Sociedade

ECOSSOCIALISMO

Ecossocialismo e direita europeia: entrevista com Michael Lowy

Publicamos entrevista com Michael Lowy, diretor de pesquisas emérito do Centro Nacional de Pesquisa Científica, Paris, realizada por Gilson Dantas, médico e sociólogo, pesquisador da Universidade de Brasília.

Gilson Dantas

Brasília

terça-feira 25 de outubro| Edição do dia

ED - Ecossocialismo: poderia nos falar sobre a concepção e a atualidade da ideia de ecossocialismo?

M. Lowy - O ecosssocialismo é muito atual porque estamos no começo de uma crise ecológica catastrófica que é planetária, latino-americana e que as autoridades não estão fazendo nada de sério para tentar controlar. Então precisamos de uma alternativa radical. Que vá a raiz do problema; e a raiz do problema é o sistema capitalista; este não pode existir sem expansão ilimitada, sem energias fósseis sem emissão de gases; portanto tudo isso é parte da natureza essencial e fundamental do sistema capitalista. E isso muita gente já está entendendo inclusive o papa Francisco que não é marxista, também ele já se deu conta. O problema é do sistema capitalista.

O ecossocialismo é uma tentativa de articular as ideias principais do socialismo com ecologia, fazendo ao mesmo tempo uma crítica ao socialismo do passado, sobretudo aquela caricatura do sistema soviético, que não tinha nada de ecológico, e a social-democracia menos ainda, e por outro lado, uma crítica da ecologia que não é anticapitalista, que não é de esquerda, não é socialista. É portanto uma crítica tanto em relação à esquerda, quanto os ecologistas, propondo essa perspectiva do ecossocialismo que implica numa mudança muito profunda nas relações de produção, colocando a produção sob a propriedade coletiva, dos meios de produção, mas também do próprio aparelho produtivo que é completamente vinculado ao funcionamento capitalista da energia fóssil; e portanto tem que ser radicalmente transformado o padrão de consumo, que exige acabar com a publicidade que deforma tudo etc. Enfim, a ideia é produzir valor de uso em vez de mercadorias que vêm com obsolescência programada para quebrar daí a dois três anos.

Esse é o projeto em linhas muito gerais e a ideia é de que o que nós produzimos e consumimos não pode ser decidido pelo mercado, pelo capital financeiro internacional, mas pelos próprios trabalhadores, as mulheres, os indígenas etc depois uma discussão democrática vamos discutir o que produzimos o que consumimos, respeitando sempre as necessidades sociais básicas e a nossa mãe terra, a nossa pachamama [pátria-mãe: expressão indígena]. Essa é a ideia do ecossocialismo e é uma aposta num outro futuro, numa outra civilização baseada em valores como solidariedade e democracia, igualdade etc; é uma visão de mundo que precisa acontecer. É muito ambicioso, implica numa revolução, claro, Não vamos ficar esperando que o ecossocialismo caia do céu, temos que começar com as lutas modestas, concretas, que estão sendo levadas hoje, do pessoal por exemplo de uma comunidade indígena contra uma multinacional do petróleo que quer acabar com a floresta, com o pessoal que luta pelo passe livre, para desenvolver transportes públicos, para reduzir circulação de automóveis privados, que tudo isso faz parte de um processo que vai reunir forças para uma transformação profunda.

ED - Têm surgido fenômenos pela esquerda – como o Syriza - e também pela direita nos vários países europeus. Como você articula esses fenômenos e o que você vê como cenários políticos?
M. Lowy - Há um ascenso muito preocupante da direita racista, xenófoba, reacionária, intolerante, alguns companheiros dizem que isso é resultado da crise, em parte pode ser, mas não é simples assim e por uma razão fundamental, os países mais atingidos pela crise, Grécia, Espanha e Portugal são os 3 países onde a extrema direita não conseguiu ter uma força tão grande e onde a esquerda se não é hegemônica mas conseguiu ter uma influência muito grande estão aí as eleições na Grécia onde o governo de esquerda foi esmagado pelos bancos europeus, teve o caso de Portugal com um governo de esquerda e na Espanha tem o caso do Podemos que não conseguiu ganhar ainda, mas que é uma força, então explicar tudo pela crise não funciona, ainda mais que os países onde a extrema direita está mais forte, dentre outros, são a Áustria e a Suíça que estão entre os que menos sofreram com a crise, que menos problemas de desemprego têm, portanto a coisa é um pouco mais complicada.

Mas trata-se de um grande problema e nós precisamos organizar a resistência uma coalisão antifascista, urgente, levando em conta que a população está desorientada para outras propostas, democráticas, de esquerda propondo acabar com a austeridade terrível que está destruindo as economias europeias, precisamos tentar, em alguns países temos um certo sucesso, mesmo na Inglaterra, com alguém como Jeremy Corbyn, tem uma base social muito grande, e enfim, a direita ganhou o referendo, o Brexit, mas existe uma esquerda grande na Inglaterra. De toda forma, esse reforço da extrema direita, tomando como pretexto os ataques terroristas, tudo isso reforça muito a extrema direita, tudo isso é um problema muito grave.

ED – Perry Anderson fazia uma imagem de que a esquerda europeia costuma ser menos vigorosa que a esquerda; aparentemente isso continua acontecendo; o que você tem a dizer a respeito?

M. Lowy - Estou em parte de acordo, mas não dá para generalizar de uma maneira ampla, uma parte da esquerda europeia, a social democracia, por exemplo, efetivamente capitulou ao neoliberalismo e deixa de ser uma alternativa, isso cria uma confusão e facilita obviamente o jogo da extrema direita, mas existe uma esquerda mais radical, antineoliberal não diria que são revolucionários, na Grécia, Portugal, Espanha, Inglaterra em menor escala em outros países, e que tem propostas, antineoliberais, anticapitalista, existe uma esquerda mais consequente. E alguns países tem conseguido peso grande, em parte concordo com Perry Anderson, mas não dá para generalizar.

ED - Como fazer, que ideias desenvolver, para fazer com que a classe trabalhadora se aproprie dessas bandeiras ecossocialistas?

Michael Lowy - Claro isso é um desafio, obviamente é importante para os ecossocialistas fazer trabalho sistemático junto aos sindicatos de trabalhadores e esse trabalho tem dado frutos; em alguns países, já existem correntes sindicais, na Inglaterra temos toda uma corrente sindical importante que coloca a questão ecológica e que explicam uma coisa muito importante: ao contrário ao que dizem os neoliberais e os porta-vozes do capital, de que medidas ecológicas radicais vão levar a desemprego, eles mostram que elas não vão levar a desemprego, mas, ao contrário, vão criar emprego. Há um grupo importante de sindicalistas ingleses que publicou um folheto que se chama Um milhão de empregos, empregos que vão ocorrer se houver uma mudança. E é importante a ideia de que se uma fábrica quebrar, não se pode deixá-la fechar, devemos tomá-la em nossas mãos para produzir outra coisa, algo mais ecológico, por exemplo, na agricultura, uma produção mais orgânica, há todo um movimento de camponeses colocando essa ideia em prática; mas uma boa parte dos trabalhadores defendem seu emprego, seja ele uma usina atômica ou uma fábrica de pesticidas, uma coisa terrível, normal; aqui precisamos ir com paciência explicando por que ao fabricar pesticidas, vocês estão envenenando a população e também consumindo venenos, então vamos colocar a ideia de produzir outra coisa, esse é o desafio, que não é fácil, mas é fundamental. Se não conseguirmos ganhar a massa dos trabalhadores para essa perspectiva as coisas vão continuar se deteriorando.

Entrevista realizada durante o Seminário de formação - intitulado Horizontes Ecossocialistas - do PSOL/Brasília, que teve como palestrante Michael Lowy, em 22/10/16.




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