50 ANOS DO ASSASSINATO DO ESTUDANTE EDSON LUÍS / DITADURA MILITAR/

Edson Luís: um assassinato que abalou o Brasil

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 27 de março| Edição do dia

Estávamos em 1968, vínhamos de dois anos de ditadura militar com dura repressão contra o movimento operário, intervenção em sindicatos, prisões, tortura, censura e continuada repressão policial. A ditadura parecia consolidada.

Os gorilas [assim nossa geração chamava aqueles generais golpistas], associados aos Estados Unidos aplicavam seu plano estratégico: desmantelar as organizações operárias, prender, torturar ou neutralizar suas lideranças, para aplicar, contra os trabalhadores, agora sem resistência, o plano de arrocho salarial e de concentração de renda que encheria o bolso da patronal e que eles chamariam, pateticamente, de “milagre brasileiro”.

Edson Luís um estudante pobre, vindo do Pará, com quase 18 anos, fazia o equivalente ao supletivo, pensando em ser engenheiro e fazia serviços de limpeza no restaurante popular Calabouço em troca da comida. O restaurante vivia na degradação e no dia de hoje, 28 de março, 50 anos atrás, os estudantes faziam um protesto, por melhorias na comida e nas instalações, quando a polícia entrou atirando. Um cabo de polícia explodiu o peito de Edson Luís com uma bala a queima-roupa, as tropas continuaram atirando, mais um estudante sairia dali para morrer no hospital [Benedito Dutra] e vários outros, incluindo cidadãos que passavam por ali, no centro do Rio, foram baleados.

O corpo de Edson Luís foi tomado pelos estudantes, contra a vontade da polícia, e velado por 21horas no mesmo lugar em que, também no centro do Rio, o corpo de Marielle e do motorista Anderson, foram velados dias atrás. Os dois assassinados por balas das forças de repressão. Os dois lutadores pela justiça social, e contra a violência de Estado. Os dois vítimas de terrorismo de Estado ou do terrorismo acobertado pelo Estado.

Nos dois casos, as massas foram imediatamente às ruas, 50 mil no enterro de Edson Luís e, dias depois, a marcha dos 100 mil nas ruas do Rio, agora com outros setores, artistas por exemplo, e não apenas os estudantes. As lutas continuaram.

Nesse processo, nos próximos meses, a radicalização do movimento estudantil começou a confluir com o espetacular “maio francês” de 1968, com mobilizações mundo afora. E a ditadura, que não deu conta de reprimir a marcha dos cem mil, percebeu, pouco a pouco, que seu inimigo mais potente – e que foi o objetivo do próprio golpe – a classe trabalhadora começava um processo focal de recomposição, em Minas Gerais e em São Paulo [também Osasco, Guarulhos, Campinas].

Não se fez esperar: desfechou a mais violenta repressão, com mais mortos, mais tortura e seguiu, em escalada, até baixar um decreto [Ato Institucional n.5] em dezembro, mais adiante, fechar o parlamento e assumir cotidianamente o terrorismo de Estado contra qualquer coisa que se mexesse ou qualquer um que colocasse uma ideia no papel.

Essa violência, no entanto, tinha um objetivo estratégico: impedir que o movimento estudantil – que tinha simpatia crescente da opinião pública da classe média – confluísse com o movimento operário.

Como na França: o perigo do “maio francês”, quando aconteceram as mais imponentes greves operárias da história da França, o perigo que o bonapartista De Gaulle, com a imprescindível ajuda do PCF [Partido Comunista francês, stalinista] tinha que impedir era basicamente um: que o proletariado que ocupava fábricas por todo lado, mobilizava milhões, confluísse com as barricadas estudantis e – com base nessa potência inabalável – fossem ao poder. Muito mais que os estudantes nas ruas, o "maio francês" foi um acontecimento proletário; cuja confluência com os estudantes radicalizados, os stalinistas [que controlavam a principal central sindical] trataram de impedir.

Em menor escala, por aqui, o assassinato de Edson Luís, que abalou o país, desencadeou novas mobilizações, e também começou a ser seguido por uma reanimação focal do movimento operário. O governo teve que ceder a uma dessas greves, a de Contagem, greve dos 20 mil, para em seguida, com absoluta clareza dos riscos do regime, completa clareza dos seus fins, passar a esmagar impiedosamente o movimento operário. Olavo Hansen e vários outros companheiros operários seriam torturados até a morte.

A ditadura escalou em repressão, com os gorilas mais reacionários organizando golpe dentro do golpe e deflagrando os cinco "anos de chumbo".

Com esses métodos de guerra contra a classe trabalhadora, contra os estudantes e o campesinato, garantiram aqueles “anos de chumbo”, essenciais para o êxito do “milagre” econômico pró-imperialista, irrigado com dívida externa e colossais perdas nacionais.

Mas a luta continua. Edson Luís vive! Marielle vive!

A luta contra os mandantes e assassinos de Marielle e Anderson – representação de todos os pretos, pobres, mulheres, homossexuais e lutadores que são assassinados todos os dias pela polícia mais assassina do mundo – deve ser feita com a mesma lição daqueles anos 1960: somente a confluência da luta do movimento negro, de mulheres, dos estudantes de todos os oprimidos pelo capitalismo com a luta da classe trabalhadora pode nos levar à vitória. Essa é a estratégia para vencer.

As forças reacionárias sabem disso. E elas esperam contar com o imobilismo das centrais sindicais, com sua falta de mobilização pela base contra os ataques do golpista Temer, para seguirem em frente. A grande força desse governo espúrio vem daí, da passividade da burocracia da CUT.

De nossa parte, precisamos empreender o movimento contrário: pela base, nas unidades de trabalho, de estudo, de cada movimento, organizar comitês de luta que estabeleçam a ponte programática e de luta entre trabalhadores, juventude e todos os explorados em uma estratégia que pressione a CUT, que ponha fim a essa democracia degradada dos ricos e passe o país a limpo convocando uma Constituinte livre, soberana e de massas que mude as estruturas sociais e liquide com essa polícia assassina e sua casta política.

[Crédito de imagem, modificada: www.blogs.oglobo.globo.com/afonso borges]
Abaixo: enterro Edson Luís de Lima Souto - 29 de Março de 1968 - Eduardo Escorel:




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