Opinião

TRIBUNA ABERTA

Dória: Não é boa gestão, é politicagem mesmo

terça-feira 31 de janeiro de 2017| Edição do dia

Em um mês de mandato João Dória conquistou uma visibilidade midiática notável. Seja entre apoiadores, ou no mais amplo uso da máxima “falem mal, mas falem de mim”, o empresário do ramo da publicidade esteve presente cotidianamente na grande mídia e nas redes sociais de muitos de nós neste janeiro de 2017. Parece que Dória sabe jogar muito bem com as peças de que dispõe neste tabuleiro. Todos nós, reles mortais, sejamos eleitores irredutíveis do empresário, críticos cautelosos, críticos mais contundentes ou da esquerda mais combativa, temos estado a serviço da publicidade do atual prefeito. É inegável atribuir-lhe a alcunha de “raposa”, não só pela astúcia, mas também porque lhe demos a chave do galinheiro. Como ele está fazendo uso desse recurso?

Mesmo tendo sido eleito com um discurso de negação da política, apresentando-se como “bom gestor”, é fato que Dória tem sido o político da velha política conservadora no Brasil, acostumada a instrumentalizar a coisa pública em função dos interesses privados. Tem sido voraz ao abrir as portas do galinheiro aos seus amigos empresários. Criou uma secretaria só para isso, de “Desestatização”, implementou uma série de medidas de parceria público-privadas “sem contrapartida” (aguardemos e veremos), e aquilo que tem sido chamado de “zeladoria urbana” tem revelado uma visão também privatista sobre o espaço público, excludente e higienista. Mas eu gostaria de focar nossa reflexão neste texto sobre o “marketing político” do nosso prefeito.

Em termos de “marketing político”, parece que uma de suas principais preocupações neste início de mandado tem sido desconstruir e descaracterizar o que a gestão de seu antecessor deixou de legado para a cidade. E tem estado tão engajado nisso que manter a imagem de bom gestor, aquela que convenceu o paulistano a votar nele, agora tornou-se algo secundário. Tem mesmo é enfiado os pés pelas mãos tanto com os recursos públicos como diante da imprensa, com argumentos infundados que não se sustentam a uma análise dos fatos e que subestimam a nossa inteligência.

Convenhamos, depois deste primeiro mês de mandato, Dória só convence quem está sendo pago para ofender seus críticos nas redes sociais, quem lucra diretamente com sua visão privatista e elitista e aquela galera cheia de ingenuidade, ódio e desinformação que ainda acredita que “o PT é o reduto de todo o mal no Brasil”. E antes que me venha um dessa seita aí me chamar de “petralha”, fique sabendo que esta autora corrobora as críticas publicadas pelo Esquerda Diário à gestão “gourmetizada” de Haddad, sobretudo a respeito da sua ausência nas periferias.

Voltando ao Dória e seu marketing, basta observar com um pouco mais de atenção algumas das medidas tomadas pelo nosso prefeito para constatar que ele, de fato, não está preocupado com o dinheiro público que desce pelo ralo, com a “boa gestão”. O que ele quer mesmo é apagar Haddad da memória dos paulistanos, custe o que custar, literalmente.

A guerra contra o graffiti e a pichação

A gestão Haddad foi muito boa para a arte urbana e seus artistas. Na gestão anterior, do Kassab, a Prefeitura empreendeu grandes esforços de perseguição e repressão aos grafiteiros e pichadores sem distinção (sobre significados, valores e função social da pichação, isso é outra discussão que não cabe agora), o que fez esse pessoal apelidar a tinta comumente usada pela Prefeitura de “cinza Kassab”.

Já a gestão Haddad convidou os grafiteiros para compor a paisagem urbana com algumas inciativas que legitimaram o graffiti como arte e patrimônio público da cidade. Institucionalizou alguns espaços para a arte urbana, com o MAAU em Santana, por exemplo, sem falar do extenso mural da 23 de maio, entre outros espaços. Esse reconhecimento do graffiti chegou até a causar certo estranhamento e inimizade entre grafiteiros e pichadores, que permaneceram como representantes de uma manifestação popular marginalizada.

O que fez Dória? Ressucitou o “cinza Kassab”, agora sob outro ícone, o de sua imagem vestindo o uniforme laranja da frente de trabalho. Jogou a pichação e o graffiti no mesmo saco da marginalidade. Não importa que tenha sido feito um trabalho de curadoria, que exista hoje um reconhecimento social do graffiti como arte (e da pichação também). Mas não importa, sobretudo, que tenha sido gasto dinheiro do contribuinte com o belo trabalho da 23 de maio por exemplo, que estava muito bem conservado nestes apenas 2 anos de existência. Importa é que aquela era uma marca da gestão Haddad, e que convém substituí-la pela marca de “uma gestão de coragem, doa a quem doer”, mesmo que seja algo burro, feio e desperdício de dinheiro público. Diante da repercussão negativa de seu cinza, Dória não pôde esconder a total ausência de planejamento e diálogo nesta ação. Primeiro seu secretário de Cultura, André Sturm, chegou a anunciar que chamaria outros artistas para pintar novos murais onde Dória mandou acinzentar. Recentemente anunciou a intenção de criar jardins verticais onde apagou os graffitis. Que bom gestor, não é mesmo? Pelo menos temos a certeza de que mais de uma empresa sairá lucrando com os mesmos muros.

A cruzada pela velocidade nas marginais

Não importa que os relatórios da própria CET tenham demonstrado a queda do número de acidentes, de vítimas e dos congestionamentos com a redução dos limites de velocidade pela cidade. Não importa que a redução de velocidade em áreas urbanas é uma tendência mundial e recomendada pela ONU. Não importam as perdas que a economia da cidade acumula com os congestionamentos, os gastos com o socorro, hospitalização e com as mortes de chefes de família em idade produtiva. Não importam as vidas das pessoas.

Parece que o que importa mesmo é que a redução dos limites de velocidade é um rastro da gestão Haddad no cotidiano dos paulistanos que Dória precisa apagar para cumprir uma promessa politiqueira de campanha, mesmo que seja ao custo de manter ambulâncias ao longo das marginais para levar os feridos ou seus corpos sem vida dali.

Em um dos episódios mais patéticos desde sua posse, nosso bom gestor foi questionado pela Rede Globo por ter apresentado números divergentes dos que haviam sido divulgados pela CET no ano anterior, tentando apoiar sua tese de que não havia relação entre a redução dos limites de velocidade e o número de mortes no trânsito. O episódio culminou com o Secretário de Transporte, Sérgio Avelleda, dando uma explicação pouco convincente sobre diferenças nas metodologias de apuração dos dados. Mas isso não importa, para os seus eleitores ele continua sendo o bom gestor.

Desconstruindo políticas públicas

Enquanto nossos olhos estão tomados pelo “cinza Dória” e os limites de velocidade, Dória tem sido veloz em estragar políticas que vinham sendo construídas com muita seriedade na Educação e na área de assistência social.

Recentemente, um grupo de servidores, técnicos que trabalhavam nas políticas públicas para população de rua, pediu exoneração após sequer terem sido consultados pelo prefeito sobre a retirada de um veto em um documento que autoriza à Prefeitura recolher cobertores e outros pertences de moradores de rua. A decisão contraria o Plano Municipal sobre o tema que foi instituído em 2016, fruto de um longo processo de estudos e debates por população, especialistas e entidades do setor, que para Dória parecem não ter nenhum valor. Em sua saga por uma “cidade linda”, o prefeito chegou a esconder moradores de rua atrás de uma tela verde, sob o Viaduto Dr. Plínio de Queiroz, na Bela Vista.

Outra preocupação do prefeito tem sido descaracterizar o programa De Braços Abertos. Criado na gestão Haddad, o programa direcionado aos usuários de crack tinha foco em medidas de redução de danos e reinserção social, no trabalho e na família. Com aspectos positivos, mas também negativos a serem avaliados, é verdade, o programa contava com elogios de especialistas da área e havia até se tornado referência internacional, obtendo bons resultados na diminuição do consumo da droga. Durante a campanha, Dória criticou duramente o programa, esmerando-se por descredibiliza-lo totalmente. Primeiro, nosso bom gestor firmou que não daria continuidade ao programa. Depois de eleito, disse que mudaria o nome do programa para Redenção e aproveitaria aspectos em que o De Braços Abertos havia sido bem sucedido, mas até agora não deu resposta sobre o que pretende fazer da vida das pessoas atendidas pelo programa. Essa indefinição tem causado no mínimo apreensão entre usuários, especialistas e agentes do poder público e de entidades que acompanham a questão, principalmente depois da noite de 17 de janeiro em que a PM violentamente dispersou dependentes químicos e moradores de rua da região da Cracolândia com bombas de gás lacrimogênio. O receio é que Dória resgate políticas consideradas desumanas, ineficientes e ultrapassadas que envolvem repressão e internações involuntárias, que caracterizaram a Operação Sufoco de Kassab e o programa Recomeço do Governo do Estado de São Paulo.

Em episódio semelhante, o bom gestor passou como um rolo compressor sobre especialistas, professores e servidores da Secretaria Municipal de Educação que vinham há pelo menos dois anos discutindo uma proposta curricular para a rede municipal de educação. O objetivo dos encontros promovidos periódica e sistematicamente pela SME entre educadores era fomentar o debate e a proposição de inovações para a educação municipal sob a égide da “descolonização do currículo”. Nosso prefeito jogou todo esse trabalho na lata do lixo.

Dória anunciou que pretende unificar o ensino municipal ao estadual em vários aspectos. Nesta semana a SME divulgou um documento a propósito de preparar o retorno às aulas. Nele, ressuscita materiais produzidos pela gestão Kassab, os Cadernos de Apoio à Aprendizagem, que se assemelham às apostilas impostas na rede estadual. Traz colagens de trechos de materiais orientadores da Secretaria Estadual de Educação e dá foco ao controle de metas e em avaliações externas. O documento está fortemente pautado pelas políticas que vem sendo implementadas pela Secretaria Estadual de Educação, que nesses vinte anos de PSDB tem focado em avaliações externas, sem atingir sucesso nessas mesmas avaliações. Essa política do estado vem apresentando resultados pífios em termos das metas de aprendizagem que se pretende atingir, principalmente se pensarmos que se trata de um dos maiores orçamentos públicos do país, mas tem sido muito eficaz em produzir um discurso que culpabiliza os professores por estes mesmos resultados, individualizando as responsabilidades e desviando as atenções da falta de infraestrutura e sucateamento da rede estadual de educação. Aqui, Dória, Alckmin e Temer tem trabalhado com o marketing negativo que descreve uma educação ultrapassada e ineficiente, conformando a opinião pública com o processo em curso de privatização das redes públicas de ensino e de desconstrução das carreiras e direitos dos professores, nos âmbitos municipal, estadual e federal.

Boa gestão é uma questão de marketing

Como bom publicitário, João Dória tem sido rápido ao imprimir as marcas de sua boa gestão pela cidade e suas políticas, assim como tem divulgado sua imagem e seu nome para todo o país, de olho nas eleições de 2018.

Como bom gestor que é, aparece como competente o suficiente para tomar decisões sem dialogar com população, trabalhadores, especialistas de diferentes setores. Mostra que o que faz dele um bom gestor não é nem o bom uso do dinheiro público nem a eficiência das medidas tomadas, mas apenas a imagem que constrói de si para o mundo. Muito dessa imagem está ancorada sobre suas aparições de caráter populista, sobre o mito de que “enriqueceu com seu próprio trabalho”, mas também sobre a polarização maniqueísta que tem pautado o debate político nos últimos anos e que é fortemente evocada pelos seus apoiadores, sobretudo nas redes sociais. As ideias de que “o PT é mau, o seu oposto é bom”, de que “Dória é o oposto do PT, você critica Dória você é petralha” , de que “Dória não é político”, e de que “é preciso exterminar os rastros do PT pela cidade” tem sido frequentemente reproduzidas sem a mínima crítica nem noção do ridículo e do empobrecimento discursivo que as caracterizam.

Apesar do discurso “não sou político”, as ações de Dória mostram não apenas que ele é um hábil político, mas principalmente que é um daqueles da pior espécie: traveste a política em politicagem, praticando da política mais mesquinha, aquela dos interesses mais particulares, aquela que não dialoga senão com os seus iguais com interesses em comum, aquela que nega totalmente o outro, o opositor, mesmo que isso custe muito dinheiro e que não seja tenha aquela eficiência toda que prega da boca pra fora. E isso não é boa gestão, é politicagem mesmo.




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