bolsonaro não ganhe, o que agora é mais incerto dado o apoio do regime que se expressou, a polarização segue. A ultradireita seguirá, e o PT também atacará, ainda que com mais demagogia para as mulheres que Bolsonaro.

E se Bolsonaro ganhar as eleições, mais ainda é urgente não confiar nas votações de um regime carcomido, mas na organização independente dos trabalhadores, à frente das mulheres, negros e LGBTs. Para que ao mesmo tempo em que se derrote essa ultradireita racista, homofóbica, machista, que odeia pobres, se lute pelo não pagamento da dívida pública. Para que a riqueza do país, como a Petrobras e o pré-sal, estimado em US$ 10 trilhões sejam estatizadas e controladas pelos trabalhadores. Isso é o que pode acabar com a corrupção, não a mão dura dos militares defendida por Bolsonaro, que durante a ditadura foram entreguistas aos capitalistas estrangeiros.

Contra o sequestro do direito elementar dos trabalhadores ao voto, há que defender que se radicalize esse direito. Que o povo trabalhador não vote apenas de 2 em 2 anos, e nesse meio tempo fique passivo e impotente frente aos ataques que esses políticos e juízes que ninguém controla fazem contra a maioria em benefício próprio. Mudar isso é urgente, lutando instaurar uma eleição de representantes eleitos e revogáveis, para reescrever as regras do regime político, e onde todos os grandes temas nacionais serão debatidos. Uma verdadeira Assembleia Constituinte Livre e Soberana, na qual se enfrente abertamente todos os interesses que sejam alheios aos dos trabalhadores, das mulheres, negros, e povo pobre. Isso é o que pode acabar por exemplo com os privilégios dos juízes, que aumentaram seus salários para R$40 mil na mesma semana em que aprovaram a lei da terceirização.

Trata-se de uma proposta de levar até as últimas consequências a luta por uma instituição mais democrática possível em meio à sociedade capitalista, que favorece a que se torne cada vez mais claro a necessidade do combate por um governo dos trabalhadores e do povo que acabe com o sistema capitalista, que tem lançado 14 milhões de pessoas no desemprego no país para garantir a que a riqueza siga sendo usada para sustentar uma minoria de parasitas que vivem da riqueza geradas pelos trabalhadores. Nessa luta é preciso superar a prática imposta pela burocracia sindical, que também impede que os trabalhadores sejam os sujeitos políticos dessa transformação radical, ao separar as lutas econômicas da luta política. Tal como a CUT fez ao separar a luta contra as reformas de Temer do combate ao golpe em 2016.

O capitalismo faz com que os 8 bilionários mais ricos do mundo sejam homens, brancos, e detém a mesma renda que 70% dos mais pobres do mundo, as mulheres, que mostram sua energia em vários movimentos mundo afora, devem se apropriar dessa estratégia e desse programa, para que sua força não seja desperdiçada. Uma saída de fundo, anticapitalista e revolucionária, terá rosto de mulher, e em nosso país de mulher negra. Isso é o que pode responder às nossas demandas profundamente hoje, e é nessa perspectiva que o Esquerda Diário, como uma imprensa militante com quase 2 milhões de visualizações em um mês, coloca todas as suas forças e chama a todos a estarem ao seu lado nessa batalha.




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