Sociedade

ARGENTINA

Dois jovens de periferia presos por cultivar Cannabis medicinal

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 24 de novembro| Edição do dia

Dois jovens de família muito pobre da periferia de uma cidade da província de Córdoba, na Argentina, cultivavam uns poucos pés de maconha em casa, com os quais produziam óleo e distribuíam, GRATUITAMENTE, para pessoas enfermas que dele faziam uso, inclusive a mãe deles, que relata melhora de um problema do joelho ao usar o creme do óleo de Cannabis. Outra mãe, tirou sua filha de um estado de convulsões epilépticas apenas fazendo uso do óleo de Cannabis, seu relato em vídeo circulou amplamente nas redes sociais da Argentina. [Confira o vídeo ao final desta nota].

O resultado não se fez esperar: antes que os jovens começassem a curar em maior escala, foram presos, de forma arbitrária e truculenta, ao mesmo tempo em que aparecia advogado exigindo 8 mil dólares, para acompanhar o caso. Como já foi assinalado, a família é paupérrima, os dois amigos vivem de bicos, cortando grama aqui e ali, o pai de um deles está enfermo, a mãe recebe uma miséria de aposentadoria, a família do outro jovem é igualmente pobre. Os dois agora foram sumariamente lançados na penitenciária, na rubrica de narcotraficantes, coisa que não são segundo mãe e familiares.

Sim, certamente é uma história chocante.

E mais ainda se atentamos para o depoimento da própria mãe de um deles, em entrevista ao La Izquierda Diário argentino [da mesma rede internacional de jornais à qual pertence o Esquerda Diário]:

“Meu filho estava ajudando às pessoas, meu filho é tão pobre que eu mesma tive que comprar sua passagem para ele ir a Córdoba e voltar, também para comprar o álcool para ele fazer o óleo, as seringas, as vasilhas, tive que lhe emprestar meu cartão de metrô porque nem isso ele tinha. Meu filho e seu amigo vivem de fazer bicos, vender quentinhas, cortar a grama de outras casas, de aceitar qualquer trabalho para viver. E ajudam aos mais carentes que nós, há testemunhos sobre isto. [...] Quando ele tinha 15, 16 anos me dizia que infelizmente ia me decepcionar como mãe, porque não chegaria a ser engenheiro e nem nada do uma mãe deseja, mas me dizia que ia se dedicar a curar as pessoas”

Ela continua, explicando que o óleo de Cannabis produzido pelo filho funcionou em muitos casos. “Eu mesmo não acreditava em meu filho mas hoje me dói a alma porque estou me curando de um problema no joelho com o creme que ele me deixou. Eric me pedia dinheiro emprestado para comprar seringas, para poder levar óleo para a casa de pessoas carentes. Sempre grátis. E existe o testemunho de Melody, o caso que se tornou público porque sua mãe fez aquele vídeo. E outros casos estão aparecendo.

As pessoas procuravam meu filho e lhe pediam os produtos. Ele lhes explicava que tinham que perguntar ao médico, e os médicos diziam que sim, e ele ajudava. Mas nenhum médico vai aparecer agora e dizer que fez isso, porque todos os médicos falam essas coisas por baixo do pano, porque têm medo que sua licença como médico possa ser cortada, já que se trata de uma substância que está proibida. [...] Mas teve o caso de uma mulher, a quem lhe retiraram as mamas e começou a supurar [e ia ter que ser operada], Eric lhe deu um creme e antes de se operar ela usou esse creme e cicatrizou por completo. E a doutora lhe disse que continuasse com o creme, que estava perfeito”.

A mãe de Eric vem procurando contatos, conversando com as pessoas, indo e voltando à penitenciária onde está seu filho e o amigo dele, e denuncia a forma elitista e hipócrita como é tratado o problema da Cannabis pelas autoridades do seu país:

“Atualmente há médicos que receitam o óleo de marijuana para enfermidades como a epilepsia refratária, no entanto, o único óleo que pode ser comprado na Argentina vem dos Estados Unidos e custa caríssimo. [...] Nas marchas pela legalização da marijuana fui conhecendo muitos casos de pessoas enfermas que [usam esse óleo], do grupo MamaCultiva. O óleo só entra no país a partir dos Estados Unidos, é o único que permitem que seja comercializado, pedem de 800 a 1200 dólares por seringa e só pode comprar com prescrição médica com uma ordem de um juiz. Isso é que me parece ridículo: você pode importar aquilo que aqui é proibido, e o óleo que trazem para cá não é puro. E demora muito e vários pedidos não são aceitos. Não entendo porque fazem isso. Não custa um peso ao Estado quando uma pessoa faz cultivo próprio para uso medicinal. O que vejo detrás de tudo isso são interesses econômicos muito grandes. [...] A maioria dos senhores [da elite] fumam das melhores flores de marijuana e quando falam publicamente, saem com discursos moralistas, perdem sua autoridade”.

Esses são os dados do noticiário, da entrevista da mãe do Eric Pascottini [amigo de Nicolás Tverdovsky], ambos cumprindo prisão preventiva na penitenciária de Cruz del Eje, província de Córdoba.

Certamente tudo isso dispensa argumentos.

A título de conclusão, vejamos três destaques.

Primeiro: um ou outro país se vangloria de ter “liberado” um produto da marijuana para fins medicinais; como regra é uma notícia que, no entanto, encobre dois fatos essenciais: quando chegam a liberar, se trata de uma molécula patenteada, lucrativa para a indústria farmacêutica; nunca liberam o óleo, amplamente divulgado lá fora como a fração da planta à qual se atribui mais poder medicinal.

Segundo: os interessados no tema não devem deixar de ler o projeto de lei dos deputados do PTS argentino, Nicolás del Caño, M. Bregman, que disponibiliza o uso medicinal e recreativo da Cannabis e que se aprovado impediria qualquer punição contra quem cultivasse a planta para fins medicinais ou para próprio uso. Acaba com aquilo que Elvira, a mãe de Eric, chamou de hipocrisia e moralismo das autoridades.

Terceiro: alguém, de sã consciência imagina que, no Brasil, teremos uma solução para esses problemas, sem que os trabalhadores e, em especial, os trabalhadores da saúde, se levantem em luta por um sistema de saúde público, universal, gratuito e de qualidade para todos e também em defesa do direito ao próprio corpo, ao aborto, à escolha do tratamento para o câncer que a pessoa decidir, a exemplo da fosfoetanolamina [com acompanhamento médico], e em defesa do controle do sistema pelos próprios trabalhadores? Não custa perguntar.

A entrevista da mãe dos dois rapazes está disponível no site do LID: Para quem se interesse, confira o vídeo daquela mãe, argentina, que reporta ter tratado o estado de paralisia neurológica do seu filho com o óleo de Cannabis:

VIDEO -




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