Opinião

OPINIÃO

Dólar a quatro reais: algumas importantes contradições na economia

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sexta-feira 4 de setembro de 2015| Edição do dia

Neste artigo queremos mostrar de forma inicial o que a desvalorização do real impacta no dia-a-dia do trabalhador e que importantes contradições, dependendo de como se desenvolverem estas tendências podem acarretar na economia do país. E estas mesmas contradições tendem a ser encaradas pelo governo Dilma e governos estaduais e municipais aprofundando uma política de jogar nas costas dos trabalhadores esta crise.

Há setores empresariais que lucram muito com esta desvalorização, mas este não será um tema deste artigo, que focará no que o real fraco agrega de contradições na economia e como podem impactar na vida dos trabalhadores.

Antes de analisar estas tendências vale a pena analisar as tendências e motivos para desvalorização do real.

Com prováveis oscilações, o real fraco veio para ficar

A cotação oficial da moeda nacional ainda não atingiu os quatros reais que dá o título deste artigo, porém numerosos analistas já apontam esta tendência. Evidentemente há um componente especulativo, de aposta de grandes investidores contra ou a favor de uma moeda todo momento que torna menos “racional” prever o comportamento de uma moeda. Por exemplo, o bilionário George Soros se fez famoso muitos anos atrás por ter feito uma aposta tão alta contra uma das mais moedas estáveis do mundo, a libra esterlina do Reino Unido, que esta se desvalorizou.

Em um país como o Brasil, onde há um imenso fluxo de capital especulativo este fator não é desprezível. Justamente por que o país se tornou nos últimos anos um dos principais focos mundiais de investimento estrangeiro, sendo o sexto maior recebedor de investimentos estrangeiros segundo relatório emitido por agência da ONU em junho deste ano (UNCTAD). Parte deste capital entra sem tocar nenhum processo produtivo, mas fica só no “jogo” da bolsa, da moeda, e do mercado de dívidas públicas e privadas, portanto o comportamento dos fluxos de capitais, seja os que entram na produção ou os diretamente especulativos, são ambos muito importantes para sua cotação.

No mercado de câmbio, nos editoriais econômicos dos grandes jornais burgueses no país há um clamor para que o governo intervenha no câmbio gastando parte das reservas internacionais (atualmente em mais de US$ 370 bilhões) para vender dólares e baixar seu preço. Evidentemente que este “clamor” tem algo mais que interesse macroeconômico dos articulistas, a compra de dólares a R$ 3,50, por exemplo, para venda depois a R$ 4,00, gera bons lucros.

Se o governo Dilma e o Banco Central (BC) tomar esta medida de venda de dólares é provável que a cotação do dólar baixe, porém, todas tendências apontam a que volte a patamares elevados depois da intervenção do governo. Por que?
A crise política e o cenário econômico nacional e internacional pressionam a moeda a se desvalorizar.

A apresentação de um orçamento para 2016 deficitário, as dificuldades do governo para passar algumas medidas no Congresso, as incertezas políticas oriundas de votações no Congresso que aumentam os gastos públicos, as incertezas oriundas da Lava-Jato, a situação de poderosas empresas nacionais atingidas por esta operação como a Petrobrás, Odebrecht, Câmargo Correa, bem como a generalizada recessão e queda na produção na indústria são todos cenários “menos atrativos” para entrada de capitais estrangeiros no país, salvo se o Brasil ficar muito “barato” para os estrangeiros, o que ainda está longe de ser o caso em termos de comparação com os países asiáticos ou frente às maquiladoras mexicanas. Mesmo assim, mesmo com a crise política e recessão algumas importantes empresas imperialistas estão investindo no país, porque mesmo com todas contradições o país é um grande mercado consumidor e pode servir de plataforma para exportação no cone sul e outras regiões.

No “front” externo a situação não vai nada melhor no médio prazo. O principal comprador de produtos exportados pelo Brasil, a China, está com sua economia desacelerando e sofrendo violentas oscilações nas bolsas de valores. A China como principal mercado “emergente” do mundo ao oscilar faz com que investidores que tenham perdido dinheiro na China não se “arrisquem” tanto em outros mercados emergentes, como o Brasil e procurem portos mais seguros para seus capitais, como os EUA, Alemanha. E para agravar esta tendência a saída de capitais dos países emergentes, os EUA tem previsto um aumento em sua taxa de juros.

Quando os EUA aumentam as taxas de juros, capitais que não estavam comprando títulos da dívida ianque passam a compra-la, saindo de outros países onde estavam, pois a dívida dos EUA se torna mais rentável. Com estas tendências a pressão sobre o real é de desvalorização, ocorram ou não oscilações prolongadas de valorização por diversos fatores internacionais ou nacionais como a possível intervenção do BC.

Como que a desvalorização do real já afeta a vida do trabalhador: inflação

Muitos produtos que o trabalhador consome tem preços diretamente dolarizados ou que tem em seus custos de produção insumos importados, quando o real desvaloriza estes insumos e produtos ficam mais caros e sempre que for rentável os empresários repassam estes aumentos de custos ao consumidor. Isto gera inflação. Que tipos de produtos estamos falando?

De celulares e carros a macarrão e pão, passando pela carne e vários outros produtos agrícolas e até mesmo a energia elétrica e os combustíveis.

Os produtos eletrônicos e os carros quando não são diretamente importados tem variados componentes importados, estes ficam automaticamente mais caros em real quando o real desvaloriza (o preço ficando estável em dólar, precisa de mais reais para pagar o mesmo produto). O mesmo vale para os produtos que tem o trigo como base, pois o país importa a maior parte do trigo que consome. Mesmo que a importação venha de nossa vizinha Argentina e mesmo que seja paga em reais é paga levando em consideração uma cotação internacional do trigo, em dólar.

Os produtos agrícolas que o país especializou-se em exportar, como carne bovina, suína, de frango, soja, milho, todos tem preços internacionais cotados em dólar. Para ser lucrável vender aqui no Brasil o preço tem que acompanhar a valorização externa. Agrava a pressão nos produtos agrícolas o fato que a maior parte dos fertilizantes e outros insumos é importada, então os custos em real também ficam mais caros.
Na energia o mesmo acontece. Uma parte da energia brasileira é comprada do Paraguai em dólar. Os combustíveis que consumimos são parcialmente importados também pois a Petrobras não é auto-suficiente em derivados. E estes produtos são importados. Por muitos anos a Petrobras segurou os preços dentro do país mesmo quando havia valorização lá fora, hoje em meio a crise e preparação de privatização parcial da mesma não parece que o governo Dilma pretende continuar, ao menos na mesma proporção, esta política. Uma primeira mostra disso foi o aumento anteontem do gás de cozinha em 15%.

Em resumo o trabalhador brasileiro que nunca foi ao exterior nem nunca viu uma nota “verdinha” também é afetado, esta desvalorização e tendência a desvalorização aumenta a inflação no país. E isto significa uma desvalorização do salário, porque se o salário segue igual mas os produtos que compramos aumentam de preço cada mês podemos consumir menos.

Outra contradição na economia: a dívida pública e maiores pressões para maiores ajustes

Uma imensa parcela do orçamento do país é consumida em pagamento de juros e prestações da dívida pública. No orçamento federal 45% de todos gastos tem este destino. Todo o ajuste fiscal visa economizar em todos lugares para honrar o que tanto PT como PSDB priorizam, que é pagar estes 45%. Lembremos que em junho de 2013, em meio as manifestações Dilma reuniu todos governadores para fazer uma série de “pactos” e o primeiro deles era a chamada “responsabilidade fiscal”, que é exatamente isto, regras e leis para fazer de tudo para pagar a dívida primeiro e depois todo o resto.

Com um real desvalorizado a quantidade de reais necessária para pagar esta dívida cresce. Por que? Por um lado uma parte da dívida é externa, já está vinculada em dólares. Atualmente a dívida externa brasileira é de US$ 348 bilhões, sendo US$ 212 bilhões de dívidas de empresas brasileiras e o restante dos governo federal, estaduais e municipais. A maior parte da dívida que os governos tem no país é em real, porém, uma parcela desta dívida tem seus juros vinculados a variação do câmbio, então por mais que sejam em real e determinadas por leis nacionais, para honrá-las é preciso pagar na Bovespa tal como se fosse Wall Street.

A fatia da dívida externa ou da interna atrelada a variação cambial que o governo federal deve não parece, ainda, caminhar a uma situação “grega” ou do Rio Grande Sul, porém, com este aumento de gastos para hornar a dívida o que podemos esperar de Dilma e Levy é uma maior pressão de ajustes contra os trabalhadores.

A dívida de estados e municípios pode aumentar os cortes e até mesmo levar alguns estados à quebra

A parcela de dívida externa de estados e municípios é em geral bastante baixa, estando em média em 13% do total de suas dívidas conforme análise da agência de avaliação de riscos Fitch. Porém, em alguns casos a proporção é bastante maior, no Amazonas e na Bahia alcança 40%. Qualquer aumento na desvalorização do real tende a colocar estes dois estados em difíceis condições de honrar suas dívidas em dólar, ou a forçar o governo federal, que também tem suas dívidas aumentando a ter que ele assumir o pagamento pelos governos estaduais.

Em alguns outros estados, mesmo que a proporção seja baixa como no Rio de Janeiro e Minas Gerais (10% e 11% respectivamente) são estados que já estão enfrentando dificuldades de honrar seus compromissos desde o começo do ano e qualquer piora em seus gastos coloca em risco seu seguimento da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Sem arriscar nenhuma previsão de que o cenário de não pagamento dos juros da dívida ao governo federal e ao mesmo tempo atraso e parcelamento de salários como no Rio Grande do Sul, a desvalorização do real e o aumento do endividamento em dólares por parte dos estados coloca maiores pressões também aos governos estaduais aprofundarem os cortes, aumentando a recessão e sacrificando os direitos sociais como saúde, educação, as condições de trabalho do funcionalismo às custas fazer eles também o que é sua prioridade, pagar os banqueiros nacionais e estrangeiros detentores de suas dívidas. A desvalorização do real aponta a diversos estados e municípios tendências “gaúchas” ou parananense onde um agressivo plano de “ajustes” local despertou uma histórica greve do funcionalismo.

O elo pouco conhecido da dívida externa: o elo privado pode ser o mais fraco?

A maior parte da dívida externa do país é, conforme mostramos anteriormente, privada, alcançando US$ 212 bilhões. Com receitas em queda devido a contração da economia nacional e queda no preço de suas exportações (em dólar as commodities estão caindo devido a tendência a queda nas compras da China, porém em real subindo devido a desvalorização do real) poderiam algumas gigantes nacionais se tornarem um elo débil da economia nacional?

No auge dos impactos da crise em 2009 o governo federal precisou intervir para salvar algumas empresas como a BRF e Aracruz Celulose, injetando capitais do BNDES e forçando fusões de empresas. Sob a pressão dos mercados internacionais e suas ações de “ajuste” o governo tem muito menos margem de manobra em 2015 do que tinha em 2009, o que coloca em questão que se situações de quebra voltarem a se apresentar o governo assumirá contradições para si em momentos que não pode arcar com elas, ou permitiria o mercado agir “livremente” quebrando gigantes e jogando mais dezenas de milhares no desemprego?

Algumas gigantes nacionais estão entre as empresas mais endividadas em dólar. As informações de empresas privadas são mais difíceis de obter, ainda mais porque algumas não tem seu capital aberto como a holding familiar que detém as ações da Odebrecht, porém a maioria dos analistas citam algumas gigantes como Petrobras, Odebrecht, Camargo Correa, JBS, BRF, Itaú, e diversas operadoras de gás e eletricidade, como empresas que teriam dívidas bilionárias em dólares. Algumas destas empresas tem o agravante de estarem envolvidas na operação Lava-Jato e poderão sofrer proibição de participar em novas licitações pública, afetando fortemente suas receitas.

Sem poder prever com detalhes quais empresas terão maior dificuldade, o que ultrapassa também os limites iniciais deste artigo, o que é ainda mais complicado de prever porque algumas destas empresas podem ter “seguros para o câmbio” (os chamados hedges), o aumento do endividamento privado externo nos últimos anos é muito maior do que em 2009, e o real está com uma pressão desvalorizadora maior hoje do que em 2009. De 2008 a 2014 a dívida privada em dólar cresceu 130% segundo a Fitch, portanto os riscos deste elo ser um elo débil hoje são bem maiores.

A modo de conclusão: se depender de empresários e governantes pagaremos ainda mais pela crise

O que estes apontamentos significam para os trabalhadores? A depender das empresas, demissões, fechamento de unidades e até mesmo falências. Ou seja tanto no lado “privado” como no lado “público” a depender de empresários e governantes o cenário que está apontado com a desvalorização do real é de maiores ataques à classe trabalhadora e o conjunto da população.

O que havia de mais sólido dos anos anteriores, a certeza de uma economia em expansão, está se correndo tanto aqui como na China.

Este alerta feito nestes breves apontamentos constitui um “programa de estudos” para analisar mais detidamente que neste artigo as tendências na economia de cada estado, empresas importantes, mas também um desafio político. Cada uma destas tendências que estão colocadas se constituem também como um maior desafio político à classe trabalhadora e à esquerda que se reivindica revolucionária. Não só pela crise política e pelos ajustes de Dilma, do PT, de Renan, Cunha, dos governos estaduais tucanos, mas pelas tendências a deterioração da economia nacional que faz falta emergir um pólo classista que pese na luta de classes, apoiando e desenvolvendo as lutas em curso, e contribuindo para que duras lutas como as que foram travadas na Mercedes, no Paraná, ou agora no Rio Grande Sul encontrem vitórias e multipliquem a confiança da classe trabalhadora em suas forças.




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