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DEMISSÕES ABRIL

Editora Abril propõe calote aos trabalhadores demitidos

Após demissão em massa de 800 funcionários no começo deste semestre, entre eles jornalistas, gráficos e pessoal administrativo, a Editora Abril anunciou nesta semana um plano de recuperação judicial que inclui um calote escandaloso aos seus credores.

sábado 8 de dezembro| Edição do dia

Imagem: Brasil 247

A editora possui até o momento um prejuízo consolidado de R$331,6 milhões e um patrimônio líquido negativo em R$715 milhões. Alegando “dificuldades financeiras” devido à crise do mercado editorial brasileiro, propôs pagar somente 8% de sua dívida aos seus credores num período de 18 anos. Se a proposta for aceita, isto significará um calote de 92% do valor de suas dívidas, o equivalente a R$1,6 bilhão.

Sob a categoria de “credores”, engloba desde os grandes bancos com os quais está em débito (como Itaú, Bradesco e Santander), passando por fornecedoras de papel, empresas de telefonia, postos de gasolina, editoras concorrentes, microempresas e chegando até centenas de trabalhadores.

No caso dos ex-funcionários recém demitidos, o escândalo é ainda mais vergonhoso. A editora possui uma dívida trabalhista de R$90 milhões, que agora propõe quitar sob a condição de um limite de 250 salários mínimos (R$238,5 mil) por funcionário demitido, a serem pagos durante 12 meses, somente depois que o plano de recuperação for aprovado (o que só se dará após uma assembleia de credores sem data definida para ocorrer, e sua posterior homologação na Justiça). No caso dos funcionários cuja indenização esteja acima deste valor, a proposta é de que recebam o restante devido sob as mesmas condições dos outros credores: apenas 8% do total da dívida em parcelas mensais durante 18 anos. Em entrevista à Folha de São Paulo, Patrícia Zaidan, do comitê de jornalistas demitidos da Abril, declarou: “Essa proposta é indecente. Os ex-funcionários com mais tempo de casa serão aqueles que terão o maior prejuízo”.

Trata-se de uma grande manobra jurídica para justificar o calote da Editora Abril às centenas de trabalhadores que demitiu e se isentar da responsabilidade de pagar direitos trabalhistas mínimos, como o FGTS, férias, aviso prévio, salários atrasados e o 13º. Os trabalhadores demitidos tiveram seus planos de saúde cancelados e o sustento de suas famílias retirado, enquanto a família Civita, fundadora na década de 1950 do Grupo Abril (a maior editora de revistas do país), foi contemplada em uma publicação da Forbes no ano passado como a 11ª família mais rica do Brasil, com uma fortuna estimada em 3,3 bilhões de dólares. Os herdeiros Civita esbanjam nas redes sociais o patrimônio bilionário de sua família, resultado de anos de lucro e exploração do trabalho de seus funcionários, enquanto o Grupo Abril joga na rua centenas de famílias, sob a falácia de uma “crise financeira”.

Como uma outra medida para se recuperar de uma suposta crise, a editora já anunciou a descontinuidade na publicação de diversas revistas, enquanto publica até hoje a reacionária revista Veja, cujo conteúdo editorial defende abertamente os mais profundos ataques à classe trabalhadora, como a reforma trabalhista, a reforma da Previdência e a terceirização irrestrita. Fica claro o alinhamento político do Grupo Abril ao golpe institucional no país, que veio para atacar os direitos trabalhistas numa escala ainda maior do que o PT vinha aplicando em seus anos de governo. A proposta de recuperação judicial da editora mostra que a família Civita tem o aval do governo e do Estado capitalista, de mãos dadas em negociações com os bancos e os grandes empresários, para fazer seus funcionários pagarem por uma crise que nunca criaram.

O Esquerda Diário repudia absolutamente as demissões da Abril e o calote aos funcionários demitidos. Ao contrário do que dizem os capitalistas, que “em tempos de crise, todos perdem um pouco”, não devem ser os trabalhadores a pagar por uma crise que lhes arranca seus empregos e quaisquer garantias de uma vida digna. É preciso se apoiar na força da luta dos trabalhadores em defesa de seus direitos, a exemplo dos gráficos, jornalistas e funcionários da Editora Abril, e que os sindicatos unifiquem as categorias, unindo demitidos aos ainda empregados. Só assim será possível construir uma mobilização massiva que possa impor ao governo e aos patrões o pagamento de toda a dívida que devem aos funcionários da Abril e a reintegração imediata de todos os demitidos.

Readmissão já!

Nenhuma família na rua!

Façamos como os franceses, contra os ataques de Bolsonaro, o golpismo e o autoritarismo judiciário!




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