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[ENTREVISTA] "Nós não vamos parar" dizem os estudantes da Argélia

Reproduzimos a entrevista com Yani Aïdali publicada este domingo na edição semanal do jornal francês Revolução Permanente, membro da Rede Internacional Esquerda Diário.

quinta-feira 25 de abril| Edição do dia

Militante do Partido Socialista dos Trabalhadores da Argélia [membro da organização internacional de que o NPA francês pertence] e estudante de arqueologia na universidade de Alger 2, Yani Aïdali é um dos líderes do movimento na capital argelina. Segundo ele, os jovens não estão prontos para voltar pra casa. Eles derrubaram Bouteflika e querem continuar...

RP: Em primeiro lugar, você pode falar sobre a situação atual da mobilização, especialmente sobre a intervenção do movimento estudantil?

Yani Aïdali: A mobilização começou há dois meses, com as maiores manifestações ocorrendo nos dias 16 e 22 de março. Ainda persiste, mesmo depois da queda de Bouteflika e permanece igualmente intensa apesar da repressão que sofremos. As grandes manifestações são organizadas na sexta-feira, mas os estudantes também se manifestam às terças-feiras. Em algumas faculdades, se iniciou uma greve geral sem data de término; às vezes são greves cuja continuidade é votada semana após semana, ou a cada dois dias. Depende dos ritmos de votação das assembleias gerais. As universidades mais ativas são Argel 2 e as escolas de El-Harrach, no leste da capital, com 800 alunos que se juntaram em um pólo de escolas. Cada escola tem um comitê autônomo e eles têm uma coordenação que eles chamam de pólo das escolas de El-Harrach. Porém, ainda não conseguimos estruturar uma coordenação dos alunos de Argel, mas o processo está em andamento.

RP: O que essa mobilização significa para os jovens em um país onde a taxa de desemprego é enorme?

YA: Durante anos, experimentamos um sentimento de terrível impotência no mundo do trabalho, com uma taxa de desemprego muito alta na juventude. Muito poucas especialidades deram lugar a verdadeiras oportunidades profissionais reais e para muitos estudantes a única esperança era a imigração, especialmente para a França. Agora o giro na situação está nos dando mais esperança.

RP: Quais são as reivindicações dos estudantes?

YA: Desde o início, o movimento estudantil foi parte da dinâmica do movimento popular. Isso significa que nós adotamos as reivindicações políticas do movimento, em primeiro lugar o rechaço ao quinto mandato de Bouteflika. Desde então nós fomos mais longe, pressionamos, exigindo a renúncia de todo o regime. Agora que Bouteflika partiu e que o exército tomou a iniciativa política, não reconhecemos a legitimidade do atual governo e exigimos a renúncia do Chefe do Estado Maior, Gaïd Salah, que agora é o homem forte do governo.

Em relação às demandas dos estudantes, estamos lutando por uma universidade pública gratuita e de qualidade contra as tentativas de privatização. Queremos que a escola seja aberta aos filhos dos trabalhadores, aos filhos dos camponeses e às classes populares. E que seja também de qualidade, porque a universidade sofreu uma importante deterioração após a imposição do sistema LMD (Licenciatura-Mestrado-Doutorado), que consiste em um desinteresse financeiro do Estado em relação à universidade. Os estudantes pagam o preço pelas consequências pedagógicas e sociais.

Com exceção de algumas províncias, houve um terrível retrocesso generalizado do movimento estudantil devido à falta de estruturação e auto-organização. Havia também o que chamavam de "organizações satélites", que eram apêndices da coalizão presidencial, aliados da administração e do poder. É por isso que relançamos a consigna da auto-organização nas Assembléias Gerais, porque é uma tradição que se perdeu na universidade. Esse processo de auto-organização, a princípio, nos tomou muito tempo e nos deixou pouco tempo para discutir e debater políticas, perspectivas e questões do movimento. Agora a situação se reequilibrou e os debates estão se desenvolvendo.

Muitos estudantes defendem a perspectiva de uma Assembléia Constituinte ou, como dizemos em um de nossos cartazes, "o povo quer liderar seu período de transição e quer votar pela sua Assembléia Constituinte". Até agora nossas consignas não foram hegemônicas, porque não temos visibilidade suficiente para podermos levar a cabo uma campanha em torno de nossa orientação. Então é a oposição liberal que se impõe com a proposta de uma transição pacífica e rápida, isto é, uma transição desde cima que exclui trabalhadores e setores desfavorecidos. E insistimos em propor uma alternativa a este projeto: a da Assembléia Constituinte.

RP: Como assegurar que a Assembleia Constituinte não seja um caminho morto para as mobilizações e uma porta de saída para as classes dominantes, como foi o caso de Túnez?

YA: Uma das debilidades do movimento reside no seu conteúdo ideológico ou, melhor dizendo, na falta de conteúdo ideológico. As demandas seguem sendo vagas, mas radicais. Todo o mundo pede que o regime caia, todo mundo sabe o que não quer. É mais complicado saber o que queremos. A oposição liberal busca uma solução a curto prazo, uma transição para o governo atual.

No entanto, acredito que a solução só chegará em longo prazo, depois de um longo processo de reconstrução do discurso político e da auto-organizarão. Quando defendemos a auto-organizarão, muitos podem estar de acordo conosco, inclusive liberais, e até mesmo os islamitas que fazem declarações retrógradas e reacionárias. O que faz a diferença é o conteúdo ideológico e político, que levam nós revolucionários a um processo a longo prazo do qual somos parte.

A consigna da Assembléia Constituinte nos ajuda a definir o rumo do movimento. Se trata, então, de alimentar esse rumo. Assim, estamos unidos a todos aqueles que são a favor da Assembléia Constituinte, embora tenhamos uma compreensão diferente da situação e dos objetivos. Por enquanto, o PST é a única organização política que propõe uma Assembléia Constituinte eleita e soberana após um processo de auto-organização.

RP: Em 17 de abril, assistimos a uma mobilização massiva de sindicalizados de base em frente a UGTA [União Geral dos Trabalhadores Argélicos] para desafiar a burocracia de Sidi Said. Como você pensa a ligação entre o movimento estudantil e o movimento operário?

YA: Houve outros protestos antes a favor da remoção de Sidi Saïd do secretariado da UGTA e na quarta-feira, ao contrário dos outros dias, houve mais apoio dos trabalhadores desde que o protesto foi lançado por alguns sindicalistas. Embora a maioria dos promotores dessa iniciativa sejam burocratas que querem substituir Sidi Saïd, era importante participar dela para discutir com os trabalhadores e mobilizá-los a exigir uma UGTA combativa e democrática.

No movimento estudantil, alguns setores estão tentando construir uma ponte com os trabalhadores. Por esta razão, um dos nossos movimentos na última Assembléia Geral de Argel2 foi: "Abramos a universidade para todos os setores em luta!". Estas são afirmações históricas. O objetivo seria convidar os trabalhadores mais militantes da UGTA para discutir a desafios da situação atual.

RP: Vimos que o novo governo fez o uso do arsenal repressivo há uma semana; gás lacrimogêneo, ultra-som, carros jato d’água, e houveram manifestantes e, em particular, militantes do PST presos. Você pode nos dizer algo mais sobre isso?

YA: Após o anúncio do Chefe do Estado Maior, Gaïd Salah, que decidiu fazer uso do artigo 102 da Constituição, que estipula que se o presidente não está em boa saúde, capaz de presidir, será afastado do cargo e será o presidente do Conselho Institucional quem assume o governo interino, Bouteflika renunciou e Bensalah, Presidente do Conselho Constitucional, assumiu a gestão do período de transição de 90 dias. De nossa parte, falamos de um golpe branco porque, embora não houvesse tanques nas ruas, Gaïd Salah interveio para manter o regime com a mesma constituição, as mesmas leis, as mesmas figuras. Imediatamente após o aparecimento do Estado Maior no centro do cenário político, começou a repressão. É como se, depois de dois meses de revolta pacífica, nos tivessem dito que "a recreação acabou", que "as coisas sérias estão começando” e que não temos mais o direito de nos manifestar em Argel.

A repressão começou na Grande Oficina de Correios, que é um lugar bastante simbólico, e as concentrações em outros lugares igualmente simbólicos foram proibidas. O que pensamos é que os militantes de vanguarda estão na mira e é por isso que tentamos organizar eventos todos os dias às 5 da tarde, mesmo que nossos camaradas sejam parados e questionados pelas forças repressivas todas as vezes, porque pensamos que sem liberdade de expressão, sem liberdade de se organizar, manifestar, reunir, não podemos continuar participando da política. Eles têm toda a imprensa em suas mãos. Eles têm os dispositivos de propaganda. Tudo o que temos é a nossa liberdade de nos organizar e nos reunir. Nós pensamos que se trata de conquistas que devemos preservar absolutamente, mesmo se está se tornando um pouco mais delicado de militar.

Eles optaram pela repressão para acalmar as massas, mas tiveram o efeito oposto sobre a população, porque agora as massas estão determinadas a sair todos os dias. Uma das consignas, a propósito, é "não vamos parar, não vamos parar! Marchamos todos os dias!" Antes era terça e sexta e agora é todo dia.

RP: Vários setores da burguesia estão se posicionando na situação: o exército não se torna superado? Como os manifestantes percebem essas tentativas de cooptar o movimento?

YA: A oposição liberal está tentando encontrar uma saída rápida para a crise e seus políticos estão se propondo a representar o movimento popular. Em termos de ecos na sociedade, estas são pessoas são respeitadas por sua trajetória, por exemplo, como ativistas de direitos humanos, etc. Mas, em geral, a população rejeita qualquer representação de cima porque duas das principais figuras dessa oposição são figuras da mídia, seja Mustapha Bouchachi ou Karim Tabbou, que estavam ou estão na Frente das Forças Socialistas (FFS). É uma construção de mídia. Apresentam pessoas "honestas" e "sábias" que podem liderar a transição tranquilamente e sem problemas, mas a oposição, seja a oposição do governo ou a oposição liberal, se diferenciam na questão de saber com qual molho querem comer os trabalhadores. É tão simples assim, porque quando dizemos "sábios e honestos", quem decidiu que eles são "sábios e honestos"? O método não é democrático de forma alguma. É por isso que propomos uma Assembléia Constituinte que passa pela auto-organização e votação. Isso significa que votamos em nossos representantes. Eles apresentam o oposto em termos de enfoque: são representantes impulsionados por cima e, por enquanto, o movimento popular o rechaça.

RP: Macron cumprimentou o novo governo de Bensalah. Os Estados Unidos enfatizaram que a eleição dependia do povo argelino. Vemos que na cena internacional o imperialismo vacila e se posiciona discretamente. Como o imperialismo é percebido depois de vinte anos de cumplicidade com Bouteflika pelos manifestantes de hoje?

YA: Entre os manifestantes, o que se sente é a onda de saque da riqueza pública, mas isso ainda não foi formulado nas manifestações. Ainda há pouca expressão política sobre isso.

Desde o dia 22 de fevereiro, houveram muitas consignas contra a interferência de potências estrangeiras no país, particularmente contra Macron. Há muito sarcasmo entre os manifestantes. Na realidade, há um rechaço total às interferências, especialmente da França no país. Isso está relacionado, em certa medida, ao papel da Argélia como fornecedora de matérias-primas, gás e petróleo para a França e para os mercados aos quais ela tem fácil acesso. Mas ainda não há consciência antiimperialista, por exemplo, sobre o papel da União Européia ou sobre o projeto de adesão da Argélia à OMC. Essas coisas são pouco denunciadas e pouco conhecidas entre a população, mas todos as rechaçam. O que ajudou a aparição dessas palavras-chave foi o exemplo líbano e o exemplo sírio. Ninguém quer experimentar o mesmo cenário na Argélia. Todos comparam a interferência estrangeira com o cenário da Líbia e da Síria, isto é, a interferência agora significa desordem, caos, guerra civil. Isso é o que é compartilhado.

RP: Para você, o que está faltando na mobilização de hoje para erradicar o que os manifestantes chamam de "poder assassino"?

YA: Eu acho que a iniciativa política e a correlação de forças seguem estando a favor do governo, isto é, que, embora haja movimento popular considerável, permanecem sempre numa lógica de perguntas e respostas com o governo: o governo decide, nós respondemos na rua. Nós não estamos em uma situação revolucionária em que há uma dualidade de poder, ainda estamos longe disso.

Eu acho que o que pode reverter a relação de forças é a auto-organização de todos os setores. Estamos longe desse ponto porque o governo impôs um tabu ao longo dos anos, destruindo todas as estruturas democráticas e representativas que existiam, incluindo os sindicatos dos estudantes e de trabalhadores. Agora é todo um desafio, é preciso reconstruir tudo e a recomposição dessas estruturas representativas e combativas é o que pode possibilitar a reversão da relação de forças. Como o surgimento da classe trabalhadora nas ruas. No momento em que a classe trabalhadora não está hegemonizando o movimento popular, os trabalhadores não estão posicionados na frente. A consigna "greve geral" não é seguida, enquanto o processo de organização ainda está em diferentes desigualdades.

Por exemplo, no sul do país, onde se encontram os setores de petróleo e gás, setores chave da economia argelina, os trabalhadores não entraram em greve por mais de cinco dias e o processo e auto-organização é quase inexistente. A atual debilidade da intervenção dos trabalhadores pode condicionar o desenvolvimento e o futuro da mobilização.

Entrevista realizada por Maryline Dujardin.




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