Política

OPINIÃO

Doria: o moderno marketing das redes sociais para relançar velhas marcas da direita

No mundo do marketing o relançamento de uma velha marca mudando seu nome, seu logotipo, sua embalagem, se chama rebranding. João Doria Junior é exatamente isso. Um perfil de face e twitter, filho do mais moderno marketing e tecnologia política do século XXI para a velha cara do populismo de direita e capitalismo para seus amigos. Doria é o modelo primavera-verão 2017 para o que é tão tradicional, tão tradicional, que é velhaco.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

quarta-feira 4 de outubro| Edição do dia

Doria não é uma pessoa, é um avatar ou um personagem de reality show. Doria parece materializar-se somente em seu facebook, atravessa as fronteiras, faz transmissões ao vivo de cada ponto do globo em busca de parceiros de privatização da capital paulista, em tudo isso obedece a regras de “engajamento” nas redes sociais. Com alto engajamento nas redes (ele tem 2,9 milhões seguidores no Facebook e 669mil no Twitter), e explorando factoides políticos, opinando sobre tudo procura manter suas contas ativas e estar sempre na pauta dos noticiários e diante dos olhos de possíveis eleitores futuros.

A decisão política de estar sempre em pauta, com factoides, e traçar um perfil “mangas arregaçadas” é bater no liquidificador as personas de dois dos maiores populistas que a direita paulistana criou: Jânio Quadros e Ademar de Barros.

Jânio era o “político não tradicional”, que condecorava Che Guevara ao mesmo tempo que iria combater a corrupção com sua vassourinha e criava factoides de ultra-direita, entre eles tentar proibir biquínis, demitir bailarinos homossexuais do Ballet Municipal e proibir cinemas de passar filmes que atacassem a religião, quase nada disso conseguindo executar mas meramente para aparecer.

Jânio era a busca permanente de estar permanentemente em pauta. Para parecer popular, colocava lascas de pão em seus ombros para parecer que, tal como o povo, tinha caspa; deixava-se fotografar comendo pão com mortadela. Jânio era relativamente um “outsider” quando se elegeu presidente da República em 59 e o mais alto “insider” na campanha à prefeitura paulista em 85, quando contou com o apoio da nata da elite paulistana: Olavo Setubal do Itaú, a reacionária Tradição, Família e Propriedade (TFP) e de homens da ditadura como Paulo Maluf e Antônio Delfim Netto.

Ademar de Barros, por outro lado, tradicional adversário político de Jânio, era filho da elite paulista e era empresário. Seu slogan em campanha presidencial de 1955 foi o “Brasil precisa é de um gerente”. Sua maneira de aparecer em pauta permanentemente era adotando um estilo de homem de grandes obras, mangas arregaçadas na frente das câmeras virando, teatralmente, concreto de estradas que inauguraria. À Ademar de Barros e seu herdeiro político Maluf são atribuídos o slogan: “rouba mas faz”.

Doria bate no liquidificador os perfis de Jânio e sua busca de “ibope” com o estilo “gerencial” de Ademar de Barros tudo isso turbinado com técnicas “malandras” de facebook. Uma delas é o uso de “bots”, perfis automatizados no facebook e twitter que servem para xingar adversários e críticos e elogiar o prefeito, dando impressão que tem uma “legião” de seguidores maior do que o real.

Antes da eleição em outubro passado o portal “Tecmundo”, vinculado ao G1, já mostrava como o prefeito parecia fazer uso desse expediente. Estudos recentes afirmam que até 20% das postagens políticas do país são produtos de “bots”, entre os políticos mais suspeitos de ter uma claque digital está, é óbvio, João Doria.

Da claque real à claque virtual, das mangas arregaçadas de Ademar a vestir-se de gari (ostentando tênis de mil reais) eis o rebranding do velho populismo de direita paulistano. Suas declarações conservadoras em vídeo atendem a uma preocupação eleitoral com Bolsonaro mas também servem para que sempre esteja ativo nos trending topics. Do ponto de vista do estilo “você está demitido”, de mostrar-se um político diferente por ter dinheiro, por ser mais agressivo que o normal, e viver em eterna performance pode-se ver Doria também como um leitura “tropical” de Trump

Essa velha novidade em estilo, esse trazer Ademar e Jânio ao século XXI, se combina a outra velha novidade do prefeito: o interesse econômico de amigos em sua gestão. Procurando capitalizar o descontentamento com a corrupção nas estatais sob a administração petista o prefeito se faz herói do “privatizar tudo”. A justificativa para isso seria que empresas privadas são menos corruptas e mais competitivas. O argumento da corrupção não resiste sequer ao interessado noticiário televisivo, a SIEMENS, o Citibank a Volkswagen são por acaso estatais? Para não falar em JBS, Odebrecht, nem falar do bilionário e suspeito calote do Itaú à Receita Federal autorizado por órgão que é investigado por corrupção, o CARF. Menos ainda se sustenta o argumento de que empresas privadas seriam mais eficientes porque haveria mais “competição”. A eficiência de uma grande empresa privada, como uma Samarco, é pública e notória...

Voltando a “novidade” Doria e a suposta busca de competição. Tudo que é privatizado ou feito “parcerias” é, via de regra, com empresas da LIDE, grupo empresarial que ele é fundador e foi presidente. Essas privatizações – sem licitação, é óbvio – favorecem os amigos do prefeito. A novidade de Doria é vender o mais abjeto e velho patrimonialismo como se fosse algo novo.

Doria gerente, gestor, privatizador e utilizador de bots e mobilizador de “haters” no facebook é uma das tendências de resposta da elite à crise de representatividade que acontece em vários países depois da crise ou mesmo implosão do velho “centrão” produto da crise orgânica a partir da decadência do grande projeto do neoliberalismo. Ao lado dos “velhos gestores com novas caras” correm ameaças racistas e xenófobas e, por outro lado, novas esquerdas que repetem velhos reformismos e aparecem às massas como menos “anti-sistêmicos” que a extrema direita. A crise de representatividade abre espaço para novas ideias: à direita mas também à esquerda.

Nada, nem seus exércitos de bots, garante que isso tenha que ser capitalizado por Doria ou Bolsonaro. Cabe desenvolver uma forte esquerda anticapitalista e revolucionária que possa oferecer realmente uma resposta e fazer frente a fenômenos aberrantes, tais como Doria e Bolsonaro que surgem em momentos de crise.




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