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SEGUNDO TURNO

É preciso fortalecer uma alternativa anticapitalista e com independência de classe em Porto Alegre

Sebastião Melo (MDB) terminou o primeiro turno em Porto Alegre assumindo a liderança após conseguir capitalizar os votos de Fortunatti (PTB), contrariando as pesquisas de opinião que, mesmo na boca de urna, indicavam Manuela D'Ávila (PCdoB) com larga vantagem. No segundo turno o favorito reafirma sua política de direita e seu alinhamento com Bolsonaro e com o regime político golpista.

terça-feira 24 de novembro de 2020| Edição do dia

Foto: Poder360

No primeiro turno em Porto Alegre Manuela D’Ávila liderava as pesquisas, o que fez com que o bolsonarismo e a direita levassem à frente uma campanha de fake news e machismo contra a candidata do PCdoB, ataques absurdos e que repudiamos. Agora, no segundo turno, Manuela disputa a prefeitura com Sebastião Melo (MDB), que ficou em primeiro lugar ao conseguir capitalizar os votos de Fortunatti e de uma parte da direita. 

Melo já foi vice-prefeito em Porto Alegre e é um típico representante local do arranjo político do regime de 88, expressando também sua decadência. Concorre pelo MDB, o que significa que esteve junto a Bolsonaro e todo o golpismo para destruir os direitos da classe trabalhadora e impor mais autoritarismo, com reformas como as da previdência e trabalhista, além de outros ataques como o teto de gastos, a lei da terceirização irrestrita e as mais recentes MPs da fome, que cortam salários e direitos dos trabalhadores.

No RS o MDB de Melo deixou como principal marca da nefasta gestão de Sartori o atraso e parcelamento de salários, jogando na miséria os servidores do estado. Como resposta, ocorreram importantes processos da luta de classes, principalmente em 2015 e 2017, nos quais nós do Esquerda Diário e do MRT estivemos lado a lado aos trabalhadores nas ruas. Vale ressaltar que, nesses processos, uma forte repressão do governo do MDB foi imposta. Ele também buscou extinguir estatais como a Fundação Zoobotânica e a Fundação de Economia e Estatística, além de ter tentado privatizar a CEEE, a Sulgás e a CRM, sendo derrotado, naquele momento, pelos servidores e, particularmente, pelos professores, que paralisaram seu governo com uma greve massiva. O MDB no estado também foi responsável pela repressão de outros movimentos sociais, por violentos despejos de ocupações de moradia, por cortes na saúde e na educação e por aumento de impostos, sempre governando para proteger os lucros dos capitalistas. O legado do MDB no estado, com Sartori à frente, pode ser retomado mais amplamente aqui. Como deputado estadual Melo votou a favor da reforma da previdência no estado e também junto com Sartori em defesa da privatização das estatais gaúchas.

Agora Melo também buscar angariar mais votos da base bolsonarista ao dialogar com o negacionismo do presidente, prometendo abrir tudo sem se preocupar sobre como garantir condições sanitárias para isso. Nos debates no rádio e na TV, Melo dá peso ao tema da "segurança pública", em chave repressiva, buscando convencer também setores das tropas bolsonaristas e da direita mais tradicional de Porto Alegre. O candidato do MDB reafirmou que vai seguir os passos de Marchezan na tentativa de privatizar a Carris, mostrando que governará em defesa dos lucros dos empresários locais e da ATP. 

É por tudo isso que Melo, assim como foi Sartori e como é o MDB, é inimigo aberto da classe trabalhadora e dos setores oprimidos de Porto Alegre. Devemos, sim, combatê-lo desde já, preparando o enfrentamento contra ele, contra todo o golpismo e também contra o governo de Bolsonaro, Mourão e dos militares. Mas não poderemos fazer isso com a candidatura de conciliação de classes de Manuela D’Ávila e do PCdoB, um partido integrado ao regime político, que administrou os negócios capitalistas junto ao PT durante 13 anos, quando estavam no governo, fazendo acordos com o Centrão e com a bancada evangélica. Com a larga vantagem de Melo nas pesquisas do segundo turno, fruto de toda a direita ter se blocado em torno dele contra Manuela, muitos jovens, trabalhadores, mulheres, negros, LGBTs e outros setores veem em Manuela D’Ávila uma alternativa para derrotar a direita. Nós do MRT somos parte de quem quer derrotar essa direita nefasta, e compreendemos aqueles que desejam expressar seu repúdio a eles através do voto. Apesar disso, como viemos debatendo desde o primeiro turno, a candidatura de Manuela D’Ávila não aponta um caminho neste sentido, prometendo inclusive um "diálogo respeitoso" com Bolsonaro, caso seja eleita.

A prática de seu partido a nível nacional também demonstra isso. Seus votos a favor do perdão bilionário das dívidas das igrejas neste ano, em meio à pandemia, são a expressão mais recente de sua conciliação com os conservadores. Além disso, em todos os locais onde governa, o PCdoB não apresentou resistência aos ataques de Bolsonaro, com Flávio Dino, governador do Maranhão, inclusive assinando embaixo da reforma da previdência e aprovando sua própria reforma e outros ataques locais, reprimindo os trabalhadores que protestavam. O PCdoB também apoiou para a presidência da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM), responsável pela tramitação de todos os ataques contra a classe trabalhadora e o povo nos últimos anos. Nas eleições de 2020, as alianças do PCdoB mostram essa conjunção com direitistas e golpistas: segundo dados do próprio Tribunal Superior Eleitoral, em 70 municípios esse partido esteve coligado com o PSL no 1º turno destas eleições, com o DEM de Rodrigo Maia em 169 cidades, com o MDB de Melo em 194 cidades, com o PSC de Witzel em 84 cidades e com o PRTB de Mourão em 40 cidades. Sim, esse é o PCdoB de Manuela D’Ávila.

É por isso que em Porto Alegre Manuela recebe apoio no segundo turno de partidos burgueses. Um deles é o PDT, de Juliana Brizola, Tábata Amaral, e também do governador do Amapá Waldez Goés. Junto com Bolsonaro, ele é responsável pela situação de calamidade e desespero vivida pelos trabalhadores e pelo povo desse estado, com um apagão de energia elétrica causado pela política de privatizações. O PDT também garantiu 8 votos favoráveis à reforma da previdência a nível nacional. Outro partido que está apoiando Manuela é o PV de Montserrat Martins, que votou unanimemente pelo impeachment de Dilma Rousseff e também pela destruição dos direitos dos trabalhadores com a reforma trabalhista

A política do PCdoB, que busca seu próprio espaço como administrador do regime do golpe institucional, é incapaz apresentar uma alternativa para enfrentar a direita. O programa de Manuela em Porto Alegre aponta esse mesmo caminho de conciliação com os empresários. Como fizeram o PCdoB e o PT a nível nacional e seguem fazendo em todos os lugares onde governam, será um governo que respeitará religiosamente a Lei de Responsabilidade Fiscal, um mecanismo de asfixia do orçamento público para garantia do pagamento da dívida pública aos banqueiros internacionais.

É ilusório, portanto, seu discurso de mudança. Se a política do PCdoB, junto ao PT, quando estavam no governo, foi de conciliação com os capitalistas e algumas mínimas concessões aos trabalhadores e ao povo, garantidas por um ciclo de crescimento econômico, agora, em uma situação de aguda crise e em meio ao regime político golpista, essa política leva, inevitavelmente, a atacar os trabalhadores e o povo para garantir os interesses dos capitalistas. De forma alguma devemos entender, com isso, que Manuela e Melo são a mesma coisa, porque não são. Se trata aqui de dizer claramente que, se Melo é, desde já, inimigo dos trabalhadores e do povo de Porto Alegre, Manuela D’Ávila também não apresenta uma alternativa.

As organizações de esquerda e, particularmente, as correntes do PSOL como o MES, que fizeram campanha para a Melchionna, imediatamente se somaram de maneira ativa e acrítica à campanha de Manuela no segundo turno. No caso do MES, não é de espantar, já que até mesmo para o imperialista Biden esta organização chamou voto. O fato é que, com isso, abrem mão de apresentar qualquer caminho alternativo, sucumbindo ao "mal menor", que tem também como objetivo bloquear as possibilidades de surgimento de uma alternativa política independente, estreitando enormemente as perspectivas de setores que não confiam na política da candidata do PCdoB e do petismo. A campanha orgulhosa de correntes como MES, Resistência, Alicerce e de partidos como o PCB pela eleição de Manuela é a continuidade da sua adaptação ao regime político do golpe institucional, na medida em que não se enfrentam com ele. No caso do PSTU esse não enfrentamento, evidente desde 2016 com suas posições golpistas, mais uma vez se reafirma com seu apoio à Manuela. 

Veja também: Contra os ataques de Barros e Maia, lutemos por uma Constituinte Livre e Soberana

O exemplo mais significativo desta adaptação nessas eleições é a frente ampla com burgueses como o PDT e inclusive golpistas como a Rede e o PSB, inimigos dos trabalhadores e do povo, que Boulos leva à frente no segundo turno das eleições em São Paulo. Tal frente mostra um compromisso com empresários e uma moderação que é incapaz de levar a sério o combate contra o reacionário Covas-Doria do PSDB.

Nós do MRT e do Esquerda Diário em Porto Alegre estamos juntos a todos os trabalhadores e jovens que querem enfrentar nas ruas Melo e a herança maldita do MDB no Rio Grande do Sul, assim como o conjunto do regime do golpe institucional que representam e também o governo de extrema direita de Bolsonaro e toda sua base social reacionária. Mas não apoiamos candidatura de Manuela, não depositamos nossa confiança em seu projeto político através do voto e por isso votamos nulo neste segundo turno em Porto Alegre. Chamamos os setores do PSOL que defendem a necessidade da independência de classe, como o Bloco de Esquerda, que reivindica a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores da Argentina, a também se posicionarem nesse sentido.

Apontamos a necessidade de erguer em Porto Alegre e no país todo uma alternativa política de independência de classe, que não repita o caminho de conciliação com nossos inimigos trilhado pelo PT e pelo PCdoB, como vem fazendo o PSOL. Seguiremos lutando com todas as nossas forças para construir a mobilização independente da nossa classe e de todos os oprimidos para enfrentar e realmente derrotar Melo, Bolsonaro e todo o regime do golpe. Nesse caminho, batalhamos pela construção de uma organização revolucionária firmemente erguida sobre a independência de classe. Convocamos os trabalhadores e a juventude de Porto Alegre a serem parte dessas batalhas conosco.




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