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É possível lutar contra o sucateamento da arte sem lutar contra a prisão arbitrária de Lula?

Em assembleia na última terça-feira, mais de 130 estudantes do Instituto de Artes da Unicamp (IA) decidiram paralisar suas atividades contra os ataques à arte, por permanência estudantil, contra a continuidade do golpe e a prisão de Lula e por uma investigação independente no caso Marielle! Também exigindo da UNE e DCE que organizem um plano de luta contra os ataques dos golpistas e da reitoria.

Isadora de Lima Romera

estudante de artes visuais no IA-Unicamp

segunda-feira 16 de abril| Edição do dia

Na quinta (12), o dia de paralisação no Instituto de Artes foi preenchido de debates e atividades sobre o sucateamento da arte, os ataques à universidade pública como um todo se ligando à conjuntura nacional atual. Se tem uma coisa que ouvi dos estudantes, e que também pude compartilhar como estudante do curso de artes visuais, é a precariedade do nosso instituto. Um IA do improviso, em que os professores e funcionários não são suficientes para atender as demandas, sobrecarregando os que são hoje contratados e que seguem sem reposição salarial adequada, além disso a própria infraestrutura dos prédios e equipamentos são improvisados, há casos até de buracos no chão que são tapados com madeiras para que os estudantes possam ensaiar. O caso mais emblemático é o nosso teatro, uma demanda dos estudantes há décadas, que só começou a ser construído em 2011, mas que desde lá segue sem ser finalizado, sendo hoje um prédio alagado, servindo apenas aos mosquitos da dengue.

Uma das atividades do dia que mais chamou atenção foi a discussão sobre a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 293, pleiteada pela Procuradoria Geral da República (PGR) e colocada em pauta pela então ministra Cármen Lúcia, um projeto do STF que se utiliza da discussão da “liberdade da arte”, com objetivo de na verdade atacar o trabalho dos artistas, em consonância com a reforma trabalhista que ataca os direitos de toda a classe trabalhadora.

Além dessas discussões, também houve uma roda de conversa específica sobre a prisão de Lula, e diversas posições foram colocadas, aprofundando o debate na busca por entender porque o judiciário prendeu Lula, e o que significa o PT para os planos da burguesia de aprofundar os ataques à vida dos trabalhadores. O dia de paralisação teve fim com os estudantes fazendo uma nova Assembleia e decidindo paralisar as atividades no dia 16 para compor o ato em São Paulo contra essas medidas do STF em relação aos artistas.

Nós da Faísca defendemos como fundamental a discussão sobre a adpf 293, junto a defesa da imediata extinção da taxa para realizar o teste de capacitação dos artistas, que hoje é de cerca de 600 reais, além disso, acreditamos que se fortalece se colocamos junto ao repúdio dos ataques ao artistas, um ataque que está colocado hoje à toda população, que é a posição contundente contra a prisão arbitrária de Lula e o autoritarismo do judiciário, mas que infelizmente não foi deliberada em Assembleia, decidindo pela paralisação e ida ao ato em São Paulo levando apenas como pauta o ataque específico aos artistas. Diante disso, uma questão que tentamos expressar em cada um dos debates, ainda martela na nossa cabeça: É possível lutar contra o sucateamento da arte se hoje não lutarmos contra a prisão arbitrária de Lula?


O ataque aos artistas e prisão arbitrária de Lula

Veja em: Como a prisão arbitrária de Lula afeta os estudantes da Unicamp?

O que vemos hoje é que os ataques à arte, que já vinha sofrendo diversos cortes nos governos do PT, também se aprofundaram desde o golpe, é ameaça de fechar o Ministério da Cultura e de privatizar Teatros Municipais, corte de verbas, pixos e grafites cobertos de cinza, censura aos teatros de rua, exposições e museus, reforma do ensino médio querendo extinguir o ensino e debate de artes nas escolas, PEC do fim do mundo que congela investimento em educação e agora ainda há uma tentativa do STF quem tem interesses em retirar nossos direitos trabalhistas. Ou seja, aprofundar os ataques a arte parece ser uma questão elementar para os golpistas seguirem seus planos de precarizar ainda mais a vida e os direitos dos trabalhadores.

Talvez porque sejamos os que podem traduzir a realidade que vivemos hoje de distintas formas, seja na fotografia, na encenação, nos desenhos, na música, cinema. Podemos ser os que conseguem desvendar a realidade e despertar sentimentos que coloquem em questionamento os planos do golpismo hoje. A Paraíso do Tuiuti com seu enredo "Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?” é um grande exemplo disso, despertando uma enorme reprovação à Temer e a reforma trabalhista no carnava e questionando o racismo estrutural. Cada vez que produzimos livremente nossa arte, também questionamos o produtivismo e o controle da vida e do corpo no capitalismo.

O que quero aqui dizer, é que no momento em que já faz 2 anos do golpe institucional, que segue seu curso com um dos protagonistas mais fortes sendo o judiciário racista e autoritário, que ataca até mesmo o direito do povo poder decidir em quem quer votar, a liberdade da arte também corre perigo: Se sequestram até esse direito mínimo da democracia dos ricos e se sentem livres para tirar cada direito, dos poucos que temos nessa sociedade, o que não vão fazer com a arte?

Assim, defender que os artistas junto a defesa de cada demanda sua, também se posicionem contra essa medida autoritária, é fortalecer cada uma dessas questões, que só podem ganhar uma resposta de fundo com a nossa mobilização ligada aos trabalhadores e que defenda um programa para universidade e para a arte que possa enfrentar cada um desses ataques e lutar pela arte e educação que queremos. É isso também que fizemos em 2016, sendo o primeiro instituto da Unicamp a parar não só por nossas demandas, mas também porque naquele momento defender nossas pautas passava por nos posicionar com muita força contra o golpe.

Na universidade, queremos impor que se abram as contas, para assim decidirmos de onde deve sair o dinheiro para a construção do nosso teatro e da infraestrutura que precisamos, para a contração e o reajuste salarial de funcionários e professores e para permanência estudantil a todos que precisam, defendemos também que as decisões da universidade devem ser tomadas por estudantes, funcionários e professores de acordo com seu peso real e não como é hoje, em que poucos privilegiados do Consu tomam as decisões que interferem nas nossas vidas. Também acreditamos que o filtro social do vestibular deve acabar, abrindo as portas da universidade à toda a juventude, e colocando a produção da ciência, tecnologia e da arte à serviço da população e não dos lucros dos empresários como é hoje.

Não podemos acreditar, assim como mostrou o PT não resistindo nem à prisão de Lula, que nada pode ser feito a não ser esperar as eleições em outubro deste ano. Não concordamos com grande parte da esquerda do PSOL e também o PCB/UJC, que agora é hora de deixar as diferenças de lado e fazer unidade por um programa mínimo. A unidade que defendemos é a unidade dos estudantes e trabalhadores que lutam e se mobilizam contra os golpistas, como foi os professores municipais de SP, e não a unidade de parlamentares em cima do palanque preparando as eleições, como vimos em São Bernardo. Um programa mínimo, como é o da plataforma Vamos e de Boulos, é incapaz de responder ao que reivindicamos. Se hoje o Estado gasta quase 40% do orçamento federal só enchendo os bolsos dos banqueiros com o pagamento da dívida pública, como vamos ter investimentos em saúde, educação, transporte, e na arte se não enfrentarmos esse mecanismo?

Também não podemos ter nenhuma confiança na justiça da lava-jato, que se utiliza de métodos arbitrários, abrindo um precedente para que esses métodos sejam ainda mais usados contra os negros, a população pobre, os trabalhadores, a esquerda, e também os artistas, como infelizmente tem o Juntos/Mês, que se posiciona timidamente contra a prisão de Lula, inclusive defendendo que os estudantes não deveriam paralisar por esse motivo, seguindo cegos na confiança nessa justiça burguesa.

Precisamos de um entidades estudantis que queiram não o “programa mínimo”, nem que tenha ilusão nenhuma na justiça e nas instituições burguesas, mas que ouse imaginar que os estudantes do IA, assim como foram em 2016, sejam a faísca para que outros estudantes da Unicamp vejam a enorme ligação entre a continuidade do golpe, que avança sobre os direitos democráticos mais elementares, e cada demanda sentida aqui dentro da universidade. E possa avançar para que cada um não só veja isso, mas que tome as rédeas da política nas suas mãos com um programa que realmente possa responder à crise capitalista que hoje os golpistas tentam descarregar nas nossas costas.




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