Política

É hora de fortalecer a campanha Fora Bolsonaro e Mourão!

O vice-presidente general Mourão publicou um artigo no dia de ontem no Estadão que dividiu opiniões. Um efeito inoportuno para um artigo que se declarava ir contra a polarização. Porém, a contradição parte do próprio artigo, que pode ser resumido numa imagem: um árbitro parcial que diante da briga de dois atletas escolhe mostrar o cartão amarelo só para um dos brigões.

sexta-feira 15 de maio| Edição do dia

Ao enumerar os quatro pontos que, na opinião do general, provocam o “estrago institucional” atual, Mourão começou justamente pela polarização:

“O primeiro é a polarização que tomou conta de nossa sociedade, outra praga destes dias que tem muitos lados, pois se radicaliza por tudo, a começar pela opinião, que no Brasil corre o risco de ser judicializada, sempre pelo mesmo viés.”

Em nome do combate a polarização, Mourão se dirige a seus dois primeiros interlocutores. As primeiras instituições confrontadas são: Judiciário e a Imprensa. Um primeiro golpe sutil aos excessos do judiciário - que prosseguirão de forma mais aberta - criticando o risco de judicialização até das opiniões. No mesmo parágrafo o vice-presidente segue na crítica agora da imprensa, fazendo coro com o bolsonarismo em relação a uma suposta perseguição e imparcialidade frente a Bolsonaro. No ponto seguinte, Mourão ergue a voz, dando nome aos bois: “O segundo ponto é a degradação do conhecimento político por quem deveria usá-lo de maneira responsável, governadores, magistrados e legisladores”.

Nota-se que nessa lista de acusados pela degradação da institucionalidade, falta um boi, ou melhor o gado inteiro. Só existe polarização se há dois pólos. Do outro lado está o grande ausente do artigo de Mourão. Em se tratando de agressões a institucionalidade, apenas nas últimas semanas o presidente teria um longo histórico a oferecer - de carreatas da morte chamando ao fechamento do Congresso e do STF a organização de um churrasco em meio a 10 mil mortes pela crise sanitária. Isso não são apontados como “estragos institucionais”. Em plena crise sanitária, Bolsonaro terá de nomear seu 3º ministro da saúde, com a recente renúncia do ministro fantoche Nelson Teich, mostra da instabilidade política que o próprio Bolsonaro deflagra.

Ainda assim, dentro da atual oposição ao governo, que engloba toda a frente ampla de governadores, magistrados, mídia e legisladores citados houve quem comemorasse o artigo como uma disposição ao diálogo. Como vemos em matéria do Estadão comentando a repercussão: “O texto de Mourão sobre a polarização do País foi interpretado por alguns como uma autocrítica, já que, no diagnóstico do vice-presidente, todos os protagonistas da crise se tornaram ‘incapazes do essencial para enfrentar qualquer problema: sentar à mesa, conversar e debater’”. Uma interpretação bem representativa daqueles que agressão após agressão do bolsonarismo se ajoelham diante dos generais palacianos suplicando a espera de compromissos com a democracia e da tutela de Bolsonaro.

Essa é precisamente a posição que os generais desejam estar, como árbitros do jogo, sendo requisitados a intervir. Mas como Mourão prossegue deixando claro, para que intervenham querem contar com plenos poderes, não admitindo as recentes limitações do judiciário aos poderes executivos. Ou que os entes federados, nas figuras dos governadores, que tenham o poder de decisão, em relação, por exemplo, às medidas de isolamento. Nesse terceiro ponto, da “ usurpação das prerrogativas do Poder Executivo”, coube até uma mensagem direta a um ex-aliado, na crítica a “juízes de todas as instâncias e de procuradores, que, sem deterem mandatos de autoridade executiva, intentam exercê-la”. Como não associar a figura de Moro, ex-juiz de primeira instância, que virou protagonista da política, junto a outros procuradores, através da Lava Jato.

A atual conjuntura traz esse fato novo, do divórcio em blocos rivais dos militares e do judiciário. Num artigo que trata dos “estragos institucionais”, nenhuma menção ao maior ato recente de degradação do regime - o golpe institucional -, como não poderia ser diferente vindo de uma das principais figuras golpistas das Forças Armadas, que apoiou esse rasgo maior do regime contra a classe trabalhadora em nome de implementar as contrarreformas da burguesia de forma mais acelerada que o PT vinha sendo capaz. Mourão passou a reserva justamente quando em meio a conjuntura do impeachment conclamou os oficiais da reserva para o “despertar de uma luta patriótica”. Aliás, Mourão se despediu do exército saudando o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador e ídolo comum entre ele e Bolsonaro.

Mas esses eram os tempos do Mourão “faca na caveira”, para resgatar a expressão de um dos filhos presidenciais, que aconselhou ao pai escolher um vice que botasse medo na oposição e não fizesse cogitar o impeachment. De lá para cá, em face ao abjeto negacionismo de Bolsonaro que passeia de jet ski em meio às dezenas de milhares de mortes pelo coronavírus ou tantos outros episódios, Mourão tornou-se palatável. Como mostram outras das recepções ao artigo: como a do senador Randolfe Rodrigues, “É uma sinalização que mostra que ele está preparado em, sendo o caso, construir no País um governo de transição”; ou de Joice Hasselman, “Espero que possa, em breve, fazer diferente de Bolsonaro”. Declarações que fazem coro com a fala anterior de Flavio Dino sobre a perspectiva de um governo Mourão: “Brasil chegará em 2022 em melhores condições”.

Nenhuma surpresa com a postura de Hasselman, bolsonarista entusiasta até virar alvo do gabinete do ódio, de encontrar em Mourão uma alternativa. Mas só mesmo os setores iludidos que se agarram a interpretação de chamado ao diálogo do artigo, para ver em Mourão um mal menor. Ignoram todas as outras mensagens explícitas de Mourão, colocando as tarefas preparatórias que os militares atuam para ter no momento. Em momento nenhum Mourão na figura de nosso árbitro se coloca prestes a trocar de uniforme e entrar de vez no jogo. O que ele declara com toda as letras é a defesa dos poderes do Executivo, já cada vez mais nas mãos dele e seus colegas militares, como o general Braga Neto, Ministro da Casa Civil a frente do gabinete de crise. Essa é a tarefa preparatória máxima atual para os militares, preservar os poderes do Executivo e suas posições para os futuros cenários de revolta social frente ao caos social e econômico que se anuncia. E o que ele declara nas entrelinhas, é o reforço ao compromisso tático atual com o bolsonarismo, ao resguardar Bolsonaro de qualquer crítica.

Uma saída que agite apenas o Fora Bolsonaro, passa ao largo de combater essa preparação dos militares e de reconhecer as posições que eles já ocupam. É preciso agitar o Fora Bolsonaro e Mourão, combatendo o fortalecimento político sem precedentes que os militares tiveram no regime desde a transição da Ditadura. Da mesma forma que não podemos ter nenhuma ilusão que os governadores, que recorreram ao STF contra a ação por uma fila única dos sistemas de saúde público e privado, uma medida mínima para evitar a morte de pessoas pela falta de leitos e respiradores, são algum tipo de alternativa para a crise.

À essa consigna do Fora Bolsonaro e Mourão nos somamos identificando nela um pólo de independência de classe necessário para fazer avançar uma alternativa para que o povo possa decidir. Uma alternativa que impulsione através de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana também um programa de emergência para a crise sanitária e econômica, em que os trabalhadores dos serviços essenciais tenham garantido o acesso a EPI’s, leitos e a realização de testes massivos para orientar as quarentenas, por um sistema único de saúde sob controle dos trabalhadores; pela liberação remunerada dos trabalhadores das atividades não essenciais, a proibição das demissões; e um auxílio emergencial de R$ 2 mil, além da reconversão industrial daqueles setores que nesse momento poderiam estar produzindo insumos e equipamentos para salvar vidas. Por um programa dos trabalhadores, em que não sejamos nós a pagar com nossas vidas pela crise.




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