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20 de Novembro: Dia da Consciência Negra

É preciso superar a subordinação ao PT para combater a direita racista e acabar com a separação entre luta de classes e combate ao racismo

Na última quinta-feira a Secretaria de Segurança Pública foi ocupada por manifestantes que exigiam o fim do genocídio à população negra pela Polícia Militar. Este importante ato de resistência aconteceu um dia antes da uma jornada de lutas convocada pela CUT contra os ataques do governo. No próximo dia 20 haverá a Marcha da Consciência Negra, organizada pela CUT e CTB, através da CONEN (PT) UNEGREO (PC do B/CTB) que tem como eixos Fora Temer e contra a PEC 241.

Daniel Alfonso

São Paulo

sexta-feira 18 de novembro| Edição do dia

Tem ficado cada vez mais evidente que o golpe institucional não foi um golpe contra o PT. Foi um golpe contra os trabalhadores, o povo negro, as mulheres, LGBTs e a juventude. O PT centra sua estratégia de “resistência” nas instituições que o condenaram, para poder seguir negociando e fazendo alianças com a mesma direita que encabeçou o golpe, tratando de acalmar os ânimos e preparar o terreno para as eleições de 2018. No mundo da política burguesa, todo pragmatismo é pouco. O PT, que estendeu o tapete vermelho para a direita, foi derrubado do poder pela mesma direita, finge combater o golpe.

A CUT, seguindo a lógica e orientação petista, não ofereceu resistência séria além de alguns lampejos aqui e ali. Mas há vontade de resistir aos ataques e com a pressão da onda de ocupações organizada pelos secundaristas e dado o nível do ataque que o governo quer passar, a CUT se viu obrigada a chamar atos nacionais contra o governo Temer e a PEC 241 na última sexta-feira. Este dia de lutas contra as medidas do governo foi imposto pela força da juventude, principalmente secundarista, que vem dando exemplo nacional e tem ajudado a politizar a situação nacional. E não serão uma resposta à altura enquanto a resistência estiver nas mãos da burocracia cutista.

O assassinato dos 5 jovens na zona leste é mais um exemplo da maneira como a polícia e os governos capitalistas buscam impor a “ordem”. A ordem do medo, do extermínio da juventude negra. É um ataque direto e precisa ser respondido. Por isso os atos dos dias 10 e 17 foram tão importantes.

Ao mesmo tempo em que assassinam jovens negros nas periferias, querem roubar o futuro da juventude negra e fazer com que a classe trabalhadora, e a população negra de maneira mais intensa, arquem com os custos da crise capitalista. A PEC 241, o projeto de reforma da Previdência, aos ataques aos direitos contidos na CLT atingem diretamente a população negra. Neste ano, a Marcha da Consciência Negra parte de levantar demandas essencialmente corretas que apontam no sentido de que o movimento negro se coloque a enfrentar os ataques de Temer, porém as centrais sindicais como a CUT e CTB, que estão à frente da convocatória da Marcha não falam uma linha sobre o PT mantendo a sua subordinação a este partido como fizeram em todos os anos anteriores.

Exigimos que rompam essa subordinação e organizem um plano de luta para barrar os ataques de Temer e que levantem como parte da suas reivindicações nas paralisações e atos nacionais o fim do genocídio da população negra ao contrário dos anos anteriores onde as direções da Marcha faziam desse dia um palanque de apoio a Dilma , Lula e o PT. Infelizmente, o chamado da Marcha não aponta uma estratégia e um programa anticapitalista que questione a estrutura sobre a qual o racismo se mantem e se reproduz historicamente.

Apesar dos vários aspectos que envolvem a formação do que conhecemos como Brasil estarem profundamente ligados às diversas maneiras de como a questão negra se expressa, a tradição no Brasil em relação à luta contra o racismo é separa-la da luta pelas reivindicações da classe trabalhadora, que em sua maioria é negra no Brasil. Lamentavelmente essa foi a trajetória deixada no movimento operário pelas direções anarquistas, stalinistas e petistas. Por que o Dia Nacional de Luta convocado pela CUT e pela CTB não defende nenhuma demanda explicitamente contra o racismo, em pleno Mês da Consciência Negra? Porque as burocracias sindicais são incapazes de lutar contra o racismo e têm mais medo da luta de classes e de tocar demandas explosivas que possam sair de seu próprio controle.

Por isso preferem separar as coisas e fazer um dia de ações controladas da classe trabalhadora e semanas depois falar de racismo apenas no 20 de novembro. Essa é a expressão cabal de que a burocracia sindical defende os interesses da burguesia também no combate ao racismo, pois nada mais funcional à classe dominante do que separar o combate ao racismo da luta de classes e tirar das mãos da classe trabalhadora essa bandeira.

Nossa tarefa é unificar as fileiras operárias, porque os trabalhadores são mais fortes quando estão juntos. Afinal, o mesmo governo que quer implementar a PEC 241 é o governo que extinguiu a secretaria de políticas de promoção racial, é o governo que apoia e legitima a ação da polícia assassina. A Marcha da Consciência Negra deve colocar em primeiro lugar a luta pela punição aos responsáveis pelo assassinato dos 5 jovens!

Os organismos de frente única da classe trabalhadora, como os sindicatos e comissões de fábricas, assim como os movimentos sociais, precisam lutar para impor uma investigação independente, punir os responsáveis e indenizar as famílias.

O assassinato dos 5 jovens (Jonathan Moreira Ferreira, de 18 anos; César Augusto Gomes Silva, de 19; Caique Henrique Machado Silva, 18; Robson Fernando Donato de Paula, 16, e Januário) foi um ato político da polícia e dos governos que assassinam jovens negros todos os dias, e ao deixar impunes assassinatos como o de Amarildo, Cláudia Ferreira, as chacinas como a do Carandiru, Corumbiara, e tantas outras, mantém a “ordem” e a “estabilidade” tão necessárias para que a burguesia mantenha seu domínio e preserve os pilares da sociedade capitalista.

A resposta precisa ser política e independente de todos que buscam conciliar os interesses dos trabalhadores e dos negros com os empresários e a direita, como faz o PT. Não podemos separar a luta contra o genocídio do povo negro da luta contra as medidas do governo, pois quanto mais forte for a luta contra a PEC 241 maiores serão as chances de punir os responsáveis.

O programa para que as mortes negras e as chacinas policiais terminem de uma vez por todas e para que esta instituição reacionária seja dissolvida precisa ser assumida pelos sindicatos. A tradição nefasta de separar a luta contra a opressão racial da luta sindical e política tem diversas consequências profundas na maneira como o conjunto da classe trabalhadora enxerga a luta contra os efeitos do sistema capitalista, como não denunciar com todas as forças o racismo como um dos pilares da dominação capitalista. Outra consequência de máxima importância é subestimar e enfraquecer a capacidade de resistência daqueles que lutam contra o racismo.

Impede que a luta contra a opressão racial ganhe o peso social que corresponde à opressão racista. Se no reino da política burguesa todo pragmatismo é pouco, na arena da luta de classes o convencimento político e a disposição de luta é elemento definidor. Imaginemos, por um instante, a força teria para o combate ao racismo se os sindicatos no Brasil organizassem os batalhões de nossa classe para fazer uma hora de paralisações pela país para repudiar o assassinato destes jovens negros tomando como exemplo a jornada do Niunaamenos na Argentina.

Nos países de passado escravista, a questão racial perpassa todos os aspectos da vida política, social, econômica e cultural. E a ordem nesses países se estabelece através da brutal repressão ao povo negro. Apesar disso, no Brasil as demandas da população negra não são incorporadas pelas organizações de frente única dos trabalhadores, e são tratadas de maneira fragmentada, inclusive pela própria esquerda. Essa é uma das raízes da desconfiança de amplos setores da população negra quanto em relação à esquerda. Frente aos ataques que estão sendo descarregados, aqui no Brasil e ao redor do mundo, é fundamental travar uma luta contra o racismo desde uma perspectiva anticapitalista.

A eleição de Trump nos Estados Unidos fortaleceu ainda mais as posições das organizações de defendem a supremacia branca, e assim abriu ainda mais terreno para ações racistas de todo tipo. Tanto nos EUA quanto no Brasil é fundamental resistir à altura. Se a burguesia se vale do Estado capitalista, da polícia, do regime político, da grande mídia para oprimir os negros e os latinos, os negros e os latinos precisam se valer cada vez mais da força social da classe trabalhadora da qual fazem parte para contra-atacar. Serão estes os mais combativos aos ataques de todo tipo, e com sua resolução serão capazes de atrair para a luta setores mais amplos da sociedade.

Nesse marco, achamos importante que a Marcha da Periferia, que está sendo organizada com um chamado em defesa das Reparações, deveria se colocar a tarefa de organizar um bloco dentro da Marcha da Consciência Negra para juntos fortalecermos uma posição independente do PT mas também de combate ao governo golpista de Temer, que seja capaz de influenciar os setores que estarão presentes no ato.

Consideramos que os companheiros do Quilombo Raça e Classe (dirigido pelo PSTU), que estão organizando a Marcha da Periferia, não deveriam se contentar em organizar marchas de vanguarda em seus próprios espaços, mas se colocarem a tarefa de apresentar um programa e uma estratégia para o combate ao racismo que apresente uma alternativa aos negros que irão na Marcha da Consciência Negra e não permitir que os negros que compareçam a esta marca fiquem reféns da burocracia sindical petista. Queremos fazer um chamado ao Quilombo Raça e Classe para que vá ao ato organizado pela CUT e a CTB para fortalecer uma posição antigovernista e a luta pela punição aos policiais assassinos, e junto conosco levantar em alto e bom som a exigência da retirada imediata das tropas brasileiras e imperialistas do Haiti.




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