Cultura

CONTRACULTURA

Dzi Croquettes: teatro que faz a família Bolsonaro desmaiar

Inspirados no conjunto norte-americano “The Coquettes” e no movimento gay atuante na off-Broadway, um grupo de 13 atores/bailarinos criaram 1972, no Rio de Janeiro, o lendário e pouco difundido Dzi Croquettes, um grupo de teatro/dança que influenciou e transformou toda uma geração de jovens e artistas que sobreviviam ao período de maior repressão e censura da Ditadura Militar Burguesa no país, os "anos de chumbo" do governo Médici.

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

quarta-feira 14 de setembro| Edição do dia

Alinhados à contracultura desenvolvida nos EUA durante os anos 1960, vestindo roupas consideradas femininas ou sungas minúsculas, com direito a pentelhos à mostra, e utilizando muita maquiagem, purpurina e paetês, os Dzi Croquettes desestabilizaram e colocaram em xeque os rígidos códigos sexuais e a heterossexualidade normativa em pleno regime ditatorial. Os espetáculos irônicos da trupe eram uma ofensa para os "machos" nacionalistas torturadores de mulheres e assassinos de gays, lésbicas, transexuais e travestis.

Os Dzi denunciaram o papel opressor da masculinidade numa sociedade de tradições escravistas e patriarcais. Tiraram um sarro da heteronormatividade policialesca - fiscal de cu, pinto e buceta - tão defendida pelos setores reacionários. Bolsonaros e a Família Tradicional de hoje iriam desmaiar, espumar de raiva com os jovens bailarinos ma-ra-vi-lho-sos que tinham como objetivo anular as desigualdades entre homens e mulheres, héteros e homossexuais, negros e brancos, brasileiros e estrangeiros etc.

O coreógrafo e cantor norte-americano Lennie Dale, Wagner Ribeiro de Souza, e os bailarinos Cláudio Gaya, Cláudio Tovar, Ciro Barcelos, Reginaldo di Poly, Bayard Tonelli, Rogério di Poly, Paulo Bacellar, Benedictus Lacerda, Carlinhos Machado e Eloy Simões também formavam uma família. Mas uma família psicodélica e debochada, com direito a papai & mamãe, baseado e outras coisinhas que tanto perturbam padres, pastores e policiais reprimidos e repressores em nome da Pátria, de Deus e da Propriedade Privada.

“Nós não somos homens, não somos mulheres, somos gente" diziam eles, comunicando uma ideia de igualdade de gênero. Esta ambiguidade, androgenia, deixava as platéias jovens extasiadas, que aos poucos assumiam para si formas de pensar e viver menos antiquadas e antipáticas. Tesão subversivo que ofendia os machistas verde-amarelo. Prazer e gargalhadas para derrubar o muro que insiste separar a arte da vida.




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