Política

LAVA JATO

É preciso uma política independente do PT para combater a Lava Jato e o judiciário

Com o cerco montado em Curitiba nesta quarta (10), dia do depoimento de Lula à Lava Jato, se aprofundam os elementos repressivos do judiciário. O PT, que com sua estratégia de conciliação com empresários abriu caminho para a direita em seus governos, hoje é alvo dessas medidas, porém elas logo se voltarão contra as organizações da classe trabalhadora que se levantarem contra as reformas de Temer e outros ataques.

Maíra Machado

Professora da rede estadual em Santo André e militante do MRT

Felipe Guarnieri

Operador de trem da L1 azul do Metro de SP

quarta-feira 10 de maio| Edição do dia

A Operação Lava-Jato demonstra que seus interesses não são "imparciais" e "éticos" para combater a corrupção. Como o Esquerda Diário já vem denunciando seguem impunes as grandes empresas multinacionais e figuras importantes do regime político. É uma operação que favorece interesses de monopólios estrangeiros no país, a serviço de recompor o corroído regime político pela direita, substituindo um esquema de corrupção com a cara do PT, por um esquema com o rosto da direita.

O também autoritário e golpista Gilmar Mendes explicou um pouco dos métodos dos quais se vale a Lava-Jato, sobre as prisões preventivas: "Não teria charme nenhum […] esperar pela condenação em segundo grau para o sujeito cumprir a pena. Tudo isso faz parte também de um jogo retórico midiático." Ou seja, é uma operação que se vale do espetáculo midiático, da suposta legitimação da opinião pública para realizar prisões, escutas telefônicas, vazamentos, conduções coercitivas e outras práticas repressivas, mesmo que sem provas. As delações premiadas, conduções coercitivas e outros são métodos cotidianamente utilizados pelos órgãos repressivos para controlar a pobreza estrutural no país, e trazem rios de dinheiro ao judiciário beneficiando empresários doadores e políticos receptores de propinas. A mesma justiça que legitima esses privilégios, garante também que uma grande parte da população pobre e negra que está nas cadeias não tenha direito sequer a um julgamento.

Nesta quarta-feira o depoimento de Lula em Curitiba mostra mais uma vez como o golpe institucional abriu espaço para medidas mais autoritárias por parte do judiciário brasileiro. O sítio militar de Curitiba, milhares de policiais nas ruas, impedimento da chegada de ônibus e de protestos no entorno da Justiça Federal, reintegração de posse contra o MST, ou a suspensão sem nenhuma prova das atividades do Instituto Lula são exemplos taxativos do autoritarismo judiciário. Essas medidas hoje têm como alvo o PT e outras organizações que apoiaram os governos petistas, como o MST. Porém, o fortalecimento do potencial repressivo do Estado capitalista contra alguns atores do regime prepara um avanço muito mais duro contra todas as organizações da classe trabalhadora, e contra todos os trabalhadores que se levantem contra as reformas de Temer e outros ataques.

Isso porque a acentuação do caráter repressivo da Estado não ocorre por fora do conjuntura nacional e do que foi a mobilização da classe trabalhadora de duas semanas atrás, no dia 28 de abril. A maior paralisação em décadas mostrou que os trabalhadores brasileiros não aceitarão facilmente os ataques que os capitalistas querem impor. E é contra essa força que se voltará a escalada autoritária do judiciário, e por isso é necessário combatê-las profundamente.

O próprio PT se aliou com a direita para governar e aplicou ajustes contra os trabalhadores, abrindo o caminho para o golpe institucional e para o aumento da repressão com medidas como a Lei Anti Terrorismo, aprovada no governo Dilma. No momento do golpe, não mobilizaram nenhuma das bases de trabalhadores que a CUT dirige, não organizaram sequer uma paralisação. Agora, fazem um jogo duplo: buscam se manter como uma alternativa para a burguesia em 2018, enquanto utilizam toda repercussão da Lava Jato para demonstrar resistência.

Na última semana, no lançamento da revista Ideias de Esquerda, demonstramos como Lula e o PT sempre tiveram uma estratégia de conciliação com a patronal e preservação da institucionalidade burguesa. Desde sua origem sindical, a transição pactuada com a ditadura, o controle burocrático das greves contra as privatizações e a chegada ao poder. Lula e o PT traíram já em suas origens, se adaptaram ao Estado Burguês e governaram para os capitalistas, incorporando inclusive os métodos de corrupção da democracia burguesa.

O PT hoje critica a arbitrariedade do judiciário contra suas forças e não contra forças políticas como o PSDB, como se estas medidas fossem somente uma perseguição contra eles, "a esquerda", enquanto "a direita" sai ilesa. Porém todas as medidas do judiciário e da Lava Jato apontam para a construção de um situação nacional mais reacionária contra a classe trabalhadora. O Lula vem assumindo papel de vítima da Lava Jato para se localizar eleitoralmente frente 2018, contudo o próprio ex presidente já afirmou que é necessário a legitimidade das urnas para aplicar a reforma da previdência. Assim o PT quer transformar todas as mobilizações contra o Temer em uma forma de fortalecimento eleitoral do Lula, para tentar restabelecer sua estratégia de conciliação de classes para aplicar os mesmos ajustes, ou talvez um pouco mais brandos.

Para defender suas organizações sindicais, partidárias, imprensas e associações operárias, da truculência judiciária, os trabalhadores precisam se organizar-se ao redor de uma estratégica de enfrentamento com os capitalistas, de uma política de independência de classe contra qualquer variante patronal ou de conciliação de classes como são o PT e Lula, que busca legitimidade das urnas para aplicar os ajustes antipopulares à sua maneira.

Assim, se é certo que a classe trabalhadora não pode ter nenhuma confiança no judiciário golpista, tampouco pode depositar esperança na eleição de Lula em 2018 como saída para a crise e para derrotar os ataques. É necessário uma forte mobilização desde as bases para, primeiramente, derrotar com a força dos trabalhadores as reformas e o governo Temer, e também combater as medidas repressivas do judiciário, para avançar contra o regime político burguês de conjunto quando a situação permita (e não preservá-lo).

Como sintetizou Diana Assunção, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP e dirigente do MRT, "Somos contra e combatemos o golpe institucional que colocou Michel Temer no poder pra aprofundar e aumentar os ataques que o PT já vinha aplicando. Não defendemos o PT nem seus governos, ao contrário, combatemos sua política. Mas rechaçamos a tentativa de prisão de Lula, pois se trata do judiciário brasileiro e a Lava-Jato aumentar seu poder arbitrário pra avançar contra os trabalhadores e suas organizações".

Nós do Esquerda Diário viemos afirmando essa necessidade e convocando a organizar pela base milhares de trabalhadoras e trabalhadores em comitês nos locais de trabalho, para enfrentar as reformas e a direita de forma independente do PT. Exigimos das centras sindicais milhares de ônibus para realmente combater as reformas em Brasília nesse dia 24, mas também colocamos a necessidade de uma nova greve geral organizada a partir dos comitês até derrubar todas as reformas e o governo Temer.




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