Teoria

EDUCAÇÃO E CAPITAL

Educação para além do capital? Mészàros e seu labirinto

Neste livro de 128 páginas estamos diante do inconfundível Mészàros [nascido em 1930 na Hungria e discípulo de Lukács]: em linguagem que opta por alto nível de abstração filosófica, ele procura articular o tema da educação com a perspectiva socialista [ou como ele aponta: com algum lugar “para além do capital”].

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 13 de setembro| Edição do dia

Prefaciado por Emir Sader [intelectual que integrou o lulo-petismo até o fim, ideologicamente] o livro de Mészàros apresenta algumas dificuldades em dar uma resposta contemporânea e concreta sobre o problema da educação no capitalismo mesmo que nos marcos da perspectiva revolucionária que ele abraça.

Tanto prefaciador quanto autor concordam quanto à alienação do sistema educacional no capitalismo, em uma época de massa inédita de informações e da incapacidade flagrante da escola contribuir para a interpretação dos fenômenos e reivindicam que é preciso desalienar-se, ir além do capital.

Mészàros parte de que o sistema capitalista é irreformável. E que sem a revolução social não teremos a reforma educacional. E que reforma educacional não muda o sistema, sem uma mudança “sócio-metabólica”. Por isso propõe que se lute por “romper a lógica do capital”. Critica a proposta do socialismo utópico [R Owen], se ampara em José Marti, Paracelso e Fidel Castro, alinhando várias citações desses autores.

Defendendo inúmeras vezes que é necessário “romper com a lógica do capital” na perspectiva de se “contemplar a criação de uma alternativa educacional significativamente diferente”, o autor se prende aos marcos de uma bem posicionada crítica filosófica à alienação, ao elitismo, etc da educação nos marcos do sistema. Critica a educação formal cujo objetivo é “produzir tanta conformidade ou ´consenso´ quanto for capaz” e, por essa via, parece se alinhar com bons pensadores do tema.

Aliás essa localização é parte da explicação de por que Mészàros se tornou – e especialmente este livro – um dos mais lidos dos tempos recentes na esfera da educação: diferentemente de outros autores também muito lidos nessa área [digamos, da “educação socialista”, como P. Freire, apenas para citar o mais conhecido deles], Mészàros pressupõe que educação e capitalismo não combinam nem coexistem. Ele parte da crítica ao capital para chegar à educação e isso atraiu todo um setor jovem da esquerda das décadas recentes. Esse dado é importante para entender um pouco sua penetração.

No entanto, ele é pouco concreto.

Para começar, nos raros momentos em que se aproxima da questão da “educação para além do capital”, ele se torna abstrato, evasivo: “romper com a lógica do capital na área da educação equivale, portanto, a substituir as formas onipresentes e profundamente enraizadas de internalização mistificadora por uma alternativa concreta abrangente”... Ou então: “a questão fundamental é a necessidade de modificar, de uma forma duradoura, o modo de internalização historicamente prevalecente. Romper a lógica do capital no âmbito da educação é absolutamente inconcebível sem isso”. A “a educação deve ser a ´transcendência positiva da autoalienação do trabalho”. Ou então: “O conceito para além do capital... tem em vista a realização de uma ordem social metabólica que sustente concretamente a si própria, sem nenhuma referência autojustificativa para os males do capitalismo”.

Aliás, “romper com a lógica do capital” é tantas vezes repetido que cria no leitor uma expectativa sobre o que seria o passo concreto ou a transição para a saída do labirinto da educação capitalista elitista e classista, de forma que não se fique no debate lógico, apenas.

Mas em Mészàros as coisas nunca são simples.

O mais recorrente no livro é que quando pensa alternativas, Mészàros rapidamente salta para a esfera abstrato-filosófica: “A alternativa concreta a essa forma de controlar a reprodução metabólica social só pode ser a automediação, na sua inseparabilidade do autocontrole e da autorrealização através da liberdade substantiva e da igualdade, numa grande ordem social reprodutiva conscienciosamente regulada pelos indivíduos associados”. Em nenhum ponto do seu livro ele jamais desce para o terreno da luta de classes, jamais trata do problema concreto de fato. Pode-se imaginar que ele sonha com uma democracia dos trabalhadores, mas ele não trata disso e muito menos abre o debate sobre a estratégia para chegar a isso. Ao menos uma estratégia por fora do reformismo, digamos, pouco assumido claramente.

Chega a mencionar que não devemos nos contentar com “a reforma gradual”, e sim lutar por “uma mudança societária oniabrangente” no “espírito de assegurar a irreversibilidade histórica da alternativa hegemônica do trabalho ao controle sociometabólico estabelecido do capital”.

Em linguagem mais coloquial parece estar defendendo que o socialismo deve ocorrer sob o controle dos trabalhadores na educação, na economia etc. o que bem interessante, embora totalmente contraditório com a mitificação acrítica que faz de F. Castro [e, portanto, da burocracia cubana].

Seu pensamento crítico transparece, para além de sua linguagem alegórico-filosófica, nessa sua incapacidade de criticar os métodos para nada socialistas da burocracia castrista que jamais se ocupou da democracia nas escolas, fábricas [assim como, em outro momento, Mészàros foi também incapaz de criticar o regime de Chavez, o lulismo e o Forum Social. Por isso, quando denuncia que o planejamento econômico no “sistema social de tipo soviético” se deu imposto de cima, “sem assegurar a cooperação voluntaria dos indivíduos sociais com o plano anunciado pelo Estado” seu discurso não corresponde à sua política. Até porque, afinal de contas, não se trata, no projeto revolucionário-socialista, de “cooperação voluntária” [nem de “orçamento participativo” como o do PT no RGS, apoiado por intelectuais marxistas tipo Mészàros] e sim de democracia direta, de base, democracia dos trabalhadores. Que passa também pelas escolas.

É assim que se romperia, não apenas com “a lógica”, mas com o controle capitalista e burocrático da vida social; estatização com controle social, sem o que não há como pensar em romper com a “lógica” do capital. Mas tampouco Mészàros tematiza como superar a burocracia, como romper com esta “lógica”.

Aliás, nos capítulos finais aparece a trava ao seu pensamento estratégico: sem dar nome aos bois esbraveja contra “o vanguardismo sectário” que “exclui as grandes massas do povo” e defende a necessidade “de consciência comunista de massa”. Sem nunca ser especifico o suficiente, conclui dizendo que a fundação de uma nova sociedade só é plausível pelo “desenvolvimento da ´consciência comunista de massa, que abarca a maioria esmagadora da sociedade”.

Quem vai discordar da importância de tal consciência de massa?

No entanto, em Mészàros, as coisas são pouco terrenas, concretas ou... estratégicas.

Tanto que o leitor pode perfeitamente concluir o livro e se perguntar: o que quer Mészàros? Quem é o sujeito político em Mészàros? Seriam direções como Fidel Castro? Uma massa cada vez mais comunista, porém indeterminada, isto é, cuja consciência comunista não se sabe de onde e nem como virá? O que existe, na concepção de Mészàros mediando o hoje e o futuro do “para além do capital”? Afinal, pelo que se vê, ele pretende resgatar Marx, lado a lado com Fidel Castro, Paracelso [século XVI], José Marti, para discutir filosofia da educação, ou realmente está preocupado com uma estratégia atual, política, para revolucionar a sociedade e a educação? Sendo assim, em que ponto, ao menos deste livro, aparece alguma formulação nesse sentido?

Não aparece. Sendo um livro que se posta na perspectiva marxista e que reflete filosoficamente sobre a alienação no capitalismo é, ao mesmo tempo, um texto política e programaticamente impotente do ponto de vista da luta, hoje, por uma educação para além do capitalismo.

Referência - Mészàros –A educação para além do capital, 2ª. ed Boitempo, 2008 [as citações acima constam deste livro].




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