NOTAS SOBRE ECOLOGIA E MARXISMO________n.4

Ecologia: cada um faz sua parte e assim salvamos o planeta?

[Que ideias de Marx sobre a devastação da natureza pelo capitalismo possuem profundas implicações para hoje? Leia aqui a QUARTA de uma série de cinco notas sobre ecologia e marxismo]

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 13 de julho| Edição do dia

Há dois problemas que são mal formulados quando se trata do debate em torno do tema ecologia. O primeiro deles é a crença, particularmente disseminada no debate ecológico, de que o capitalismo – ou a política realmente existente e dominante – é capaz de chegar a reformas profundas contra a crise e devastação ambiental tantas vezes denunciada, ou que seria capaz de detê-la.

Em segundo lugar, às vezes é frequente em certos meios – além de propagandeada pelos ideólogos de plantão – a ideia de que a devastação e degradação ambiental não chega a ser tão grande como parece, ou então vem melhorando pouco a pouco, vem sendo sanada através de medidas pontuais dos governos, das ONGs, da ONU ou do que seja e também pela crescente elevação da consciência ambientalmente correta, ambientalista.

No espaço deste texto iremos dialogar com as duas posições. A primeira delas – tomando-a em seu formato vulgar – é ensinada nas escolas do primeiro e segundo grau; lá, desde cedo se aprende que se “cada um fizer a sua parte” poderemos ir superando ou contendo a poluição, seja porque cresce a “consciência planetária” [seja qual for o sentido disso], seja porque políticos e a pressão das ONGs e homens de bem vão forçar a implementação de melhores leis e, no limite, reformas profundas.

A reabilitação da Mãe Terra poderia ser encaminhada sem revoluções sociais ou socialistas. Pior, muitos militantes das fileiras marxistas e socialistas apostam nessa direção, das reformas profundas no sistema do capital. Alguns por convicção política reformista – para eles a era das revoluções fracassou, já saiu de moda, já passou – e outros porque acreditam que diante da catástrofe irá emergir, na elite tipo Al Gore, a consciência de que “não há mais tempo a perder”, de que ou reformamos a economia e a produção na direção ambientalmente correta ou todos perecemos. Em outras palavras, adere-se ao pensamento de que não dá tempo para “esperar” pela revolução.

Rachel Carson, no pós-II Guerra, foi pioneira em defender mudanças ambientais através da ordem, das instituições capitalistas. Foi grande propagandista contra a contaminação dos campos, das lavouras e apostava na conscientização. A pergunta hoje pode ser a seguinte: décadas depois Carson teve eco, suas ideias tiveram eco, de fato? Ali onde ela pensava que sua semente – seu brado pela não contaminação ambiental – iria germinar, ou seus ensinamentos, surgiu uma nova consciência ativa, e não somente ativa mas eficaz e potente?

Para qualquer lado que se dirija o olhar, a resposta é um altissonante não. Não apenas não se avançou em uma relação positiva e virtuosa entre a tecnologia empregada pela sociedade e sua relação com o meio ambiente, como a devastação se desenvolveu em patamares superiores, onde o horror nuclear (nos chernobis, three mile islands e fukushimas) é apenas um dentre os vários horrores ambientais que nos cercam e espreitam.

A tonelagem de agrotóxicos lançada na natureza e seu nível de toxicidade não pararam de crescer em todo o mundo.

Desde 2008, desbancando o primeiro lugar dos Estados Unidos, o Brasil passou a ser o maior consumidor mundial de agrotóxicos. A Europa e também os Estados Unidos, com seus subsídios agrícolas, para enfrentar e concorrente, fazem uso massivo de fertilizantes e pesticidas químicos. Não há precedentes para a escala dos químicos usados na agricultura. E que hoje vêm sendo acompanhados dos transgênicos e outras intervenções abusivas contra a natureza .

A concentração de agentes cancerígenos nas águas no ar e na terra jamais foi tão grande e tão variada em termos de espectro de venenos e de longo prazo dos efeitos nocivos.

Vários estudiosos [como os autores de Transgênicos, as sementes do mal: a silenciosa contaminação de solos e alimentos, de Andrioli e Fucs, Ed. Emu, 2006 assim como as boas denúncias de Agroecologia militante, Enio Guterres, Ed. Expressão Popular, 2006], têm alertado que os alimentos transgênicos são de pior qualidade, tóxicos contra a nossa saúde, e apresentam, eventualmente, menor produtividade e mais custos econômico, ecológicos e sociais.

Mike Davis (em seu Planeta favela), 2006, alerta sobre as novas epidemias, intimamente ligadas ao modo capitalista de produção (sem esquecer a gripe espanhola, onde 20 milhões de seres humanos, ao menos, foram vitimados). A tecnologia capitalista recente, após os anos 1980, produziu uma “revolução na criação de animais”, como diz ele, com inédita concentração de animais em grandes fazendas. Segundo o autor, apenas uma mega-fazenda de suínos nos Estados Unidos (no Milford V Valey), produz, mais esgoto do que a cidade de Los Angeles. Alguns chamam essa degradação de “imperialismo biológico” (Cf. Alfred Crosby), e é dessa condição que fenômenos terríveis de saúde pública, como a gripe suína são fruto direto.

Ao mesmo tempo em que a poluição pelo consumo maciço de produtos farmacêuticos e hormônios em criação de animais – em especial nos confinados - é sem precedentes fazendo a fortuna das grandes corporações de que produzem tais poluentes e “insumos”.

Há quem argumente que, aqui e ali, reformas ambientais foram feitas e que, portanto, mudanças graduais podem ir se somando, resultando em uma espécie de “revolução ambiental” [que não chega nunca, em todo caso]. Sua premissa é bem aquela de Bernstein no debate contra R. Luxemburgo. Ela criticava o reformismo bernsteiniano por acreditar que tais lutas parciais, pouco a pouco, fariam o capitalismo deixar de ser capitalismo. Como ela argumenta - em Reforma ou revolução? -, os Bernsteins acreditam que aquelas lutas “reduziriam gradualmente a própria exploração capitalista. E retirariam da sociedade capitalista sua natureza capitalista. E realizariam, objetivamente, a mudança social desejada”.
Estamos há mais de um século desse tipo de luta na política e na ecologia e o meio ambiente vai de mal a pior.

A impotência do movimento ecologista liberal/reformista aparece clara na seguinte contradição: é crescente a presença ou a visibilidade de tais movimentos em quase todos os países e, no entanto, cresce exponencialmente e cada vez mais perigosamente a massa de tóxicos em nosso corpo e no meio que nos envolve. O patamar de produção de novas substâncias químicas não tem paralelo com o período vivido por Carson.

Mais de “100 mil agentes químicos sintéticos estão no mercado. A cada ano, mil novas substâncias são lançadas, a maioria delas sem serem testadas ou avaliadas adequadamente. [...] Somente no mercado mundial de agrotóxicos [são] mais de 1600 agentes químicos. E seu uso em todo o mundo ainda está aumentando. Essa é uma classe especial de agentes químicos, biologicamente ativos e intencionalmente aplicados no meio ambiente” [Colborn, 162]. E o uso de agrotóxicos, somente nos Estados Unidos, chega a aproximadamente 4 quilos per capita. No Egito, a maioria das amostras de leite pesquisadas em um estudo continham níveis residuais elevados de 15 agrotóxicos.

A lista é interminável. A concentração de tóxicos no cordão umbilical, no leite materno, no esperma, nos fluidos biológicos cresce todos os anos. Muitos deles claramente vinculados a doenças crônicas tipo Parkinson e os xenohormônios ou disruptores hormonais especificamente ligados a câncer de próstata e de mama. As pesquisas sérias, constantemente atualizadas, são o maior comprovante de que a ecologia realmente existente, reformista, que pretende ´enverdecer´ o capitalismo, faliu, não tem futuro enquanto escamotear o debate anticapitalista e do controle dos trabalhadores sobre seu trabalho, nosso meio ambiente e nosso futuro, portanto.
Os ares, as águas e a terra vêm sendo violentados pela produção industrial de larga escala sem planejamento global de longo prazo e pelo próprio tipo de mercadorias capitalistas produzidas (automóveis por exemplo) por todos os lados e o planeta vem sendo devastado e atacado por resíduos da pior espécie e, literalmente, por todos os poros .

O debate sobre o efeito estufa (como fonte inclusive de furacões de alta intensidade – atualmente mais frequentes que antes – e de outras desordens climáticas) não tinha força na época de R. Carson. Hoje, se trata de realidade. Aliás, alguns manuais escolares, desde tempo atrás, a exemplo de Chiavenato (1989), O massacre da natureza, ou o livro de Bandeira (1977), mostram isso com fartura de exemplos. A tendência ao aumento de furacões categorias 4 e 5 – os mais intensos – dobrou nas últimas três décadas; climatologistas acreditam que a causa tem tudo a ver com o chamado efeito estufa.

Os oito anos mais quentes da história da Europa se concentraram nos últimos quinze anos e não por acaso. A concentração de gás carbônico (de carbono, portanto) na atmosfera é 32% mais elevada que na era pré-industrial. E a temperatura média mundial aumentou em meio grau. Calotas polares derretem a um volume sem antecedentes em relação aos últimos séculos. O nível do mar vem subindo.
As perdas florestais são maciças, e segundo alguns, quase proporcionais ao tamanho de uma França a cada ano. Toneladas de carbono são lançadas à atmosfera pela queima de combustíveis fósseis e também de florestas. O buraco na camada de ozônio é extenso. Espécies vivas vêm desaparecendo em ritmo acelerado, recursos minerais não-renováveis dissipados aceleradamente, erosão de terras evoluem em marcha rápida, com consequente desertificação em patamares jamais vistos.

Em qualquer área – a começar da ciência dos armamentos de todo tipo – o poder de destruição da tecnologia atual é qualitativamente incomparável com qualquer era anterior.

A tecnologia atual nada tem a ver com aquela do início do século: ela é infinitamente mais destrutiva e, nas mãos do capitalismo, não se pode afirmar gratuitamente que ela seja “progressista”. Ou que nesse sistema do capital venha a sê-lo algum dia, muito menos na era do capitalismo senil. São tecnologias que quando dão um passo adiante, ao mesmo tempo, carregam consigo um rosário de malefícios para a saúde humana e do planeta.

Em resumidas palavras: sob hegemonia do capitalismo, sistema destrutivo por excelência, o planeta não se tornou, com o avançar da tecnologia, um espaço menos poluído, mais seguro e nem mais auto-sustentado (a agricultura, por exemplo); todos esses elementos contrariam a aposta de Carson, mas também, inclusive, de certo marxismo, sobretudo o influenciado pelo stalinismo e também por más leituras do legado essencial de Marx (que foi firme na noção de que é da natureza do capital converter forças produtivas em destrutivas). Certo marxismo promove o debate ambiental em bases idealistas.

Portanto, Rachel Carson que, de alguma forma, foi a “mãe” do ambientalismo moderno, não só não poderia imaginar a que ponto de devastação a “civilização” capitalista iria chegar, como muito menos tinha condição de imaginar que mais consciência ambiental não significaria mais vontade, de parte dos que controlam a emissão de poluentes e a carga tóxica ambiental e sanitária, de reverter aquele quadro.

E como são eles que decididamente mais destroem o ambiente social e natural, cai por terra aquela ingênua [e de parte do sistema, interessada] ilusão de que o problema central é o de que cada um “não quer fazer a sua parte”.

G Dantas
Brasília, 1/7/17

Rachel Carson, Primavera silenciosa, 1964, Melhoramentos. / COLBORN, Theo, 2002. O futuro roubado. Porto Alegre: L&PM. / BANDEIRA, Ronaldo, 1977. Poluição: a doença da Terra. Petropolis, Rio de Janeiro: Vozes / CHIAVENATO, Júlio, 1989. O massacre da natureza, 2ª ed. São Paulo: Moderna / DAVIS, Mike, 2006. Planeta favela. São Paulo: Boitempo./
[Essas notas, como a aqui publicada, integram o livro Natureza atormentada: marxismo e classe trabalhadora, Brasília, 2012].




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