Cultura

CRÔNICA

Dona memória

segunda-feira 21 de novembro| Edição do dia

Ela sentou na poltrona. Cansada, acendia mais um cigarro, tentando manter o ritmo de sua respiração. Havia um cheiro diferente no ar; um aroma que ultrapassava o odor envelhecido de sempre. Seus olhos vasculharam cada canto daquele cômodo, buscando qualquer sinal de novidade. Não ousou levantar dali e abrir as cortinas, fazia muito tempo que as imagens que passavam ali deixaram de visita-la. Ao pensar nisso, recordou do café e dos pãezinhos quentes que costumava servir aos visitantes.

Apesar de viver confinada naquele lugar, a senhora havia se acostumado com suas feições empoeiradas. O esquecimento era calmo, pacato. A rotina regrada tornara-se sua melhor amiga.

Mas, neste dia, o inesperado aconteceu. Daqueles inesperados quase impossíveis. Seu marasmo foi abalado por um barulho estranhamente familiar. Uma música mesclada a um murmúrio ansioso, lembrou-lhe dum tempo que ela acreditava estar abafado. Tentada a ir ao quintal e investigar sua origem, ela parou na frente da porta e esperou. O som ia e vinha. Não sabia se chegava da rua ou das casas vizinhas. Ela pensou em ir à janela. Estava quase decidida, e a campainha tocou.

Depois de tanto tempo, voltariam a visita-la? Correu atender. Ali se deparou com uma cena curiosa. Rostos de crianças a fitavam. Feições familiares. Aqueles meninos que um dia passaram vendendo biscoitos e limonadas a encaravam com olhos gigantes. De mãos vazias, não diziam nada. Esperavam. Ela correu até a cozinha procurar algo para oferecer-lhes; quem sabe um pedaço de bolo. Recusaram. Esperavam uma resposta que Dona Memória não podia oferecer. Mandou-os sair; eles continuaram ali parados.

Ficariam ali, de olhos gigantes e confusos.

A senhora fechou a porta, agitada. Pensava que lá fora encontraria calma e refrescância, e não aqueles olhos. A imagem atormentava sua mente.
O som de antes voltou intenso. Agora, vozes escapavam das paredes dos cômodos. Dizeres há tanto calados. Eles vinham dali, de dentro. Acendeu outro cigarro. Sentou. Imaginou que se continuasse ali, quieta e reclusa, não voltariam a procurá-la. Mas agora não partiriam mais.

Foi então que ela decidiu mexer em sua velha estante de livros. Escolheu um por um dos textos que já cheiravam a naftalina. E, nesse ímpeto, distribuiu-os por baixo debaixo da porta e pelas janelas. Retirou a poeira de seu antigo piano. Tocou fervorosamente as canções que compusera com amigos que já partiram. O som desenterrava-se.

Dona memória já não era mais a mesma. Decidiu fazer as malas e ir para a rua. Abriu a porta e passou pelas crianças (distraídas com as palavras que ganharam).

Das nuvens que cobriam o céu, escorria chuva, e o sol tentava escapar por alguns buracos. Ela correu pela rua e começou a dançar. As pessoas pararam estupefatas, os vizinhos saíram curiosos.

A velhinha da casa escura tinha saído de seu confinamento. Enlouquecera?
Sentiam um palpitar no peito, um comichão nos pés. Ela dançava rua abaixo e eles observavam, secretamente desejando um pouco daquela loucura. O sol brigava com os raios que apedrejavam o céu. Alguns começaram a dançar. Outros seguiram a vida como se nada tivesse acontecido.




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