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Dólar em $40 pesos, Governo no pântano e as incógnitas do acordo com o FMI

Em outra jornada vertiginosa, o dólar chegou a $42 pesos argentinos. O governo de Macri buscou o conter com mais restrição monetária e venda de dólares. As taxas de 60% ao ano prenunciam mas queda econômica.

sexta-feira 31 de agosto| Edição do dia

Em dois dias o dólar acumulou uma alta de 25% na Argentina, passando de $ 32 pesos argentinos no final de sexta-feira para $39,77 (em reais, R$ 4,37) ontem às 15 horas, no setor de câmbios.

No governo de Macri, que chegou ao poder em dezembro de 2015 fazendo pompa de uma capacidade para se sintonizar com o empresariado e os “mercados”, por uma esmagadora composição de CEOs no gabinete, está mostrando porém que o que consegue é deixá-los muito nervosos. Nessa quarta-feira, bastou um vídeo de dois minutos gravado pelo próprio presidente, meia hora antes da operação, dirigido diretamente aos credores, para gerar uma jornada frenética.

Ontem foi a vez do Chefe de Gabinete, Marcos Peña, que em seu discurso no Conselho das Américas, elogiou o rumo econômico e colocou a culpa da crise nos “últimos 70 anos” do país. A resposta não se fez esperar. Passada uma hora das palavras de Peña, o dólar superava já as 11:00 da manhã de quinta, os $40 pesos argentinos.

O Banco Central continua correndo atrás.

Ante a feroz escalada da cotização da moeda norte-americana, o Banco Central da Argentina (BCRA) voltou a aplicar, em doses maiores, as receitas que já vem se provando sem chegar a mais do que resultados paliativos momentâneos, no melhor dos casos. Ante o arranque otimista, elevou a taxa de referência da política monetária, a que atua de base para o custo do financiamento no conjunto da economia, a 60% ao ano. Uma medida que prenuncia um novo salto na queda do crédito, e maiores dificuldades dos endividados para evitar a ilegalidade.

Pois se isso era pouco, o BCRA também aumentou os requerimentos de reserva para depósitos em 5 pontos. Dessa forma, por depósitos a vista, os bancos deverão reter 36% dos fundos captados (no caso dos prazos fixos será de 30%). Estes poderão se integrar com pesos, Letras de Liquidez (LELIQ) ou notas do Banco Central (NOBAC).

O efeito dessas medidas para acalmar o dólar, se evaporou passando a melodia. Por enquanto, o dólar voltava a estar acima de $ 40 pesos. Cerca do final do dia, em algumas entidades bancárias chegava-se a oferece-lo por $ 43 pesos. Com um escasso volume operado e um forte spred no BCRA também aumentou novamente os encargos dos depósitos em 5 pontos entre a cotização para a compra e venda, e se colocavam em evidência a pouca disposição das entidades financeiras em desprender-se de valores em meio ao descontrole, como não foi se impondo esses valores exorbitantes

Nesse contexto, o BCRA realizou, pouco antes das 15h, um novo leilão, oferecendo U$ 500 milhões. Concedeu U$ 330 milhões, a um preço de corte de $ 38,71 pesos. No momento, deixou o dólar de varejo apenas pouco abaixo dos $ 40 pesos argentinos.

A jornada de altas de ontem se desenvolveu com um volume operado em segmento contabilizando U$ 749 milhões. Em futuros se moveram U$ 558 milhões.
Tudo indica que a semana terminará com outra rodada de dólar nas alturas.
Paralisia, perplexidade e déficit zero em 2019

O ministro da Fazenda, Nicolas Dujovne teve também sua contribuição ontem à perplexidade generalizada. Na Casa Rosa, o ministro falou pelo segundo dia consecutivo ante a imprensa, se esquivando de definições sobre novas medidas. “Estamos convencidos de que esse nível de tipo de câmbio exagera os fundamentos da economia argentina” afirmou, em uma opinião que claramente não é compartida pelo operadores, dispostos a comprar dólares no nível atual para seguir se livrando das suas posses em pesos argentinos.

Reconhecendo o que é evidente, que “há um processo hoje de desconfiança na economia argentina”, Dujovne postergou até semana que vêm qualquer anuncio sobre o novo roteiro que estaria preparando o governo argentino como parte da versão 2.0 do acordo com o FMI. “Está próxima segunda durante a noite vou viajar com minha equipe para a cidade de Washington para seguir avançando na equipe técnica do que já foi anunciado pelo presidente”, afirmou. Concluiu que “vai haver mais detalhes em breve e esperamos também que esse entendimento técnico possa avançar rapidamente para poder também conhecermos os detalhes dos desembolsos de fundos o mais rápido possível”.

Essas palavras prenunciam que sexta-feira será outra jornada de tormentos. Dujovne reafirmou o que disse Macri na quarta-feira: o acordo vigente com o FMI naufragou, e o governo transita sem rede o caminho até um novo acordo, uma versão revisada do anterior, mais generosa em matéria de gastos, mas que por enquanto só conta com o compromisso da diretora do organismo Christine Lagarde.

A única pista que Dujovne deixou é a que quase todos os analistas davam por descartada, e é que a reformulação do acordo virá com uma meta fiscal ainda mais agressiva. É que, segundo o ministro, estão “convencidos de que a maneira em que vão reestabelecer a confiança é estar menos exposto a volatilidade do mercado”, o que “se conquista reduzindo a quantidade de fundos que temos que financiar”.
O déficit zero, projetado há alguns meses para 2020, será agora uma meta para o próximo ano. Como poderia alcançar semelhante objetivo, resulta ainda uma incógnita que Dujovne ainda não revelou. Mas podemos antecipar que inclui novas medias do Estado contra os trabalhadores, um freio total das obras públicas (que já estava previsto redução em 2019 a metade do gasto em 2018, e que já é 50% menos do que o gasto em 2017), e novas tentativas de modificar as principais fontes de gastos: previdências e atribuições.

Voltaram a aumentar os impostos para suavizar parte dos cortes de gasto necessários que se requer para cumprir essa meta mais exigente? Até agora, é pouco e nada do que o governo aceitou fazer nesse terreno. Não se imagina que se corte em nenhum momento nenhuma parte da formidável transferência de riqueza que o governo permitiu esses anos todos, cortando medidas que cobram impostos dos mais ricos.

Entre aqueles cujo os interesses o governo não quer afetar, se encontro o agropower, que com o dólar atual se prepara para obter lucros imensos na próxima campanha. A administração de Macri persiste, ainda em meio à crise, em manter um claro esquema de ganhadores e perdedores. Sabemos de que lado está a maioria constituída pela classe trabalhadora. O custo de vida aumenta ao ritmo do dólar, e os salários vem na corrida por debaixo. Segundo avaliou Daniel Schteingart, os salários em dólares no último ano “subiram 24% contra uma inflação de 31% e um dólar que bateu os 135%”. Suavizados para benefício dos empresários. Não surpreende que ontem, na contramão do panorama geral, as ações de algumas empresas exportadoras e do setor energético empurraram a bolsa portenha a uma alta de 5%.

Vítimas do esvaziamento

O anúncio realizado quarta-feira por Macri foi como despejar nafta no fogo, por que deixou em evidência que o governo apenas contará com os dólares, contribuídos pelo FMI, para cumprir os compromissos da dívida em 2019. Ou seja, não conta com garantias para a dívida soberana para além do ano que vêm, nem tampouco pode assegurar os dólares que necessita o conjunto da economia.

O déficit de conta corrente (o faltante de dólares que perde a economia sobre os que gera a economia nacional), que segundo o último dado disponível (primeiro trimestre) alcançou um montante anual de U$ 34 milhões. Com a mega desvalorização em curso essa brecha vai se reduzir, por efeito da recessão em que já entrou a economia (e que com taxas de interesse de 60% e inflação de 40% ou mais se agrava a cada dia) e o aprisionamento de bens e serviços do exterior, com a saída de capitais, não fazem mais que se acelerar: nos primeiros 7 meses do ano, a fuga foi de U$ 20 milhões de dólares.

O endividamento do governo tomado em moeda estrangeira, que supera os U$ 100 trilhões, aponta não só para financiar o tesouro (em grande parte para pagar a dívida), senão também para conseguir esses dólares que demanda a economia. Também para isso serviu a manobra financeira que armou o ex-chefe do BCRA, Federico Sturzenegger, e que ficou marcado pela corrida cambiaria.

A gangrena de dólares do déficit externo, que é constitutiva do desenvolvimento da economia nacional, não se encontrará garantida pelo prometido adiantamento de gastos do FMI. Ante o fechamento de mercados de crédito para o governo (e também para as empresas), não está claro de onde poderão surgir. Esse faltante faz girar a fuga dos especuladores dos ativos argentinos. Essa é a parte da crise que omitem aqueles que explicam os problemas do país pelo déficit fiscal.

E a isso ainda se soma o peso da dívida, que com o passo da desvalorização, cresce em relação ao tamanho da economia (cai a economia em dólares enquanto a maior parte da dívida é nominada em dólares): ao final deste ano, pode superar 70% do Produto Interno Bruto (PIB).

Winter is coming (O inverno está chegando)

Os últimos dados conhecidos, para o mês de junho, mostraram uma economia em uma caída vertiginosa (-6,7%). Nesse momento o dólar havia recorrido apenas um pequeno período de aumento que teve durante o ano. A taxa de interesse de referência, no entanto, estava próxima dos 30%, e os prognósticos de inflação seguiam indicando um aumento de preços para todo o ano em pouco mais de 30%
Hoje, com o dólar em um intervalo de $ 40 pesos, a taxa de interesse de referência em 60%, e a inflação projetada para o ano se movendo por cima dos 40% anual, as perspectivas são muito mais inquietantes.

A projeção do acidente de 1% que administra o governo se volta como cada vez mais improvável. Mas tudo isso poderá se ver logo em futuro hoje incerto: quando terminar a corrida. No plano imediato, com o dólar voando, toda a economia se encontra paralisada. As listas de preço estão em estado de revisão permanente, as cadeias de abastecimento estão em stand by. As concessionárias deixaram de entregar veículos até novo aviso.

Dujovne proclamou que “não há outra maneira” que não seguir com o caminho travado pelo Cambiemos (partido de Macri). Mas isso é falso desde a raiz. A crise que transita pela Argentina é resultado do endividamento em série encarado pelo governo, e dos desequilíbrios que assolam o capitalismo argentino, que são resultado das condições de dependência que caracterizam estruturalmente a economia Argentina. Macri agravou a exposição às mesmas quando eliminou qualquer restrição para entrada e saída de capitais, mas as mesmas consequências também pesaram sobre a economia nacional durante os anos kirchneristas, apesar dos que afirmam alegremente o contrário.

Tradução: Rafael Barros




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