Teoria

E depois disso? por Rosa Luxemburgo

Publicamos aqui o texto “E depois disso?” de Rosa Luxemburgo, escrito em março de 1910 (“Was weiter?”, Dortmunder Arbeiterzeitung, números 61 e 62 de março de 1910) Tradução feito por Luciana Vizotto.

segunda-feira 29 de junho| Edição do dia

I

A questão do direito ao voto na Prússia, que por mais de meio século permaneceu latente, é hoje o ponto nevrálgico da vida pública alemã. Algumas semanas de uma ação enérgica de massas do proletariado bastaram para remover o velho pântano que representa a reação prussiana e para que uma fresca brisa soprasse na vida política de toda a Alemanha. A reforma eleitoral prussiana não pode, de nenhuma maneira, solucionar-se por meios parlamentares; somente uma imediata ação de massas pode provocar na cena política as transformações desejadas e este reconhecimento é hoje mais vivo e firme que nunca, depois das primeiras experiências com as manifestações de rua, por um lado, e o ocorrido na comissão de direito eleitoral da câmara prussiana, por outro.

Se as últimas e impressionantes manifestações de rua significaram, por si mesmas, uma satisfatória inovação nas formas de luta externas à socialdemocracia, e ao mesmo tempo iniciaram com muita potência a luta de massas pelo direito ao voto na Prússia, elas impõem, por sua vez, ao partido, de cuja iniciativa e direção nascem, determinados deveres. Nosso partido, dado o movimento de massas por ele produzido, deve ter um plano claro e preciso de como prosseguir dirigindo a ação de massas iniciada. As demonstrações de rua, como as demonstrações militares, são comumente o início da luta. Existem casos nos quais as demonstrações alcançam seu objetivo somente intimidando o inimigo. Mas ainda sem levar em conta a indubitável realidade de que o inimigo, neste caso, a aliança reacionária dos junkers e da grande burguesia monárquica da Prússia alemã, não está de nenhuma maneira disposto a baixar as bandeiras diante das manifestações de rua das massas populares, as demonstrações podem unicamente exercer uma pressão eficaz quando por trás delas está a firme determinação e disposição de enfrentar, caso necessário, meios mais contundentes de luta. E para isto se necessita, antes de tudo, clareza naquilo que queremos realizar no momento em que as demonstrações de rua se mostrem insuficientes para a realização de seu objetivo direto.

A experiência do partido já demonstrou até agora a necessidade de uma total clareza e determinação neste aspecto. Já há dois anos realizamos as primeiras tentativas de demonstração nas ruas na Prússia. E desde aquele momento, as massas evidenciaram estar à altura da situação, apoiando entusiasticamente a convocatória da social-democracia. Um fresco sopro, uma esperança de novas e mais eficientes formas de luta, uma determinação de não retroceder diante de nenhum sacrifício e de nenhuma intimidação se manifestaram claramente nas exaltadas massas. E qual foi o resultado final? O partido não deu nenhuma nova consigna, a ação não foi estendida nem continuada: pelo contrário, as massas foram contidas, a irritação geral decaiu rapidamente e tudo deu em nada. E depois disso?

Este primeiro experimento deveria ser para nosso partido uma pauta e uma advertência de que as manifestações massivas têm sua própria lógica e sua psicologia, com as quais devem contar, como preceito obrigatório, os políticos que queiram dirigi-las. As demonstrações da vontade das massas na luta política não podem ser mantidas artificialmente de uma mesma forma por tempo indefinido, e serem classificadas de uma mesma forma. Devem crescer, se agudizar, ganhar formas novas e mais eficientes. A ação de massas iniciada deve se desenvolver. E se a decisão de oferecer às massas as consignas necessárias no momento oportuno se quebra na direção do partido, então se apodera delas invariavelmente certa frustração, o ímpeto desaparece e a ação, em si mesma, decai.

Uma pequena mas clara advertência neste sentido obtivemos já no começo da atual campanha. Quando a direção do partido organizou em janeiro aquelas 62 assembleias em Berlim, com a intenção de não vinculá-las na realidade a nenhuma das demonstrações de rua, ficamos desiludidos. Hoje sabemos que, apesar da agitação feita, essas assembleias estavam pouco cheias; e já em 13 de fevereiro, quando as manifestações de rua foram planejadas de antemão, as massas seguiram seguras, em incontáveis ondas, o chamamento do partido. Está claro que seguir pontualmente uma lógica que vai de assembleias sem demonstrações de rua a assembleias com demonstrações de rua, e assim sucessivamente, não pode se realizar na prática. As massas proletárias de Berlim e da maioria dos grandes centros industriais da Prússia já estão tão agitadas pela social-democracia que a simples forma de assembleia de protesto contra a injustiça em relação ao direito de voto, com sua habitual aceitação de resoluções, já não adianta. As demonstrações de rua representam hoje a menor das ações que dão conta do impulso mobilizador das massas inflamadas e da cansativa situação política.

Porém, por quanto tempo mais? Teríamos que ter pouca sensibilidade com a vida espiritual das massas partidárias no país para não ver claramente que as manifestações de rua, depois de seus primeiros impulsos nas últimas semanas, desatam, por sua lógica interna, uma disposição nas massas e ao mesmo tempo criam objetivamente uma situação no campo de luta que as sobrecarregam e que a curto ou médio prazo necessitará infalivelmente de outros caminhos e meios mais contundentes.

O que ocorreu na comissão de direitos ao voto, assim como na sessão da plenária do Parlamento prussiano; O fato de que até o mais demagógico de todos os partidos, o Partido do Centro, baseando-se na aliança com os junkers, permitiu que se aniquilasse toda a esperança em uma ponderada reforma do direito ao voto; e isso como resposta às grandiosas demonstrações em toda a Prússia: tudo é uma bofetada na cara das massas mobilizadas e da social-democracia que as dirige, um golpe que de nenhuma maneira pode ficar sem resposta. Uma vez que a luta aberta tenha se estabelecido, deve prosseguir, golpe por golpe, de acordo com a firme e inevitável lógica da luta mesma. Uma vez que a reação tenha liquidado as demonstrações de massas, ao invalidar o projeto do direito ao voto na comissão e na sessão da plenária, a massa deve, sob a direção da social-democracia, recuperar aquela perda com um novo avanço. Numa situação como a atual, uma larga demora, pausas muito espaçadas entre os distintos atos de luta, e insegurança na escolha dos meios e na estratégia para a continuidade da luta significam quase tanto quanto uma batalha perdida. É necessário deixar o inimigo acuado e não deixar que se iluda de que não nos atreveríamos a ir além do que já fomos ou que tenha nos faltado a coragem de encarar as consequências. Em contrapartida, assim que as demonstrações de rua não servirem mais para satisfazer a necessidade psicológica da disposição de luta e do enfurecimento das massas, e se a social-democracia não der firmemente um passo adiante, se deixar passar o momento político oportuno para suscitar uma nova reivindicação, dificilmente conseguirá manter as demonstrações de força nas ruas por um longo período; haverá, por fim, um recuo das ações e, como há dois anos, escorrerá como água na areia. Esta mesma experiência se confirma nos exemplos análogos de luta na Bélgica, na Áustria-Hungria, na Rússia, que assim mesmo mostravam um inevitável crescimento, um desenvolvimento da ação de massas, e onde somente graças a este desenvolvimento obtiveram um efeito político.

Outra circunstância também nos serve para oferecermos um claro indício de que, para a social-democracia, as manifestações de rua isoladas passarão rapidamente a ser um meio superado em meio aos acontecimentos. Se até os democratas burgueses, esquerdistas livres da burguesia, realizam hoje demonstrações de rua! Evidentemente a coragem desses políticos abandonados provém, como é fácil advertir, da iniciativa da social-democracia e, evidentemente, as assembleias e manifestações de rua realizadas por esses oficiais da reserva sem exército se completam, em sua maior parte e quase exclusivamente, pela massa trabalhadora social-democrata. O fato de que as manifestações de rua tenham chegado a ser uma forma política de luta e uma necessidade da burguesia democrática basta para mostrar a impossibilidade de que continuem sendo uma forma de luta suficiente para as necessidades da frente de esquerda da social-democracia. Sua missão de impulsionar todos os setores opositores às classes possuidoras pode ser válida também neste caso para a social-democracia sempre e quando, pela decisão com que leva adiante as reivindicações, esteja à frente da ação daquele grupo, que sempre se antecipou, indicando-lhes o caminho. Se as demonstrações de rua são também uma forma de luta para os Breitscheid, Liszt e companhia, já está na hora da social-democracia pensar em qual deve ser sua próxima tática de luta.

É assim que o partido se enfrenta por todos os lados com a pergunta: e depois disso? Dado que a última assembleia do partido na Prússia se desviou do caminho, lamentavelmente de uma forma mais enigmática que política, é urgente buscar uma resposta a essa pergunta através de uma discussão na imprensa e nas assembleias. É a própria base dos camaradas do partido que deve ponderar e resolver o que deve ser feito. Somente então, e unicamente como expressão da vontade das massas do partido, nossa tática futura de luta também pode ter a pressão necessária e a capacidade mobilizadora.

II

Uma série de resoluções e expressões da massa trabalhadora social-democrata em distintas regionais de nosso movimento já deu a resposta. Em Halle, em Bremen, em Breslau, na agitada região de Hessen-Nassau, em Königsberg, os camaradas expressaram vivamente a forma de luta cuja aplicação, nas atuais lutas de massas, se impõe por si só ao partido, e esta forma é a greve de massas.

Já há cinco anos, no Congresso Partidário de Jena, nosso partido aprovou uma resolução formal que proclama a greve política de massas como um meio de luta aplicável também na Alemanha. Como é natural, aquela resolução foi concebida principalmente como uma medida de defesa, diante da eventual necessidade de proteger o já existente direito ao voto parlamentar. É claro que, na luta atual, e em relação ao íntimo encadeamento da política interna da Prússia com a política do império, com as recentes provocações e ameaças estáveis dos junkers ao Parlamento e a toda a situação em seu conjunto, precisamos lutar não somente pelo direito ao voto prussiano, mas também, e em primeiro lugar, pelo direito ao voto parlamentar. Se os junkers e seus partidários obtêm desta vez uma vitória sobre os trabalhadores em relação ao direito ao voto prussiano, é indubitável que se encorajem a tal ponto que, em determinado momento, pretenderão expulsar também o odiado direito ao voto parlamentar. E ao contrário, um forte e exitoso avanço das massas em relação ao direito de voto prussiano representará sem dúvida a melhor e mais segura cobertura para o direito ao voto parlamentar.

Em favor da utilização da greve de massas na atual campanha, é mais expressivo o fato de que se trata de uma ação de massas já iniciada e cada vez mais estendida que o fato de seu natural e inevitável crescimento, o qual de certa forma ocorre por si mesmo. Uma greve de massas “pré-fabricada” por uma simples resolução de partido, emitida em uma boa manhã com um tiro de espingarda, é simplesmente uma fantasia pueril, uma quimera anarquista. Mas uma greve de massas que seja produto de demonstrações imponentes de massas de trabalhadores, com vários meses de duração e que vá crescendo até colocar um partido de três milhões diante do dilema de avançar a qualquer custo ou deixar a ação de massas iniciada morrer; uma greve de massas de tais características, filha da necessidade interna da decisão das massas que despertaram e, ao mesmo tempo, da situação política agudizada, carrega em si mesma sua justificação e ao mesmo tempo a garantia de sua eficácia.

Evidentemente, a greve de massas não é capaz de fazer milagres, não assegura o êxito em qualquer circunstância. Sobretudo, a greve de massas não deve ser contemplada como o único meio mecanicamente utilizável para a pressão política, que pode ser empregado artificiosa e assepticamente, segundo uma receita pré-estabelecida. A greve de massas não é mais do que a forma exterior da ação, que tem seu desenvolvimento interno, sua lógica, sua agudização, suas consequências, em íntima relação com a situação política e com seu desenvolvimento ulterior. A greve de massas, particularmente como uma curta e única greve demonstrativa, não é decerto a última palavra da campanha política iniciada. Mas sim é, ao invés disso, no atual estado de coisas, sua palavra inicial. E se ela tornar impossível planificar com lápis e papel o desenvolvimento posterior, os êxitos imediatos, os custos e sacrifícios de tal campanha, como se se tratasse da contabilidade dos custos de uma operação na bolsa de valores, não por isso deixará de haver situações nas quais o dever político de um partido, dirigente de milhões, é apresentar com decisão aquela consigna que é a única que permite impulsionar a luta, por ele iniciada, adiante.

Em um partido como o alemão – no qual o princípio da organização e o exemplo da disciplina de partido tem tamanha importância, onde portanto a iniciativa das massas populares não organizadas, sua capacidade de ação espontânea, por assim dizer, improvisada (que é um fator tão importante até o presente, frequentemente decisivo em todas as lutas políticas de grande envergadura) estão quase excluídas – é a ele que corresponde o iniludível dever de demonstrar o valor de uma organização e de uma disciplina tão desenvolvidas, e sua utilidade não só para as eleições parlamentares mas também para outras formas de luta. Trata-se de decidir se a social-democracia alemã, que se apoia na mais forte organização sindical e no maior exército de eleitores do mundo, pode implementar uma ação de massas que na pequena Bélgica, na Itália, na Áustria-Hungria, na Suécia (da Rússia, nem se fale) foi conquistada com êxito em distintas épocas; ou se, na Alemanha, uma organização sindical que conta com dois milhões de integrantes e um forte e bem disciplinado partido não pode dar a luz, no momento oportuno, a uma ação de massas efetiva tal como ocorre com os sindicatos franceses, paralisados pela confusão anarquista e pelas lutas internas do debilitado partido francês.

No entanto, é evidente que uma ação do carácter e da significação das greves de massas não pode ser feita pelo partido sem os sindicatos. Unicamente através de uma ação solidária e mancomunada com os dois braços organizativos essa enorme ação pode ser desatada em todo o país, como é a que se produz na Alemanha. Do ponto de vista sindical, levam-se em conta unicamente alguns pontos. Por um lado, a região carbonífera ocidental se encontra há muito tempo em uma forte efervescência e se prepara para uma grande luta econômica. Por outro lado, em distintas ramificações da produção, por exemplo, na construção, as condições estão tão limítrofes que os empresários esperam somente um pretexto adequado para iniciar demissões em massa em suas fábricas. Numa primeira observação, estas duas condições podem parecer um motivo pouco adequado para realizar uma greve política de massas do ponto de vista sindical. Mas unicamente numa primeira observação. Visto mais amplamente, o fato de que uma greve massiva de grande envergadura nas minas de carvão convirja com um movimento político de greve só pode ser proveitoso para ambos. Em todo grande movimento de massas do proletariado confluem numerosos momentos políticos e econômicos, e desconectá-los artificialmente, querer de forma pedante mantê-los separados, seria uma empreitada inútil e prejudicial. Um movimento são e vital, como é a atual campanha prussiana, pode e deve se nutrir de todos os materiais sociais inflamáveis acumulados. Em contrapartida, só pode ser proveitoso para a questão mineira, em particular, se o alcance de um êxito político mais amplo conseguir aterrorizar os inimigos: os magnatas do carvão e o governo. Mais rapidamente, estes se verão obrigados a satisfazer, mediante concessões, os trabalhadores das minas e a isolá-los da maré política. Mas no que se refere às ameaças de demissão, sabemos por inumeráveis experiências que quando, pelos seus interesses de classe, os empresários necessitam, nunca lhes faltaram justificativas para uma brutal demissão em massa, e nem a ausência de pretextos medianamente apropriados lhes impede a realizar atos de força. Ainda que uma greve política de massas se realize ou não, não deixarão de haver demissões, na medida em que convenha ao empresariado. A não coincidência no tempo dessas demissões com um grande movimento político unicamente pode ter como consequência que, através do auge geral do idealismo, da capacidade de sacrifício e da energia e da capacidade de resistência do proletariado, os trabalhadores se tornem também mais resistentes aos prejuízos parciais provocados pelas demissões.

Do ponto de vista sindical, a consideração mais importante que pode se deduzir de tudo isto é a seguinte: a ação de uma grande greve de massas é, em todo caso, um grande risco para a existência das organizações sindicais e suas reservas financeiras. Podem e devem os sindicatos tomar para si este risco? Prontamente, este risco não deve nem sequer ser discutido. Mas qual luta, qual ação, qual greve eminentemente econômica não arrasta consigo um risco para as organizações de luta dos trabalhadores? Se é precisamente o desenvolvimento poderoso, a força em número de nossos sindicatos alemães o que constitui um motivo para levar em consideração os riscos que a luta implica – riscos que organizações mais débeis de outros países, como por exemplo Suécia e Itália, estão dispostas a suportar –, isto seria um argumento perigoso contra os próprios sindicatos. Pois desembocaria na paradoxal conclusão de que quanto maiores e mais fortes são nossas organizações, menor a probabilidade de que voltem a ser acionadas, dado que nos tornaremos mais temerosos. O motivo mesmo do forte desenvolvimento dos sindicatos seria posto em dúvida, já que necessitamos das organizações como meio para um objetivo final, como armamento para a luta, e não como objetivo em si mesmo. Esta pergunta, por sorte, nem sequer pode aparecer. Na realidade, o temor, o risco que nossas organizações correm é unicamente externo: de que as organizações pareçam fortes e sãs unicamente quando se agudiza a luta; depois de cada prova, nascem com renovadas forças e voltam a se desenvolver outra vez. Apesar de que uma greve política de massas geral, em sua primeira batalha, implica no debilitamento ou na deterioração de alguns sindicatos, depois de algum tempo não renascerão as velhas organizações, mas a grande ação despertará novas camadas do proletariado e os pensamentos da organização entrarão em um campo que até agora era inacessível para uma organização sindical pacífica e sistemática, ou nossas organizações sindicais ganharão novos contingentes de proletários, que até agora estão sob direção burguesa, no centro, com os Hirsch-Duncker, com os evangélicos. As perdas serão sempre superadas pelos benefícios derivados de uma grande ação de massas sã e audaz. Justamente neste momento, vivemos um exemplo esclarecedor de como, em determinadas circunstâncias, para um movimento sindical prudente pode chegar a ser uma necessidade, uma questão de honra, engajar-se em uma grande luta, sem contabilizar com temor todas as possibilidades de perdas e ganhos. Este exemplo se apresenta na Filadélfia. Ali vemos entrar em luta uma organização que, em toda a Internacional, é considerada como a menos revolucionária, audaz e imprudente, uma organização em cuja dianteira está um homem como Gompers, um político frio, cheio de desprezo pelos “exageros” social-democratas e suas “frases revolucionárias”. Esta organização proclamará quiçá em muito curto tempo uma grande greve geral para proteger, na verdade, a liberdade de afiliação de seiscentos empregados rodoviários. Não há nenhuma dúvida de que, nesta prova de força com o capital, os sindicatos estadunidenses correm um grande risco, mas quem condenará neste caso os passos de Gompers, quem pode ignorar o fato de que esta grande prova de força, em última instância, trará as mais vitoriosas consequências para o movimento operário estadunidense? E por fim, aos sindicatos alemães em sua totalidade não ser-lhes menos úteis fazer o capital aliado e arrogante sentir, por uma vez palpavelmente, seu poder.

Do ponto de vista político, há outra coisa que se deve levar em conta. Em 1911, teremos eleições no Império, e é de grande importância liquidar totalmente as eleições dos “hotentotes”. Contudo, nossos inimigos se adiantaram, por nossa causa, na reforma financeira. Por nossa parte, não podemos fabricar uma excelente situação para nós mesmos que não seja através de uma prévia e grande ação política de massa, como a Alemanha ainda não conheceu. Sacudindo as amplas massas, elevando as perspectivas e tensionando as energias combativas ao máximo nesta ação poderemos conseguir um grau de esclarecimento e um estado de ânimo que provocarão, nas próximas eleições, um tremendo Waterloo para o sistema dominante.

Do ponto de vista sindical, assim como do ponto de vista político, se coloca para nós na mesma medida a consigna: “Primeiro contabilizar, mas depois arriscar!”. Uma greve política de massas na Alemanha (pois, como é lógico neste caso, devemos levar em conta não somente a Prússia, dado que seguramente as massas do partido do restante do Império sairiam por si mesmas e entusiastamente em seu apoio) exerceria sobre a Internacional o efeito mais profundo e estendido, seria uma realidade que alimentaria consideravelmente a valentia, a fé socialista, a confiança, a alegria pelo sacrifício do proletariado em todos os países. É natural que considerações deste tipo não possam ser o motivo que levem a social-democracia alemã e os sindicatos a decidirem pela aplicação das greves de massas, aplicação que pode unicamente derivar da própria situação interna da Alemanha. Mas na contabilização das perdas e ganhos pela eventual aplicação de uma greve massiva, a consideração acima será seguramente mencionada. A social-democracia alemã foi até agora, para a Internacional, o grande exemplo no terreno da luta parlamentar, da organização, e da disciplina partidária. Poderia quiçá prontamente dar um excelente exemplo de como todas estas vantajosas características podem se unir a uma decidida e valente ação de massas.

No entanto, não se deve esperar de modo algum que um belo dia, a partir da direção superior do movimento, do Comitê Central do partido e da Comissão Geral dos sindicatos, emane a “ordem” para a greve de massas. Os corpos que têm a responsabilidade de conduzir milhões de homens são, por natureza, reticentes nas resoluções que outros devem colocar em prática. Por isto, a decisão de uma iminente ação de massas unicamente pode partir da massa mesma. A libertação da classe operária só pode ser obra da própria classe operária (esta frase do Manifesto Comunista, que indica o caminho, tem também validade no âmbito particular; também no interior do partido de classe do proletariado, qualquer movimento grande, decisivo, deve surgir do convencimento e da decisão da massa de militantes e não da iniciativa de um punhado de dirigentes). A decisão de levar a presente luta pelos direitos eleitorais na Prússia ao triunfo apelando, segundo os termos do Congresso partidário prussiano, “a todos os meios” (o que significa inclusive à greve de massas), pode se realizar unicamente com as mais amplas camadas do partido. Aos camaradas do partido e dos sindicatos, em cada cidade e em cada distrito, corresponde a eles tomar uma posição diante dos problemas da atual situação e expressar sua opinião e sua vontade de forma clara e aberta, para que a opinião da massa trabalhadora organizada possa ser escutada integralmente. E se isto ocorre, então também nossos dirigentes estarão à altura das circunstâncias, como até agora estiveram sempre.

Tradução feita por Luciana Vizotto




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