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EUA | Democratas e republicanos ao resgate... das corporações

Republicanos e Democratas concordaram em um pacote de incentivo sem precedentes de 2 trilhões de dólares, muito disso para assegurar a lucratividade corporativa. Enquanto centenas de milhares estão doentes e morrendo pela pandemia do Covid-19, o Congresso deixa claro novamente em qual interesse se dá seu governo.

quinta-feira 26 de março| Edição do dia

Diante da maior crise de saúde pública em um século e um colapso econômico pior que o de 2008-9, Republicanos e Democratas se juntaram para montar um pacote massivo de incentivo econômico que vale cerca de US$ 2 trilhões. Contudo, pelo menos um quarto do pacote, estimado em $500 bilhões, será direcionado para resgatar as maiores empresas do país. Enquanto as duas partes discutiram os detalhes do acordo, incluindo se e como fornecer supervisão para o “fundo de suborno” de meio trilhão de dólares, ambos, Democratas e Republicanos, demonstraram que suas prioridades não residem em garantir que os trabalhadores possam sobreviver a essa crise, mas sim em manter os capitalistas sobrevivendo com dinheiro público.

Existem agora mais de 400 mil casos de infecção por Covid-19 pelo mundo, e esse número irá crescer certamente nas próximas semanas. Milhões de trabalhadores nos EUA foram demitidos, tiveram suas horas de trabalho reduzidas, ou viram seus trabalhos autônomos, como “freelancers”, se esgotarem. De acordo com os dados do estado, 281 mil trabalhadores apresentaram novas alegações de desemprego, somente na semana de 16 a 20 de março. Goldman Sachs coloca o número muito maior, estimando que 2,4 milhões de pessoas nos Estados Unidos podem ter preenchido alegações durante esse período. Se correto, isso seria o maior total semanal já registrado. Os únicos trabalhos que parecem mostrar alguma estabilidade são aqueles que colocam trabalhadores na linha de frente da pandemia, tais como em unidades de saúde, mercados, transporte público e outras áreas de serviços consideradas “essenciais”. Milhões são agora forçados diariamente a escolher receber um salário e arriscar suas vidas e as vidas de seus familiares.

Quando surgiram as notícias do surto do novo coronavírus na província de Wuhan, Trump tentou acalmar consumidores e mercados subestimando sua gravidade, declarando em janeiro, “Nós temos tudo sob controle. É uma pessoa vinda da China. Temos sob controle. Vai ficar tudo bem.” A mensagem que os EUA tinham a situação “sob controle” foi repetida dezena de vezes por Trump e membros de sua administração ao longo das semanas seguintes.

No final de fevereiro, porém, o mercado de ações entrou em uma queda livre virtual, forçando a Casa Branca a reavaliar sua posição. O Dow Jones Industrial Average perdeu 30% do valor de seu auge e apagou todos os ganhos feitos durante a presidência de Trump. O presidente aceitou com relutância medidas massivas de quarentena que fecharam negócios em todo o país. Trump também declarou seu total apoio ao pacote de resgate sem precedentes de 2 trilhões de dólares, um pacote maior que o dobro do estímulo de Obama após a quebra de 2008.

Enquanto o incentivo estende licença médica e inclui pagamentos à vista em dinheiro para as famílias, a maior porção desse fundo irá resgatar os lucros das maiores empresas do mundo — de gigantes do petróleo a grandes companhias aéreas e redes de hotéis. A conta supostamente inclui mais de US $ 400 bilhões para o Fundo de Estabilização de Câmbio do Tesouro, com o objetivo de fazer empréstimos para Wall Street. Assim como o resgate de 2008, o pacote de 2020 será pago pela população americana, mas seus maiores beneficiários serão os bilionários. O mais novo plano de resgate se mostra como particularmente obsceno, entretanto, uma vez que acontece durante uma emergência de saúde pública, na qual hospitais estão sobrecarregados de pacientes e as mortes dos americanos provavelmente aumentará para milhares.

Diante da segunda maior crise do capitalismo nos últimos 12 anos, a burguesia está tentando, novamente, salvar grandes negócios com uma conta multibilionária. É claro que os mesmos políticos que tentavam despejar essas quantias nos bolsos dos capitalistas estavam travando uma guerra de especialistas e de mídia contra a suposta "irresponsabilidade fiscal" do Medicare for All, há apenas algumas semanas. A miserabilidade da classe capitalista não termina aí, entretanto. O orçamento fiscal do ano de 2021 de Trump propôs cortes gerais, de Medicaid (auxílio saúde) a programas de assistência alimentar, e de moradias populares ao CDC e Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. Este último causou constrangimento a Trump após o surto do Covid-19 e ele foi forçado a declarar que o financiamento seria garantido para as duas agências.

O pacote de resgate inclui US $ 58 bilhões para as companhias aéreas e incrivelmente, $17 bilhões para contratos privados com o ministério da defesa, como aponta Jack Rasmus. Mais bilhões irão para companhias de cruzeiros, hotéis e turismo. O Congresso incluiu disposições de que o dinheiro não seria usado para recompras de ações ou bônus de executivos — depois que essas práticas foram escandalosamente tomadas por empresas que receberam resgates em 2008 — ainda assim, seria ingênuo não esperar que essas empresas voltem a obter enormes lucros para acionistas e executivos em questão de meses, graças a esse resgate.

Obviamente, muitas das empresas que lucram com os resgates serão as mesmas que receberam uma enorme fortuna do corte de impostos de Trump em 2017, nada disso resultou em nenhum ganho significativo para as pessoas da classe trabalhadora. Esses mesmos cortes de impostos reduziram a receita com impostos corporativos em 40% de 2017 a 2018, “a maior queda ano a ano na receita tributária que vimos fora de uma recessão”, segundo um relatório do Center for American Progress.

Enquanto Democratas e Republicanos atuaram primeiramente para proteger os interesses das maiores corporações nos efeitos da crise, é a classe trabalhadora que tem mais a perder. A Moody’s Analytics agora diz que 80 milhões de empregos – metade de todos os empregos dos EUA – estão em risco moderado a alto de serem cortados por causa da pandemia. Entre as indústrias com maior probabilidade de perder empregos estão o turismo, o transporte, entretenimento e a indústria do petróleo. Até o secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, alertou que o desemprego pode subir até 20%, uma taxa nunca vista antes da Segunda Guerra Mundial.

Apesar disso, os trabalhadores podem esperar apenas o alívio insignificante do estímulo do Congresso. O acordo inclui pagamentos únicos em dinheiro de US$ 1200,00 por adulto e US$ 500 por criança e aumentos temporários nos benefícios de desemprego, mas isso não será nem perto de suficiente para cobrir os meses de renda perdida que os trabalhadores estão enfrentando. Como vimos em 2008, trabalhadores não viram melhorias significativas nos padrões de vida durante o chamado período de recuperação e não viram um aumento real em seus salários desde a década de 1970. Enquanto as taxas de desemprego caíram durante os anos de Obama, a maioria dos empregos criados foram de baixos salários. A taxa geral de participação da força de trabalho foi menor no início de 2020 do que foi em 2007.

No meio de um contágio global, que já matou mais de 20.000 vidas e que será um duro golpe para as condições da classe trabalhadora e das pessoas pobres, devemos dizer “nem um centavo por resgates corporativos”. Em vez disso, esses bilhões devem ser direcionados à construção de novos hospitais, à fabricação de ventiladores e aos equipamentos de proteção individual necessários para combater a crise. Além disso, o custo dessas iniciativas deve ser pago não pelos trabalhadores, mas pelas grandes empresas e pelo 1% mais rico da população. Trabalhadores de indústrias que foram desligados devem receber salários completos, não apenas por quatro meses, mas por toda a duração desta crise. Ajuda de emergência também é necessária para a Itália, o Irã (que ainda sofrem desesperadamente com a falta equipamentos médicos devido a um bloqueio nos EUA) e outras nações mais severamente afetadas pela pandemia do Covid-19. Se setores como companhias aéreas ou hotéis não puderem manter trabalhadores na folha de pagamento durante o desligamento, eles devem ser imediatamente estatizados sob o controle de seus funcionários – os mesmos trabalhadores que os mantêm funcionando todos os dias. Somente através de medidas como essas, trabalhadores e pessoas pobres podem evitar os efeitos catastróficos da pandemia.




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