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EUA: "A polarização nas ruas rapidamente se converte em política eleitoral de Trump e Biden"

Diferentes crises se cruzam nos Estados Unidos: a sanitária, a econômica e os protestos Black Lives Matter. Enquanto isso, a campanha eleitoral se polariza e em 70 dias ocorrem as eleições para presidente. Em #SeTeníaQueDecir, programa argentino da rede Esquerda Diário, conversamos com Jimena Vergara, correspondente do nosso diário virtual Left Voice nos EUA.

Jesica Calcagno

@Jesi_mc

segunda-feira 31 de agosto| Edição do dia

Nos Estados Unidos,diferentes crises se cruzam. A crise de saúde com a pandemia da covid-19, que atingiu a marca de 6 milhões contaminados no domingo, a crise econômica com altas taxas de desemprego, e os protestos do Black Lives Matter, que impactaram até mesmo os esportes mais importantes do país e que têm viajado o mundo.

Ao mesmo tempo, o país norte-americano está mergulhado em uma campanha eleitoral e vai eleger um presidente em menos de 70 dias.

Jimena Vergara, correspondente do Left Voice, da Rede Internacional do Esquerda Diário, explicou no programa #SeTeníaQueDecir que "essas crises estão colocando em dúvida a liderança dos Estados Unidos no mundo". “A situação é muito volátil, há um desenvolvimento de uma profunda crise econômica e muito enfrentamento e polarização social com luta de classes, assim como divisões inter-burguesas, que estão causando a queda dessa liderança”.

Jimena mencionou em primeiro lugar, sobre a crise sanitária, que "Trump teve uma má administração da pandemia, não apenas em nível doméstico, mas também em nível internacional". Isso porque ele quebrou "a liderança como gendarme internacional, com um grande enfrentamento com a China, mas também com outras potências imperialistas".

Em relação às próximas eleições presidenciais em novembro, Donald Trump questiona antecipadamente o resultado eleitoral, levantando dúvidas sobre o que poderia acontecer se ele fosse declarado perdedor e decidir não reconhecer esse resultado. A este respeito, Jimena Vergara explicou que se trata de "uma eleição tensíssima" pelas características do trumpismo. Embora seja um governo que continua a apoiar as instâncias da democracia burguesa, é um governo muito autoritário, muito bonapartista. Mais ou menos um mês atrás ele ameaçou suspender a eleição. Atacou o voto eletrônico ou por correio, que é um direito elementar nos Estados Unidos. Ele está dizendo que vai haver fraude, é uma ameaça que pode se tornar real”.

Um antecedente mais recente de denúncias de fraude eleitoral foi a eleição de 2000 entre Bush (republicano) e Gore (democrata). “Essa foi uma das eleições mais questionadas, que acabou sendo decidida nos tribunais, na Suprema Corte dos Estados Unidos”, disse a correspondente do Left Voice.

E acrescentou que "está em questão se não vamos a uma grande deslegitimação do sistema eleitoral. Não está dado que Trump, se perder a presidência, sairá com tranquilidade".

As ruas e as urnas

Mais uma vez, a polícia de Wisconsin desencadeou protestos em muitos estados. Que experiência houve nesses três meses? Que experiência existe desse movimento? Surgiram novas organizações políticas?

Jimena Vergara define que “estamos em um novo momento do movimento Black Lives Matter. A dinâmica eleitoral está prevalecendo”. “Embora as demandas não tenham parado, houve um retrocesso no nível de massividade. O jornal New York Times publicou que até 26 milhões de pessoas foram mobilizadas, provavelmente o maior movimento da história dos Estados Unidos”, disse Vergara.

No entanto, esse movimento retrocedeu, devido a “uma política do Partido Democrata de expropriar as bandeiras do antirracismo, falar em nome do movimento, explorar as reivindicações. Mas não conseguiram domar ou subjugar uma vanguarda, especialmente jovem, que continua a se mobilizar".

Outro elemento novo que Vergara destacou é que “com a dinâmica eleitoral, há novos setores da direita mobilizados, agitados por Trump, que começaram a tomar as ruas violentamente, em colaboração com a polícia, agrediram dois manifestantes que morreram em Kenoya”.

“E em Portland, em outro dia muito violento de enfrentamento com a polícia, foi organizada uma marcha que também foi atacada, embora em condições pouco claras. O presidente imediatamente foi ao Twitter, dizendo que a culpa é dos esquerdistas”, acrescentou Jimena.

A polarização nas ruas rapidamente se transforma em política eleitoral

“A situação política mudou, girou à esquerda, mas o Partido Democrata está reivindicando a representação do movimento de massas, enquanto Trump agita os confrontos”, explicou Vergara.

Sobre a estratégia de ambos os candidatos, Vergara descreveu que “a estratégia de Trump é uma política de ’lei e ordem’. Busca atacar com um senso comum de que a violência se deve às mobilizações”.

Por outro lado, “Biden sai para se mostrar como o garantidor da estabilidade, da tranquilidade, mas ao mesmo tempo tem que fazer eco das mobilizações por Black Lives Matter”. No entanto, não vão enfrentar os sindicatos da polícia e os departamentos policiais, mas mantêm uma retórica antirracista para que nada mude.

As tarefas da esquerda nos Estados Unidos

Sobre este último ponto, Jimena Vergara analisou que “as tarefas que a esquerda tem nos Estados Unidos são enormes, porque o movimento Black Lives Matter é tão profundo que não vai parar por aqui, enquanto não tiver sofrido uma derrota”.

Embora o movimento esteja girando para a esquerda, “ainda não desenvolveu ações independentes dos trabalhadores, dos oprimidos, que questionem o regime bipartidário. Por isso o Partido Democrata tem espaço para atuar”.

Além disso, Vergara indicou que com esses protestos “se expressou muita solidariedade operária, com campanhas de base pela expulsão dos sindicatos policiais das centrais, mas não se desenvolveram ações independentes”.

E explicou que a partir da esquerda e da rede Left Voice eles chamam a "não votar nos partidos capitalistas e imperialistas, ambos. É preciso desenvolver uma política independente, votar em candidatos independentes nos Estados onde houver, e desenvolver uma perspectiva contra o racismo e a crise econômica (não está claro quais serão suas consequências)”.

“Não há clareza sobre as consequências para o emprego, por isso estamos propondo a unidade das lutas. Uma política independente, de não confiar nos democratas. Por fim, temos também a obrigação de defender os direitos democráticos que estão em questão, frente a Trump que quer atacar o direito eleitoral".

Veja a entrevista completa em espanhol:




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