Economia

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Economia: a realidade e a versão Globo News

Ontem foi divulgado o levantamento preliminar das atividades da economia feito pelo Banco Central, o IBC-Br. A economia teria crescido 1,12% no primeiro trimestre comparado ao último trimestre de 2016. Os telejornais comemoram o fim da recessão. O programa do golpe teria triunfado e a economia estaria se erguendo. Entenda a realidade por trás dessa propaganda interessada.

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

terça-feira 16 de maio| Edição do dia

Segundo o levantamento preliminar feito pelo BC a economia teria crescido 1,12% no primeiro trimestre , partindo dos níveis abissais em que se encontra. Felizes como o ex-governador carioca Sérgio Cabral nos passeios em Paris com as empreiteiras, todos telejornais comemoram o indicador, seria o fim da recessão disseram. Temer e as reformas depois de longa travessia pelo deserto estariam levando o Brasil a Canãa?

O uso interessado das estatísticas e de propagar um suposto fim da recessão atende ao interesses​ políticos de fortalecer Temer as reformas da previdência e trabalhista.

Olhando com um pouco mais de atenção os dados do Banco Central a comemoração parece muito mais propaganda que realidade. A economia teria crescido 1,12% de um trimestre para o outro. Mas comparado com março de 2015 teria sofrido uma queda, mesmo com esse crescimento, de 6,5%. Mesmo em relação a fevereiro, março significou uma importante queda.

Se todas as preces dos jornalistas econômicos se realizarem chegaríamos a indicadores do PIB de dois, três ou quatro anos atrás daqui a alguns anos. Isso nos indicadores de PIB pois os de emprego ninguém prevê que chegarão nem perto do nível do nível em que estavam.

Para facilitar a visualização de como é interessado o jubilo dos jornalistas fizemos um gráfico com os últimos dados do IBC-Br:


Elaboração própria baseada nos dados do IBC-Br, link no primeiro paragrafo

Mesmo ciente desses números jornalistas comemoram a chegada à terra prometida. Miriam Leitão estampa em seu editorial “Caminho de Volta” como não haverá recuperação do emprego, os dados são contraditórios mas são o começo da “virada do ciclo”, ela diz. O dado que teria puxado o PIB segundo os especialistas foi a agropecuária. Mas esse “guarda-chuva” esconde a realidade, pois o setor de carnes está em queda sob ataques do judiciário, o número positivo vem da safra recorde de milho e soja. Temos uma recuperação da economia com diversas aspas e que aumenta os aspectos mais rentistas do capitalismo nacional e a primarização da economia.

Bases nada sólidas, dependentes da soja e do milho e das decisões de Trump e da FED

O IBGE divulgou estimativa que a safra de grãos desse ano será recorde, 26% maior que a do ano passado. Um crescimento baseado em aumento da terra de plantio e da produtividade sobretudo da soja e do milho. Teremos esse ano 60,8 milhões de hectares, apresentando acréscimo de 6,5% frente à área colhida em 2016 (57,1 milhões de hectares), e um resultado de produção de 233,1 milhões de toneladas frente a 184,7 milhões de toneladas de 2016.

Esse salto se deu principalmente na soja e no milho – dependentes de agrotóxicos e sementes geneticamente modificadas controladas por multinacionais. O salto de produtividade de 3,83 toneladas por hectare em 2017 frente a 3,23 em 2016 esteve concentrado nesses setores. O milho teve sua área plantada aumentada em 16% de um ano para o outro, porém a produção subirá 46,8% segundo o IBGE.

Soja, milho e arroz concentram 87,9% da área plantada segundo o instituto. Plantios que geram menos emprego, que tem um menor complexo “industrial” associado e que estão fortemente concentrados no centro-oeste, longe das grandes cidades do sudeste e nordeste onde explode o nível de desemprego. O Mato Grosso do ministro golpista Blairo Maggi que substituiu a senador Kátia Abreu do mesmo estado é sozinho responsável por 25% da produção nacional de grãos.

Se o motor da economia é o “deserto verde” do Mato Grosso o que comemoram os jornalistas está longe de ser algo com bases sólidas. O preço dessas commodities é dependente do preço internacional, com tendência de queda com o aumento dos juros nos EUA, questão que o banco central americano, a FED tem indicado e Trump defende. O índice do commodities da Bloomberg mostra quão “deprimidos” estão os preços das commodities comparados a anos atrás e sem tendência sustentada de alta:


Fonte: https://www.bloomberg.com/quote/BCOM:IND

A versão GloboNews e a realidade

A versão Globo News da realidade, que não mostra o desemprego, queda da renda, não mostra essa ameaça permanente ao preço da produção agrícola que hoje eles comemoram, e ao mesmo tempo dá nenhuma importância para a forte queda do setor de serviços que o mesmíssimo IBGE divulgou. Segundo estudo do mesmo instituto, o setor de serviços tem uma queda acumulada nos últimos doze meses de 5,0%.

Fazendo menos propaganda e mais análise dos rumos da economia, o Instituto para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) escreve: “Cabe enfatizar que o setor de serviços não pode ser analisado isoladamente da indústria e do comércio. Por isso a queda de março reforça o temor de que uma forte retomada econômica ainda tardará.”
A indústria tem aumentado sua produção, porém setor cruciais como as montadoras estão com um nível de produção inferior a 2007, dez anos atrás.

Olhando os dados de conjunto os “brotos verdes” da economia em Mato Grosso não mudam o quadro de uma prolongada recessão sem um caminho de saída no horizonte, mesmo com a reforma trabalhista, com a PEC 55. O coordenador de grupo de estudos da Insper, bastião de ideias neoliberais, defensor de todos ataques de Temer vaticina um futuro nada promissor mesmo com todas essas medidas: “Em suma, pode ser que cresçamos um pouco nos próximos anos, empregando os trabalhadores que ficaram desempregados no ciclo atual, mas isso vai durar pouco.”

Fora da realidade da Globo News e das manchetes interessadas está uma realidade dura para a economia, e sobretudo aos trabalhadores. O “fim do ciclo recessivo” não tem resposta pelo programa de ataques promovidos por Temer, nem em um keynesianismo aguado que apoiadores de Lula aventam, tentando fazer por fora do ciclo de boom das commodities o que não foi possível naquela ocasião. Crescentemente se faz necessário um programa anticapitalista, mas isso é assunto para outros artigos.




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