Educação

REABERTURA DAS ESCOLAS EM SP

Doria: “O cenário nunca foi tão preocupante” mas as escolas serão reabertas

Resposta de Maíra Machado ao artigo de João Doria no Estadão de hoje, 4. Está aberta a temporada de disputa presidencial para 2022, Doria vem galgando posições contra Bolsonaro partindo de sua “gestão de combate à pandemia”. A corrida presidencial é alentada pela grande mídia, que coloca Doria como um governador que pensa no Brasil e que está “combatendo” o negacionismo de Bolsonaro, por isso, o governador teve uma crônica publicada no Jornal “O Estado de São Paulo” de hoje. Um palco aberto para propagandear as mentiras e projetos privatizantes que, ao contrário do que ele diz, serão ataques ainda mais profundos à grande maioria da população.

Maíra Machado

Professora da rede estadual em Santo André, diretora da APEOESP pela oposição e militante do MRT

quinta-feira 4 de fevereiro| Edição do dia

Foto: Governo do Estado de São Paulo

Desde o início da crise sanitária, Doria tem adotado uma linha de se diferenciar de Bolsonaro. Suas coletivas de imprensa servem para mostrar responsabilidade e se chocam com o negacionismo aberto de Bolsonaro que ri da cara dos milhares de mortos e que chegou a afirmar que aqueles que se vacinarem virarão jacaré. Nada melhor para Doria, PSDB e toda a direita golpista para surfarem na onda da responsabilidade X negacionismo, mas vejamos atentamente os movimentos e afirmações do governador de São Paulo para não cairmos no “canto da sereia” dos governos capitalistas comprometidos somente com os lucros.

Em sua nota para o “Estado”, Doria afirma que “o cenário nunca foi tão preocupante” e que “é um quadro que aumenta a responsabilidade dos governos. Ao mesmo tempo que adotamos medidas para reduzir taxas de transmissão, concentramos esforços para comprar e aplicar o maior número possível de vacinas”. São Paulo é o estado com mais mortes por Covid em todo o país, são 53 mil mortos notificados, sempre bom lembrar que grande parte das vidas perdidas jamais foram notificadas como tal, inclusive, milhares e milhares de pessoas nunca nem mesmo puderam ser testadas, jamais o governo paulista garantiu testes massivos para a população.

Além disso, concretamente, hoje no Brasil foram vacinados 2,7 milhões de pessoas, o que não chega nem a 1,5% da população. Muita gente que tomou a primeira dose da vacina nem sabe se conseguirá tomar a segunda dose, já que não existe realmente vacina no país. A vacinação é pífia e não atende nem mesmo 5% do grupo prioritário.

Doria afirma feliz em seu artigo que em outubro, marcando bem “em outubro” teremos uma fábrica de produção de vacinas do Butantã, para atender todo o Brasil. No ritmo acelerado de contaminação, mudança de cepa, adoecimentos e contaminação, realmente não temos como prever qual será a situação do país até outubro. Mas o governador enche o peito de orgulho para dizer que “Contamos com a solidariedade de empresas privadas que financiaram integralmente a obra. Hoje, esse esforço contabiliza R$ 162 milhões em doações”.

Entre as empresas “solidárias” estão AmBev, Americanas, Astellas, B2W Digital, B3, Ball, Bradesco, BRF, BTG, Comgás, Cosan, Daycoval, Droga Raia, Falconi, Fundação Casas Bahia, iFood, ISA CTEEP, Itaú, JBS, Magalu, Minerva Foods, Novelis, Peninsula, PWC, Rappi, Rede D’Or, Safra, Santander, Sinditêxtil, Sindusfarma, Stone, Stocche Forbes, Tishman Speyer, Vale, Votorantim e XP.

Essas empresas que lucraram bilhões durante a pandemia, seguiram produzindo normalmente no momento de crise, com milhares de trabalhadores se contaminando. A Ambev que lucrou na crise pandêmica 1,27 bilhão de reais, já anuncia que trabalhará de forma enxuta para seguir garantindo seus lucros, isso quer dizer que muitas demissões podem rolar. Os bancos se aproveitaram da crise para demitir e flexibilizar contratos, a Rappi elevou ao máximo o nível de exploração do trabalho e enfrentou até mesmo paralisação de entregadores de aplicativo nos primeiros meses de crise. Por isso, é preciso dizer que essa é uma “solidariedade” preenchida de cinismo. Sem contar os diversos interesses com a privatização dos serviços públicos que essas empresas almejam.

Ao contrário de ser essa a saída para resolver o problema da crise sanitária, o governo quer dessa maneira nutrir sua política privatizante da saúde e do conjunto dos serviços públicos. No orçamento apresentado pelo governo paulista para 2021, o corte para a saúde é de R$ 820 milhões, o que mostra claramente que a preocupação de Doria é em garantir lucros, e não acesso à saúde para a população.

É óbvio que os investimentos públicos para o SUS deveriam ser superiores e combinados à contratação imediata de trabalhadores da saúde, que mesmo na linha de frente não tem a garantia da vacinação. Nesse marco é importante a luta das trabalhadoras do HU da USP que paralisaram as atividades reivindicando o básico: acesso à vacinação para que não morram mais por conta da pandemia.

O governador não para na saúde para instigar sua demagogia, ele também tem seus projetos para a educação e nenhum deles passa pela necessidade de professores, alunos, funcionários e o conjunto da comunidade escolar. “Com vacinas retomaremos a vida normal e a motivação para enfrentar novos desafios. A pandemia ampliou o desemprego, a desigualdade social e o déficit público. Há também um enorme desafio na área da educação, para recuperar aprendizados comprometidos pelo longo período sem aulas presenciais.”

Enquanto batemos nacionalmente o recorde de desempregos, com 11,5 milhões de demissões pelo setor privado em 2020 e vemos fábricas como a Ford fechando as portas no país, Doria e o Secretário da Educação, Rossieli Soares, teimam em reabrir as escolas mesmo em meio ao caos de contaminações, fruto da política 0 de enfretamento da crise.

Durante todo o ano passado, vimos nossos alunos abandonado a escola para poder trabalhar, já que os pais ficaram desempregados. Milhares de jovens largaram os estudos para rodar quilômetros infinitos de bicicleta trabalhando nas empresas de entrega de comida e recebendo um salário miserável. O governo deixou os alunos desamparados, sem garantir acesso e tecnologia para as aulas à distância, nenhuma melhoria estrutural foi feita nas escolas públicas, que seguem caindo aos pedaços mesmo depois de tantos meses de crise sanitária.

As notícias de contaminação depois da abertura das escolas já não estampam mais os casos de outros países, é aqui no Brasil que vivemos a experiência real. Em Campinas as escolas particulares já mostram o que viveremos nos próximos meses. Escolas particulares de Campinas tem dezenas de casos de Covid e fecham após volta às aulas. Mesmo assim, o governo lava as mãos e joga para as famílias a responsabilidade da contaminação ao mesmo tempo em que a prefeitura de São Paulo distribui nas escolas municipais o obituário que deverá ser preenchido a cada morte que acontecer na comunidade escolar.

Querem que os próximos meses sejam de “abre e fecha” de escola e jogam com nossas vidas sem nenhum tipo de vergonha na cara. São muitas escolas paulistas que já denunciam, mesmo antes de receber os alunos, números enormes de contaminação de professores, diretores, coordenadores e funcionários. Sem contar a mentira de que as escolas estão preparadas para receber os alunos ao mesmo tempo em que os professores recebem álcool-gel vencido para começar rapidamente o trabalho presencial, escolas já começam sem água e com água de chuva dentro de salas de aula.

A farsa não para por aí. A secretaria de educação diz que as escolas também receberam materiais para adequar o funcionamento para o ensino hibrido e usa algumas unidades escolares selecionadas à dedo para receber os materiais e dizer que é uma realidade de toda a rede pública.

Por fim, o governador se embandeira de suas reformas, se orgulha de ter acabado com a aposentadoria de milhares de funcionários públicos com a Reforma da Previdência. “Diante de tais obstáculos, há um campo fértil para vendedores de ilusões, especialmente no plano econômico. Para evitar que isso aconteça devemo-nos concentrar em propostas que ofereçam resultados na redução das desigualdades. Em São Paulo, estamos fazendo reformas estruturais desde o início do nosso governo. Fizemos profundas mudanças no sistema previdenciário e administrativo do Estado. E não foi uma tarefa fácil.”

A única verdade na afirmação acima é a de que não foi fácil. A aprovação da Reforma da Previdência só foi possível com “tiro, porrada e bomba” em milhares de professores e servidores públicos que se mobilizaram às vésperas da pandemia para impedir que tenhamos que trabalhar até morrer em nome de garantir a boa vida de meia dúzia de grandes milionários, entre eles o próprio Doria.

Frente à situação de calamidade no país, que tem Manaus como emblema do caos sanitário, onde milhares de pessoas morrem sem ar, é preciso organizar as nossas forças, pois não podemos seguir pagando a crise com as nossas vidas. Ao contrário da reivindicação da parceria público privadas, precisamos lutar pela quebra de todas as patentes das vacinas, não pode ser que sigamos nos contaminando e morrendo em nome dos lucros das gigantes empresas farmacêuticas em acordo com os grandes estados capitalistas.

Veja aqui: "Guerra pelas vacinas": frente à irracionalidade capitalista, anulação das patentes e vacinas para todo mundo.

Também não podemos aceitar o retorno das aulas presenciais sem segurança sanitária. Não cabe ao governo decidir e arbitrar sobre nossas vidas, a comunidade escolar que deve decidir sobre como, quando e com quais procedimentos as escolas devem ser reabertas. É preciso que o auxilio emergencial retorne imediatamente, assim como a garantia de um plano universal de imunização. Façamos como os trabalhadores do HU da USP, exigindo a vacinação imediata de todos os trabalhadores da saúde, efetivos e terceirizados.

Os professores devem se unificar com o conjunto da comunidade escolar, com as trabalhadoras da saúde na linha de frente com um forte chamado nacional de mobilização. Em São Paulo é preciso debater e organizar em cada escola o chamado à greve sanitária convocada a partir do dia 8, as direções sindicais devem romper com a paralisia e organizar nossas forças. Nossas vidas não vão esperar até 2022 e nem serão garantidas alimentando qualquer ilusão numa saída por dentro desse regime político degenerado do golpe institucional. Doria, todo o congresso nacional, o STF, os militares e Bolsonaro estão juntos num projeto de país de miseráveis e não podemos aceitar.




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