Mundo Operário

GM: PROPOSTA DE ACORDO SUSPENDE DEMISSÕES

É possível ir por mais na greve da GM?

Pablito Santos

Trabalhador do bandejão da USP e membro da Secretaria de Negras, Negros e Combate ao Racismo, do Sintusp

segunda-feira 24 de agosto de 2015| Edição do dia

Na reunião de conciliação no TRT da 15ª região na última sexta-feira, 21, a patronal apresentou uma proposta que adia as 798 demissões e coloca em layoff os mesmo 798 até então demitidos. Com o término da suspensão dos contratos não haverá estabilidade. Durante esse período se abrirá um novo PDV com abono de 4 salários nominais. A empresa, em comunicado oficial, deixa claro que a intenção é eliminar esses 798 postos de trabalho ao final do layoff e que ainda assim não resolveria o problema da mão de obra excedente na planta.

A proposta de saída negociada por via do layoff foi feita pela própria direção do sindicato e já é a terceira suspensão de contrato desde agosto do ano passado quando iniciou o embate pela manutenção destes postos de trabalho. O sindicato abriu mão da estabilidade em troca do aumento da proposta de abono da empresa, que passou de 3 para 4 salários nominais.

A planta de São José dos Campos reduziu seus postos de trabalho de cerca de 8 mil trabalhadores para 5,2 mil nos últimos três anos, mostrando que a intenção de demitir da patronal, apesar da resistência dos trabalhadores e do sindicato, já vem avançando no último período e o desfecho desse conflito pode ser chave para a inversão da correlação de forças.

A estratégia da empresa até agora foi de ameaçar para conquistar a suspensão de contratos através do layoff e tem virado moeda de troca do sindicato para segurar as demissões. Mas agora, sem a estabilidade e com a intenção declarada da empresa de impor a derrota daqui a 5 meses.

A força da greve até aqui nos coloca a questão de se é possível avançar mais

A greve começou contra as demissões arbitrárias da montadora norte-americana por telegrama em pleno final de semana do dia dos pais. Os trabalhadores prontamente atenderam ao chamado do sindicato e na segunda-feira, 10 de agosto, começaram uma forte greve com grande adesão em assembleia com cerca de 4 mil trabalhadores, dos 5,2 mil hoje empregados.

A greve cresceu em força ao longo da primeira semana, a adesão entre os trabalhadores foi aumentando. A patronal tentou uma manobra contra a greve, quando pediam que trabalhadores contrários à greve fossem pra assembleia vestidos de branco, e o tiro acertou o pé, aumentando a combatividade e unidade dos operários.

Diferentemente da greve de março, que foi feita dentro da fábrica, esta greve contou com piquetes permanentes em todas as portarias, impedindo a saída e entrada de qualquer pessoa e também de veículos que estavam no pátio.

A greve ocorreu em um momento de grande crise econômica e política que atravessa todo o país e coloca no centro das tarefas da classe trabalhadora a luta pelo emprego como forma de entrar em cena na batalha por suas demandas. Em épocas de ataque do governo Dilma e do PT, com ajustes, o Programa de Proteção ao Emprego, que na realidade visa defender o lucro das empresas, os operários da GM mostraram o caminho para a construção de um grande polo de luta da classe trabalhadora para sair às ruas como uma terceira via frente à polarização entre direita e PT.

A greve ainda atraiu apoio de diversas entidades sindicais da região e de todo o país, como se mostrou no ato realizado na sexta-feira, dia 14. Mulheres e familiares dos trabalhadores estiveram presentes nas assembleias defendendo os empregos e lutando para que nenhuma família ficasse nas ruas em momentos de crise econômica.

Com toda essa combatividade dos trabalhadores, a formação de uma importante vanguarda em torno à manutenção dos piquetes e atos como o que ocorreu em São José dos Campos, fechando a Dutra, e os atos em Campinas durante as negociações no TRT 15, o conflito conseguiu uma proposta de suspender as demissões. A própria direção do sindicato reconhece que essa greve é a mais forte em muito tempo. Há um ativismo garantindo os piquetes 24 horas fechando todas as portarias da empresa, com resistência dos trabalhadores em relação à polícia e o oficial de justiça. Os trabalhadores expulsaram os chefes das assembleias e fecharam a Dutra.

A disposição de luta dos trabalhadores da GM serviu pra ampliar a luta em defesa do emprego em outras montadoras na última semana, como foi o caso da greve na Volks de Taubaté e o início da luta na Mercedes do ABC, ambos levando solidariedade nas assembleias da GM. O cenário mostrou que há disposição de luta em defesa do emprego e dos direitos.

Sabemos que a proposta de acordo ainda é desfavorável aos trabalhadores, já que deixam a certeza das demissões para um futuro breve. Neste cenário não seria interessante uma intensa discussão na próxima assembleia de avaliação do conflito com todos os trabalhadores e a avaliação da possibilidade de seguir a luta?

A própria direção do sindicato, ligado à CSP-Conlutas, majoritariamente dirigida pelo PSTU, chamou ainda à necessidade da construção de uma greve geral no país contra os ataques do governo aos trabalhadores, pois diziam haver disposição para construir esse combate nacional. Mas a pergunta é: se há disposição para a greve geral, a luta da GM não teria fôlego para barrar as demissões de uma vez por todas? Aceitar esse acordo não seria desaproveitar as condições para derrotar a GM e barrar as demissões, evitando que sejam mais um acordo como os que levaram à perda de 3 mil empregos nos últimos três anos?

Se os trabalhadores enxergarem a necessidade de ir por mais na assembleia de segunda-feira, seria necessária a mais ampla solidariedade de todos os sindicatos, centrais sindicais, partidos de esquerda e os parlamentares do PSOL, para levar a greve da GM à vitória categórica. Nós, que viemos apoiando ativamente, enviando delegações e através do Esquerda Diário, faremos nossa parte intensificando o apoio.

A disposição dos operários, das famílias e até paralisação solidária na Revap mostrou que a direção do sindicato poderia aprofundar um plano de luta que buscasse mais força nas demais fábricas e numa ampla rede de solidariedade impulsionada pelos sindicatos da CSP com propostas de coordenação com a Intersindical e demais sindicados exigindo o apoio real da CUT e demais centrais que também enfrentam ameaças de demissões. Se a GM vence, seria um grande exemplo contra a CUT e a Força Sindical que negociam o PPE e demissões.

A CSP-Conlutas pode chamar uma campanha nacional em defesa dos empregos na GM, como ponto de partida para a criação de um polo nacional dos trabalhadores, antigovernista, que defenda o emprego e os direitos, que barre os ajustes e que apresente uma alternativa política dos trabalhadores frente à crise política.




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