Política

DORIA "ARTISTA" ATACA SP

Doria, depois de pintar tudo de cinza, decide o que é arte: “sem manifestação política”

O prefeito-empresário tucano de São Paulo, depois de pintar de cinza a cidade inteira destruindo inúmeros grafites, mostra que seu autoritarismo não tem limites. Agora ele quer definir o que é arte para dizer o que pode ou não estar nas paredes de São Paulo, cidade que ele aparentemente considera "dele".

Fernando Pardal

@fepardal

segunda-feira 29 de maio| Edição do dia

Foto:Cesar Ogata/Divulgação

A "cidade linda" de Doria vem mostrando cada vez mais o que é: uma cidade feita à imagem e semelhança dele, o empresário almofadinha que privatiza tudo, e que decide pelos mais de dez milhões de habitantes o que eles devem considerar "artístico".

Doria pintou um coração numa parede, inaugurando as ações do chamado "Museu de Arte de Rua" (MAR), que ele decidiu criar após ter pintado os murais da 23 de maio de cinza e declarado guerra contra todos os grafiteiros e pichadores de São Paulo. E então disse, sobre sua "obra": "Isso é arte. O grafite é arte, mural é arte. A prefeitura respeita, as pessoas respeitam, admiram e aplaudem".

Sim, como um "déspota esclarecido", Doria agora quer decidir inclusive o que as pessoas de São Paulo devem respeitar, admirar e aplaudir. Além de querer reinventar os manicômios como prisão e impor a usuários de crack um "tratamento" compulsório, agora ele quer decidir o que é arte. Impossível, aliás, não se lembrar da célebre entrevista dada por sua esposa, Bia Doria, uma verdadeira "artista", para ela própria e para Doria. Ela, como o marido recém-transformado em "grafiteiro", diz o que é "arte arte", em suas palavras.

Doria diz que São Paulo ganhará uma escola de grafite. Talvez seja ele mesmo quem vá decidir o currículo da escola, para que seus alunos possam, enfim, aprender o que é realmente arte, distinguindo o coração que Doria fez na parede do Tucuruvi na inauguração do MAR dos terríveis desenhos que ele apagou na cidade inteira. A definição de arte de Doria é profunda, e fica evidente com o projeto do MAR: será feito um edital para financiar artistas que façam obras em muros da cidade sem que haja "manifestações de cunho político, religioso ou discriminatório".

Sim, a arte de Doria não pode dizer nada que ele não goste. Por isso ele afirmou: "Não há guerra, há disciplina. Todo apoio aos grafiteiros, aos artistas de rua. Aqueles que lamentavelmente ainda insistem na pichação, terá o rigor da lei."

O rigor da lei que ele apoie, evidentemente, pois o rigor da lei de fomento ao teatro ou do fomento à dança em São Paulo não vem sendo respeitados por Doria, que não apenas declarou guerra aos pichadores e grafiteiros, mas a todos os artistas da cidade que não façam a "arte" de acordo com o que ele quer. André Sturm, seu secretário de cultura, junto a ele, estão acabando com o financiamento para a cultura independente, o teatro de grupo (que já possuía escassos recursos) e a dança (cujo edital de fomento Sturm chegou a anular para que fosse refeito).

É assim que Doria quer a "cidade linda": com a "arte" que ele decida, com barbárie contra usuários de crack, com privatizações de todos os bens públicos. Uma cidade do autoritarismo, higienismo e repressão até o fim.




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