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Retorno Presencial USP | E se a Letras não voltar 100%? Assembleia já pra decidir os próximos passos e garantir um retorno seguro!

Falta de professores, carência de salas de aula, filas quilométricas para os bandejões e corte nas cotas de impressão nas pró-alunos: esses são alguns dos elementos que compõe o quadro dos estudantes da USP neste retorno presencial das aulas, com cursos como a Letras sofrendo mais fortemente com a precarização do ensino, sem saber até agora se o retorno 100% presencial e seguro será garantido. A solução para essas demandas poderá vir somente com a nossa organização, por isso é urgente uma nova assembleia dos estudantes de Letras para organizarmos os próximos passos da luta pelo retorno presencial seguro!

quarta-feira 23 de março | Edição do dia

“A calourada foi uma das semanas mais intensas da minha vida! E agora estou com medo das aulas não continuarem presencialmente” - essa frase foi dita por um calouro de 2022 e expressa o sentimento de muitos estudantes do curso de Letras da USP, como os calouros de 2020 e 2021, que, após dois anos de quarentena e isolamento social, agora finalmente puderam sentir um pouquinho do que significa viver a Universidade presencialmente e almejam viver o cotidiano de sua faculdade. O medo que vem junto desta euforia é o de não conseguirem seguir experienciando a vida universitária em toda a sua potencialidade por conta da reitoria e da direção da FFLCH que não estão garantindo medidas mínimas para que possa ser efetivado o retorno presencial seguro.

A Letras é um dos cursos com a maior taxa de ingressantes da USP. Todo ano, 840 alunos entram e muitos deles são jovens trabalhadores, de escola pública, mulheres, negres e LGBTs que ocupam os postos de trabalho mais precarizados. Nesse sentido, não só por conta da quantidade, mas também pelo perfil dos estudantes, a Letras é um dos lugares em que a questão da permanência estudantil é mais necessária e urgente. E por outro lado, é um dos cursos da USP que menos gera retorno e lucro mercadológico para as empresas privadas ligadas à Universidade, não sendo das mais interessantes para investimento. Não à toa, é justamente no nosso curso que vemos a precarização do ensino de forma mais escancarada, com problemas estruturais profundos, como a falta de contratação de professores, o alto nível de professores temporários em regimes ultraprecários recebendo menos de 2 mil reais por mês para dar aulas na maior universidade do país, e a estrutura física, que hoje por hoje significa um prédio provisório há mais de 40 anos, que é totalmente insuficiente para a quantidade de alunos e também despreparado para um momento pandêmico, no qual muitas salas e corredores não possuem nem circulação de ar.

Se esses são problemas históricos da Letras, que existem antes mesmo da pandemia, agora são ainda mais gritantes e cobram seu preço, colocando em risco nosso retorno presencial seguro e uma naturalização e obrigação de seguir remotamente em alguns casos. Nas últimas semanas, vem sendo travada uma batalha para que esses problemas estruturais não impliquem em mais uma vez os estudantes de Letras saírem no prejuízo, mas que a gente possa garantir um retorno presencial seguro, através da utilização de salas de aula de outros institutos para que não ocorra, como acontecia cotidianamente antes da pandemia, a superlotação dos espaços de aula sem a garantia de espaçamento mínimo. Além disso, nós da Faísca achamos que precisamos usar deste momento para fazer um debate profundíssimo sobre os problemas do nosso curso e da universidade como um todo, para que, junto com os trabalhadores que mantém a USP de pé todos os dias, a gente possa, com a força da nossa luta, arrancar todos os nossos direitos!

Acontece que o cenário colocado agora é o de que nem mesmo as salas emprestadas de outros institutos estão sendo garantidas em sua totalidade pela diretoria da FFLCH. De acordo com as informações dadas pelo documento da CILE (Comissão Interdepartamental do Curso de Letras), faltam ainda 15 salas para que os estudantes do ciclo básico do período noturno possam retornar presencialmente. Ficamos sabendo também que uma professora, que na realidade não é efetiva e concursada, mas sim uma estudante da pós graduação que havia sido temporariamente contratada para ministrar aulas para os calouros - seguramente recebendo um salário bastante aquém -, não poderá seguir com a turma, fazendo com que esses alunos sejam remanejados e haja duas turmas com 100 estudantes, ao invés de 60.

Tais informações escandalosas só demonstram como os estudantes, professores e funcionários não podem ficar a reboque da burocracia universitária, alimentando ilusões de que ela vai garantir o nosso retorno presencial seguro sem uma pressão e auto organização nossa. Nossas demandas são bem claras. É urgente que haja transparência em todo o processo de empréstimo de salas, no qual saibamos pormenorizadamente quais salas estão sendo requisitadas, quais as justificativas de recusa ou aceite, para que nós possamos também fazer parte das decisões acerca da concretização do nosso retorno. Precisamos de mais salas agora no imediato, mas nossa luta também tem que abarcar nossas demandas mais históricas e que possamos ir por mais.

Devemos exigir uma estrutura decente para o nosso prédio, com a construção de um novo edifício que comporte de fato o número de estudantes do nosso curso. Além de mais salas, precisamos de professores suficientes para ocupar essas salas e lecionar para tantos estudantes, e funcionários que possam atender as necessidades administrativas, audiovisuais, de limpeza, e demais serviços. É urgente a contratação de professores e funcionários, mas não aceitaremos um aumento dos contratos precários e temporários e nem o aumento da terceirização que acaba com os direitos e condições trabalhistas, na maioria das vezes de mulheres negras. É preciso lutar também pela efetivação de todos os terceirizados, sem necessidade de concurso público!

Para um retorno seguro em toda a USP, a contratação de professores e funcionários se faz necessária em outros tantos institutos, sendo uma demanda urgente, pela qual o movimento estudantil tem que se mobilizar. Além disso, é necessário também o aumento da frota de ônibus para que não haja mais circulares e pontos de ônibus lotados. E como se tudo isso não fosse o suficiente, os estudantes da USP estão agora tendo de lidar com o drama das filas quilométricas para poderem comer nos restaurantes universitários, fazendo com que muitos se atrasem para suas aulas. Numa universidade em que o ingresso já é restrito e limitado, não podemos aceitar que os estudantes tenham que escolher entre jantar, sendo que muitos deles acabam de chegar do trabalho, ou assistir a aula. Basta de sobrecarga de trabalho! Exigimos contratação de funcionários já!

Para que haja planos concretos de retorno seguro, é necessário investimento para atender todas essas demandas. E dinheiro para investir nisso não falta na USP. O orçamento bilionário da USP (7,5 bi), maior do que de todas as Federais do país juntas, deveria estar a serviço de contratar professores e construir salas, de reajustar salários frente à inflação, de atender as necessidades dos três setores que mantêm a Universidade funcionando todos os dias, os estudantes, professores e funcionários, fazendo com que a USP atenda e esteja a serviço da população trabalhadora que com seus impostos banca esse orçamento bilionário. E não para alimentar os supersalários de burocratas que querem avançar na privatização do ensino público, dirigidos atualmente pela política tucana de Doria no Governo do Estado. Por isso mesmo, nós da Faísca Revolucionária defendemos a abertura imediata do livro de contas, para que todos possam ver para onde o nosso dinheiro público está sendo destinado!

E para exigir todas essas demandas, não podemos justamente ficar esperando o bom senso da reitoria ou da direção da faculdade, até porque vemos que a estrutura de poder da universidade, através, por exemplo, do Conselho Universitário (CO) - órgão máximo que decide para onde vai os recursos da USP - que possui uma representação ínfima de alunos e funcionários, é totalmente antidemocrática e está nas mãos de professores aposentados e grandes empresários que visam o lucro e não as nossas vidas ou a qualidade do ensino. É preciso tomar a Universidade nas nossas próprias mãos, confiando na nossa força organizada. Por isso, precisamos agora, de espaços democráticos, como uma Assembleia do curso de Letras, em que todo e qualquer estudante, incluindo os calouros que acabaram de entrar, mas que vêm cheios de sonhos e necessidades, possa decidir os próximos passos para não ficarmos somente esperando a direção conseguir ou não as salas suficientes. E se não conseguir? Aceitaremos que nossas reivindicações foram negadas, sem nem saber os motivos? Ou organizaremos uma resposta? Qual? Buscaremos os professores e funcionários do curso para pensar conjuntamente e termos mais força? Precisamos de uma Assembleia para pensar essas perguntas e respondê-las democrática e conjuntamente.

Frente a essa situação dramática, para nós da Faísca é urgente que seja chamado e construído pelo Centro Acadêmico de Estudos Literários e Linguísticos (CAELL), hoje dirigido pelo coletivo Rebeldia e independentes, um novo espaço de auto organização dos estudantes, para que possamos pensar quais os próximos passos da nossa mobilização, quais as demandas que agora, diante das novas atualizações, vemos como centrais e fundamentais, para que, a partir daí, possamos construir fortemente a Plenária dos Três Setores (estudantes, professores e funcionários), que ficou indicada para a próxima semana, construindo assim a nossa luta junto com os trabalhadores para que possamos arrancar o nosso retorno presencial e seguro!

No sentido de fortalecer cada vez mais nossa luta, vemos também que seria fundamental se o Diretório Central dos Estudantes (DCE), entidade estudantil que representa os estudantes de toda a USP e que hoje é dirigida pelo PT, PCdoB e Levante Popular da Juventude, também construa essa luta com a gente, chamando uma Assembléia Geral - partindo inclusive do fato de que não foi organizado nos últimos 2 anos nenhum espaço real de autoorganização dos estudantes - para pautarmos os problemas e descompassos do retorno presencial, como por exemplo a questão dos bandejões que estão afetando alunos de todo o Campus Butantã, e organizarmos nossa mobilização sem estarmos subordinados à reitoria que já mostrou seu descaso com a vida, como quando neste ano não garantiu testes - mesmo a USP produzindo testes - nem a liberação dos trabalhadores do Bandejão Central que entraram em contato com funcionários contaminados no meio de um surto de COVID-19 entre fevereiro e março deste ano.

A semana passada da calourada mostrou toda uma potência contida e reprimida por dois anos de pandemia, de nossa geração de jovens que têm necessidades urgentes, em relação à educação e estudo, ao trabalho, à permanência e à vida. Somente nossa luta organizada é capaz de ter a força necessária para não aceitar as necessidades e direitos que nos são negados e arrancados, e a transformar as condições que estamos!




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