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EUA: Bernie Sanders e o seu anacronismo na política exterior

Sanders deu seu discurso mais progressista até agora, mas segue longe de construir uma alternativa real pela esquerda ao imperialismo norte-americano.

sábado 14 de outubro| Edição do dia

Esse artigo foi publicado originalmente em LeftVoice, parte da Rede Internacional do Esquerda Diário.

Em um recente discurso na universidade de Westminster, Bernie Sanders delineou uma visão da política exterior estadounidense muito mais profunda que suas propostas anteriores. Durante a campanha pelas eleições primárias no ano passado, Sanders havia sido acusado de não ter uma plataforma de política exterior, uma acusação parcialmente correta. Muitas de suas propostas sobre a estratégia dos EUA eram limitadas e difusas. Por fora de sua condena do voto de Clinton em favor da invasão ao Iraque, Sanders sempre evadiu esse tipo de perguntas. Como bem disse o portal The Intercept, o site de campanha de Sanders não incluiu uma plataforma de política internacional durante vários meses.

A razão desse silêncio não foi, como deslizaram desde o lado de Clinton, a inexperiência. Foi, em todo caso, a incapacidade de diferenciar-se das estratégias da era Obama ou, inclusive, das da ex-secretária de estado, Clinton. Como ela, Sanders aprovou a invasão ao Afeganistão, o direito de Israel a bombardear o Líbano e os ataques da OTAN a ex-Iugoslávia.

A presidência de Trump oferece ao senador Sanders a oportunidade de apresentar uma visão distinta do nacionalismo aberto do “American First”. No discurso em Westminster, Sanders denunciou o novo pressuposto militar de 700 bilhões de dólares (votado a favor por todos os senadores democratas, incluindo a sua aliada Elizabeth Warren, com exceção de 4 senadores), os enormes níveis de desigualdade no mundo e a decisão de Trump de abandonar os acordos climáticos de Paris. O senador por Vermont falou das “consequências indesejadas” e a arrogância das intervenções internacionais. Colocou como exemplo a derrocada de Mossadegh no Irã, o apoio à ditadura de Pinochet no Chile e a guerra do Vietnã. Sanders, que louva a Churchill e Eisenhower, marca uma diferença entre um suposto imperialismo bom, que viria a estar representado pelo Plano Marshal, a ONU, etc. e um mau, em vez de apresentar uma alternativa real anti-imperialista.

Sanders assegura que nos anos seguintes à Segunda Guerra o imperialismo norteamericano cumpriu um papel progressivo no mundo e pretende voltar a ele. Mas como bem sabemos, não existe isso de um imperialismo progressivo.

O contexto de seu giro

Não há dúvidas de que esse discurso é um claro giro a esquerda para Sanders, e para entende-lo necessitamos compreender o contexto em que se dá. O senador esteve em Westminster dois dias depois de Trump ter ameaçado “destruir completamente” a República Democrática da Coréia e sugerisse que os EUA se retirassem do acordo nuclear iraniano na ONU. O presidente delineou sua visão de um mundo em que cada vez menos organizações e acordos internacionais se interponham no caminho dos interesses dos Estados Unidos.

Com o foco colocado na retórica de Trump com a Coréia do Norte, Sanders se deu conta de que deve sentar as bases de sua política internacional, mais ainda se quer competir nas eleições de 2020. Então, enquanto o presidente continua com sua política belicosa contra um novo “eixo do mal” o senador e futuro adversário, tenta criar uma plataforma que “defenda os valores da liberdade, da democracia e da justiça”.

Na frente interna, os eventos em Charlottesville colocaram sobre a mesa que a polarização política cresce a cada dia. Os supremacistas brancos e a ultradireita nacionalista, ainda que sigam sendo forças relativamente pequenas, estão arrebatadores, chamam a atos públicos e atacam o ativismo de esquerda, algo que Sanders falou sobre em Westminster. Ao mesmo tempo, dezenas de milhares de jovens dão as costas ao partido Democrata e buscam outras organizações como os Antifa. Parte desse giro é o crescimento que experimentou o partido Socialdemocrata Americano (DSA por sua sigla em inglês) que, ainda que mantenha algumas ilusões nos Democratas, atraiu a milhares de jovens um partido que se autodenomina socialista, algo que não se via em décadas nos Estados Unidos.

Mas a polarização não é só um fenômeno estadounidense. Na Alemanha a ultradireita obteve 13% dos votos e conseguiu entrar ao Bundestag (parlamento) por primeira vez desde a Segunda Guerra. No Reino Unido, Jeremy Corbyn terminou só alguns pontos por atrás da primeira ministra May com um programa que incluía nacionalizações parciais, aumento de salários e a diminuição da idade para votar para 16 anos, muito à esquerda das propostas do Novo Laborismo (em referência ao LabourParty) das últimas décadas.

Seria ingênuo pensar que Sanders desconhece essa dinâmica. Mais além, um político esperto e experimentado como ele, sabe que tem que apresentar um programa “radical” se quer conter ao setor mais radicalizado da juventude.

Sanders é uma alternativa?

Sanders, portanto, tentou postular uma visão alternativa ao imperialismo nacionalista de Donald Trump. O site The Nation louvou o discurso e disse que era “o discurso sobre política exterior que estávamos esperando” enquanto que o The Interceptor disse que havia dado ao partido Democrata uma lição em política exterior radicalizada. Branko Marcetic, escrevendo para o site Jacobin, viu no discurso uma ruptura com o consenso de Washington. Então, o que acarreta a auto denominada estratégia socialdemocrata? É evidente que difere tanto do “American First” do presidente Trump como da doutrina multilateral dos falcões do establishment democrata. A posição de Sanders oferece uma alternativa para os povos oprimidos ao redor do mundo? Bom, a resposta é não.

Sanders chora os milhares de mortos no Afeganistão, mas não chama a aplicar a única medida que pode aliviar o sofrimento do povo afegão, o retiro imediato das tropas de ocupação. Continua defendendo seu voto de 2001 autorizando a guerra enquanto repete o mito de que os EUA estavam “caçando os terroristas que nos atacaram”. Durante a campanha Sanders esteve virtualmente de acordo com Clinton assegurando que “não podemos retirar amanhã” em referência ao retiro das tropas que ainda estão no Afeganistão. O senador advogava por um retiro gradual, uma política que ainda sustenta. Recordemos que Obama também prometia um retiro por etapas de todas as tropas,mas no final de seu mandato ainda estavam cerca de 8500 soldados.

Sanders chama legitimamente a retirar o apoio ao regime repressivo da Arábia Saudita. Mas não faz menção aos muitos outros regimes igualmente repressivos que existem no mundo graças a generosidade dos EUA como o de Erdogan na Turquia ou El-Sisi no Egito. Somente durante o ano passado, Erdogan prendeu mais de 40 mil pessoas e reforçou seu poder com um referendum suspeito. El-Sisi, enquanto isso, continuou prendendo pessoas LGBT, jornalistas e trabalhadores grevistas enquanto tortura e assassina seus opositores.

A mais notória omissão no discurso de Sanders é a ocupação israelita na Palestina, um dos conflitos geopolíticos mais importantes do mundo atual. De fato, Sanders nem sequer falou de Israel nas cerca de 5000 palavras de seu discurso. Em uma entrevista com The Intercept, falou de uma política mais equilibrada no conflito e até deslizou que os EUA poderiam suspender a ajuda militar se Israel não contribuísse ao processo de paz, mas na mesma entrevista, rechaça a política de boicote, desinversão e sanções (BDS pelas siglas em inglês). Além disso, junto com outros Republicanos e Democratas, fez um chamado a ONU para que “melhorasse o trato que Israel recebe”.

O que está em crise é o neoliberalismo

O problema com a nova plataforma de Sanders é muito mais profundo porque caracteriza erroneamente a crise global atual e, portanto, as propostas são anacrônicas. Em seu discurso Sanders voltou à era da segunda pós-guerra, em que se estava construindo um novo consenso internacional, o qual os EUA cumpriram um papel preponderante. Elogiou a ONU, fazendo eco de Eleanor Roosevelt,chamando-a como a “nossa maior esperança para a paz futura”. Também disse que o Plano Marshall foi “radical” e que “não teve precedentes”.

Segundo Sanders, Trump e os nacionalismo emergentes colocaram em perigo a ordem do pós-guerra. Por isso diz que “tanto na Europa como nos EUA, a ordem internacional que ajudamos a criar durante os últimos 70 anos, que colocou grande ênfase na democracia e nos direitos humanos e promoveu o comércio e desenvolvimento econômico, está acumulando tensões”.

Entretanto, essa ordem morreu faz tempo com a queda do Muro de Berlim e a extensão do capitalismo sobre os ex-estados operários que ocupavam um terço do mundo. A imposição do neoliberalismo se fez capital em todo o mundo, montada sobre derrotas massivas da classe operária com a ofensiva reaganiano-thatcherista.
Essa é a ordem que entrou em crise, não com Trump e o ascenso da direita, mas com o crack de 2008 que demonstrou uma vez mais que o capitalismo não é um sistema harmonioso. A história não terminou e os capitalistas ainda têm que se recuperar. Um setor da classe dominante, agora personificado pelo presidente francês Macron, quer continuar o caminho do neoliberalismo e outro setor trata de impor um giro mais nacionalista, a la Trump. O ascenso de uma direita cética das velhas instituições como a ONU e a União Europeia só pode ser entendida dessa crise. É por isso que o remédio de Bernie Sanders não pode surtir nenhum efeito, porque a crise não é do mundo post Yalt, e sim do neoliberalismo.

Não se pode voltar ao passado

O neoliberalismo se construiu sobre os cimentos da era da Guerra Fria quando os Estados Unidos emergiram como a superpotência indiscutida, baseada em parte sobre o complexo militar-industrial. Do outro lado só estava a URSS de Stalin, a que derrotou ao terceiro Reich. Mais tarde, a revolução na China e o controle soviético dos estados “satélite” configurou o mundo bipolar. Um mundo que os EUA e a burguesia internacional queriam controlar por completo.

Dai nasceu a ONU, com o stalinismo fazendo um papel contrarrevolucionário contendo as revoluções ao redor do mundo. O acordo dos soviéticos de dividir o mundo entre capitalista e “comunista” não apaziguou aos “Americanos” que lideraram um esforço internacional para esmagar as insurgências operárias e os movimentos revolucionários. A burguesia internacional, temerosa de seu próprio proletariado, cedeu ao novo papel dos EUA como o gendarme da paz mundial.

A ordem mundial que defende Sanders surgiu em momentos de crescimento econômico e unidade capitalista contra a “ameaça comunista”. Foi uma utopia construída por políticas pensadas para uma hegemonia estadounidense em ascensão, não em declínio como agora. Essa ordem viu seu fim com a queda do Muro e com a dissolução da URSS, um fim que foi bastante favorável ao capital que se estendeu como metástase nos ex-estados operários burocratizados. Agora, o projeto capitalista do mundo pós-soviético está em crise e a burguesia busca desesperadamente uma saída ao estancamento em que caiu a economia.

Mas, a diferença do que acredita Sanders, a era da pós-guerra se construiu sobre a carnificina imperialista, a destruição da Europa e a derrota das revoluções do ocidente. Não foi o consenso pacífico e a cooperação internacional, e sim a destruição dos competidores imperialistas. Sanders assume ingenuamente que ainda se pode chegar a um novo consenso sem maiores confrontamentos comerciais, conflitos inter-imperialistas e até mesmo guerras.

O Plano Marshall e os golpes de estado

O erro de Sanders vai muito mais além de um simples erro histórico, já que coloca uma suposta diferença entre a benévola liderança estadounidense na criação da ONU e a implementação do Plano Marshall e o mau imperialismo que apoiou os golpes de estado no Irã e no Chile e causou a guerra no Vietnã.
Esse corte declarado pelo senador é completamente arbitrário, já que os EUA sempre defenderam os interesses de sua própria burguesia, algumas vezes através da “ajuda” diplomática, outras diretamente com a força.

O exemplo mais claro é justamente o Plano Marshall, que se desenvolveu para reconstruir a Europa que tinha ficado em ruínas depois do massacre da Segunda Guerra Mundial. Enquanto Sanders o descreve como um ato de benevolência sem precedentes, o plano foi central em garantir lucros às companhias estadounidenses, já que a maioria dos fundos dedicados ao projeto foram usados para comprar bens fabricados nos Estados Unidos. Além disso, o Plano cumpriu um papel chave na contenção das revoluções do pós-guerra nos países que tiveram que lidar com a destruição e a miséria. A CIA nasceu quase paralelamente com o Plano e recebeu financiamento dele para formar grupos nos países soviéticos e disseminar propaganda anti-soviética. Harry Truman disse em uma entrevista em 1950 que “o Plano Marshall controlou o perigo da subversão comunista na Europa e, desde esse momento, conseguiu uma aproximação entre os países livres e um forte laço econômico”.

Vemos então que o Plano Marshall que Sanders tanto defende, compartia os objetivos com o golpe no Irã que derrocou ao primeiro ministro Mossadegh em momentos em que se estava aproximando à URSS e o golpe no Chile, em que Salvador Allende havia expropriado setores chave da economia e ameaçava os interesses mineiros estadounidenses. Os objetivos dessas intervenções eram proteger os lucros das companhias dos EUA e derrotar os movimentos socialistas.

Não há humanidade sob o capitalismo

Sanders termina seu discurso dizendo “nosso trabalho é construir uma humanidade em comum e fazer todo o possível para nos opor a todas as forças, sejam governos ou corporações irresponsáveis, que tratam de nos dividir e nos colocar uns contra os outros” em um claro ataque à retórica racista de Donald Trump e à direita xenófoba de todo o mundo.

De todos os modos, a adornada linguagem de Sanders é só uma cobertura para uma política que não ataca os problemas mais importantes do mundo atual. As tropas no Afeganistão, a ocupação ilegal da Palestina por parte de Israel e os regimes ditatoriais que são aliados dos EUA. As propostas de Sanders revivem soluções pensadas para um momento de crescimento econômico e unidade capitalista, muito longe da realidade política e econômica atual. E sobretudo, Sanders falha em entender que a política exterior estadounidense, seja em 1947 ou 2017, mediante ajudas ou bombardeios, só protege os interesses imperialistas dos capitalistas dos Estados Unidos.




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