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Economia ou saúde: uma falsa dicotomia para silenciar o crime sanitário do capital

Eduardo Castilla

Economia ou saúde: uma falsa dicotomia para silenciar o crime sanitário do capital

Eduardo Castilla

Os governos do mundo todo apresentam suas políticas frente ao coronavírus como as únicas possíveis. Evitam questionar os interesses dos grandes capitalistas e a destruição dos sistemas de saúde para reduzir o gasto público.

O debate percorre o mundo. Jornalistas, médicos ou economistas: privilegiar a economia ou a saúde. Mas esse dilema é falso. É erguido sobre uma regra de ouro: enfrentar o coronavírus com os pobres recursos dos sistemas de saúde em crise, à beira do colapso, herança de décadas de ajuste fiscal. Se apoia também, na decisão estatal de não tocar os lucros capitalistas. Pelo contrário, o caminho percorrido pelos governos do mundo é o de novos e mais massivos resgates às empresas.

O debate exige, também, esquecer que o vírus poderia ter sido previsto se tivessem continuado se desenvolvendo diversas pesquisas, o que teria facilitado a criação de uma vacina. Para os grandes laboratórios e para os donos do poder político essa nunca foi uma opção. Para os primeiros, porque curar é mais lucrativo que prevenir. Para os segundos, pelo seu caráter de fiéis servidores da ordem capitalista.

Dois modelos?

Boris Johnson, apologista apressado de um neomalthusianismo cuja proposta era a de sacrificar “os mais velhos” para salvar a economia, tem coronavírus. Entrou, involuntariamente, na lista dos que ele mesmo considerava prescindíveis. Há dias, forçado pela realidade, tinha abandonado seu programa inicial.

Há milhares de quilômetros, Donald Trump insiste em encher igrejas e shoppings no dia 12 de abril, na comemoração da Páscoa. O homem que ocupa o Salão Oval concentra-se no calendário eleitoral. Sua re-eleição se baseia em conquistar algo parecido à “normalidade”. No entanto, a pandemia se espalha pelo território norte americano: o país já possui a maior quantidade de pessoas contagiadas no mundo. Ao mesmo tempo, as consequências econômicas aumentam, sendo o desemprego a mais importante.

No sul, na fronteira com a Argentina, Bolsonaro propõe encher novamente as ruas. Com quase 100 pessoas falecidas, anima-se na decadente ironia de que o brasileiro “não pega nada” pois tem brasileiro “nadando no esgoto, sai mergulha e não acontece nada”.

No outro extremo, nações como Itália e Espanha contam as vítimas por várias centenas no final de cada dia. Os contágios aumentam de forma exponencial. Lá, no discurso, privilegia-se a saúde sobre a economia. Mas as quarentenas forçadas, em si, apresentam o mesmo grau de impotência frente à pandemia.

Um ponto unifica os dois “modelos”: a negativa a impulsionar rapidamente os testes massivos na população, medida que se mostrou fundamental na Coreia do Sul ou na Alemanha, países que parecem estar controlando o vírus. Ambos paradigmas expressam, também, a decadência dos sistemas de saúde colapsados frente à pandemia. A cara mais cruel dessa moeda são as milhares de enfermeiras e de médicos contagiados pelo coronavírus. O Estado capitalista, mais uma vez, é o máximo responsável.

Quarentena peronista

Na Argentina, o governo e seus porta-vozes propõem o mesmo (falso) dilema. A quarentena é apresentada como exemplo da escolha pela saúde. A decisão obriga a pedir “paciência” aos que se afundam junto com a economia.

Frente à pandemia, a política oficial repete uma receita falida: não ter iniciado os testes massivos para avaliar a curva do contágio, determinando as áreas mais comprometidas. Sem conhecer como se espalha o vírus pelo mapa nacional, o plano governamental propõe e impõe o confinamento massivo da população, o impondo com métodos crescentemente policiais.

Só agora, após várias reclamações da oposição – em particular da Frente de Esquerda –, os testes avançam lentamente. Estende-se a províncias e laboratórios, mas é feito de forma desigual e desorganizada. Continua ainda muito longe de atingir os níveis de massividade necessários. A importância desse tema deveria obrigar o governo a apresentar um plano sério. Mas não é o que acontece.

O avesso dessa demora é a rapidez para impor controles em todas as estradas do país. São as patrulhas em cada bairro e a violência policial contra a juventude pobre. O verde oliva [cor do uniforme dos policiais Nota do Tradutor] entrando em La Matanza ou em Quilmes para fazer a “contenção social”.

O plano oficial parece uma tensa espera de que o pior não chegue nunca. O eventual colapso do sistema de saúde é anunciado aos gritos. A grande mídia, agitada, publica sobre esse futuro caótico. “Fique em casa”, complementam os apresentadores e cronistas.

Enquanto isso, a saúde privada e os grandes laboratórios continuam contabilizando seus lucros. O governo anuncia algumas poucas e fracas medidas que resolvem menos do que incomodam o empresariado. Na saúde pública continuam faltando leitos, enfermeiras, médicos e insumos.

Aqui, ao sul do mundo, nesse presídio no qual pretende-se prender 44 milhões de almas, os lucros do grande capital continuam intocáveis. Os múltiplos e constantes anúncios oficiais praticamente não tocam nos interesses deles. Nem bancos, nem empresas privatizadas, nem as petroleiras tiveram que contribuir um dólar nessa “guerra”. Os Rocca, Macri, Madanes ou Pagani, os donos do poder econômico, não têm sido chamados ao esforço. Os Coto ou os Braun Menendez têm via livre para aumentar os preços e desabastecer. As reiteradas ameaças de sanções do governo parecem aos tanques do General Alais: estão sempre chegando…

A quarentena, como todo fato verdadeiramente social, arrasta suas marcas de classe. Suas consequências não são iguais para quem vive do trabalho informal e para os donos do poder. Os ricos e poderosos podem aproveitar em clubes, mansões ou iates. Os mais humildes nos bairros superlotados sem luz nem água. Ou nas delegacias onde podem ir parar após alguma ação policial.

Essa diferença social expressa-se nas estatisticas. Nesta sexta-feira (27) mais de um milhão e meio de pessoas se inscreveram para receber a humilde ajuda de 10 mil pesos decretada para os que trabalham na informalidade. A Argentina precária faz fila na internet para receber um mísero subsídio.

Quarentena, crise econômica e crise social

A chamada “paz social” poderia ser a próxima vítima da quarentena. Nesta sexta-feira, no site Vox.com, um analista político norte-americano apontava que “nesse momento, as pessoas estão impactadas pelo que está acontecendo. Mas logo mais irão acordar e entenderão que foram destruídos economicamente”.

O problema é global. Os números da catastrofe econômica anunciada provocam temor, logicamente. A OIT já fala de 25 milhões de novos desempregados. O FMI anuncia a recessão que está chegando.

Essa ruína econômica já é vivenciada em amplos setores da sociedade argentina. A cúpula do poder olha preocupada o conurbano de Buenos Aires, lugar que concentra massivamente pobreza e população. Esse Estado Golem – segundo os analistas políticos – onde a informalidade se espalha por todos os cantos.

A função de “contenção” dada às forças armadas controla essa indignação social. As grandes catástrofes provocam tempestades de fúria popular, justificadas revoltas de ódio contra tudo aquilo que os condena à fome e os oprime. Hoje, ao apresentar a falsa dicotomia entre saúde ou economia, o governo e oposição patronal alimentam as condições do desenvolvimento dessa indignação.

Com essa premissa, um setor do establishment e o grande capital estão abertos a questionar a quarentena. O jornal La Nación, por momentos, aparece abertamente como porta-voz dessa posição. Como pano de fundo está também a crescente desorganização da economia, a redução das margens de lucro e a questão dos salários sem produção. Com uma calculadora em cada mão, o empresariado mede seus passos. A saúde da população trabalhadora lhe é completamente alheia. Prova disso são os milhares de casos que já viemos denunciando no La Izquierda Diario.

Que essa posição venha dos eternos predicadores da flexibilização laboral e da repressão aos protestos sociais funciona como uma alerta. Não existe nenhuma saída progressiva para as grandes maiorias sem atacar os interesses do grande capital. Se não se avança na perspectiva do controle operário sobre o conjunto da produção, para garantir que se coloque a serviço da sociedade e não do lucro privado. Se não se impulsiona a organização das bases para que a saúde da população trabalhadora esteja acima dos lucros dos capitalistas.

Nessa perspectiva se orientam as propostas que as forças da Frente de Esquerda vêm colocando desde o início dessa crise.

Tradução: Juan Chirioca.

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