Teoria

FIDEL CASTRO

Dois grandes fatos sobre Fidel Castro que você precisa levar em conta

Gilson Dantas

Brasília

domingo 27 de novembro| Edição do dia

Morre o homem, a lenda ganha as alturas: Fidel Castro desaparece como viveu, despertando paixões, polêmicas e loas. Hoje, dia do anúncio da sua morte, o mais frequente nos meios da esquerda brasileira são os elogios ao mito, à lenda, ao revolucionário que, no dizer de F. Morais, “chacoalhou o mundo” a partir de uma pequena ilha no Caribe.

Na outra ala do espectro, de Bolsonaro a D. Trump, a avaliação é diferente: o “ditador brutal” já vai tarde. O que não se vê, em absoluto, é indiferença. Não é possível ser indiferente com Fidel Castro, com as conquistas da revolução cubana.
De tudo que possa ser dito sobre Fidel e a revolução cubana, ao menos alguns elementos serão destaque nesta nota. Vejamos.

1- Fidel Castro foi um ícone, uma lenda e um mito para a esquerda latino-americana. E um marco indelével, uma janela de esperança social na sofrida história dos povos da América Latina.

Sim, a verdade é que qualquer historiador mais objetivo, já nem precisa ser revolucionário, muito menos castrista, mas apenas minimamente fiel aos fatos históricos, vai resgatar Fidel como um dos mais influentes lideres revolucionários da América Latina, sobretudo naqueles anos 1960/70.

A força da lenda Castro [e, fora de questão,do Che] vem das grandes massas que foram postas em movimento e levantaram o primeiro país socialista [na verdade um Estado operário deformado] da América Latina. Aliás, ali se expressou, com toda força, o inabalável potencial revolucionário e emancipador das massas pobres e trabalhadoras da nossa região. Além de tomarem o poder, de empurrarem a direção cubana a avançar contra o imperialismo e a burguesia local, resistiram a todo tipo de sabotagem, guerra, e ao criminoso e continuado bloqueio comercial, a períodos de privações [mais ainda no “período especial” do início dos anos 90, depois do fim da URSS] sem vacilar um momento de que estavam fazendo história, estavam levando adiante uma conquista social para toda a América Latina; e Fidel, à sua maneira expressou tudo isso, resistindo por longo tempo à potência imperial mais bem armada do mundo, em um minúsculo espaço geográfico e a poucas milhas do Império.

Claro que, nesses marcos, Fidel se tornou o referente que seduziu gerações inteiras de esquerda, nos anos 1960/70, e quem vai negar que foi o processo revolucionário cubano, liderado por Fidel e Che, que lançou Cuba no mapa-mundi? Ou alguém hoje falaria de Cuba se ela tivesse continuado nas mãos do capital e seus agentes diletos, os Fulgêncios Batistas? Hoje seria um Haiti, e apesar de sua história de lutas,o Haiti só chama a atenção por todos os tipos de catástrofes sociais e sanitárias impostas pelo imperialismo [incluindo uma semicolônia subalterna como o Brasil, cujas tropas ocupam militarmente as favelas de lá].

Não custa lembrar que naqueles anos 60, o mundo dançava ao ritmo das revoluções e o carinho popular de todo o espectro de esquerda por Cuba tem muito a ver com o fato de que ali,nós, latino-americanos, tínhamos, pela primeira vez, uma revolução para chamar de nossa. E Fidel, “mito” de uma esquerda que sempre transcendeu o PT, concentra esses e outros elementos. E também contradições, como veremos mais adiante.

Seguramente vão chover nas redes sociais comentários a partir de cidadãos do perfil “coxinha”, [da classe média que apoia o golpista Temer], que vão copiar e colar o que já esbravejou D. Trump: “Fidel ditador brutal!”

Pois bem: eles gostam de se colocar nessa perspectiva, do tipo somos os democratas e Fidel o ditador, somos o liberalismo ocidental e lá a prisão; só que quanto mais alto eles falam, quanto mais repetem esse estribilho, mais fica claro que precisam esconder alguma coisa grande. Ou seja, querem tirar da paisagem o papel, nada liberal e totalmente ditatorial de todos os presidentes dos Estados Unidos, inclusive J Kennedy, que criaram calos nos dedos de tanto tentar matar Fidel. Que sistematicamente desfecharam operações contrarrevolucionárias contra o povo cubano, que tentaram por todos os meios, principalmente golpeando abaixo da cintura, quebrar Cuba e eliminar Fidel [como fizeram com Che].

Mas não foi somente contra Cuba: as “democracias ocidentais”, imperialistas, usando métodos ditatoriais brutais [tipo anos de chumbo no Brasil], não permitem que nenhum povo se emancipe. Se depender dos “democratas” da ordem, teremos um mundo de escravos desescolarizados sonhando com o modo de vida dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, nada de revolução social conduzida por seu próprio povo. Tentaram isso com a revolução russa, invadida por todas as “potências democráticas” do mundo capitalista. Seus métodos contra qualquer legítima revolução social são SEMPRE ditatoriais. Quem está fora da foto, portanto, nesse caso, é Trump e seus admiradores.

Não esqueçamos, nunca, que de armas em punho, sabotando de todo jeito que puderam [sempre com a grande mídia a tiracolo], esmagaram o governo democrático de Allende, em 1973, ajudaram a detonar o governo democrático burguês de João Goulart no Brasil em 1964. E pior, ao contrário de Fidel, estamos diante dos ditadores mais bem armados do mundo. E o que explica parte da lenda de Fidel é justamente que seu povo resistiu a tudo isso. E durante todo um tempo Fidel não abandonou seu posto de chefe de Estado anti-imperialista.

Mas é preciso ir além e tentarmos entender o seguinte: por que a democracia norte-americana nunca deixou Cuba em paz? Por que, à sua maneira, brutal, continuaram a alimentar aquela lenda? De onde vem essa obsessão ideológica compulsiva , de carimbar a revolução cubana de ser dirigida por um ditador para assim desviar a discussão enquanto tratavam de destruí-la? E por que são tão recatados em comentar o apoio que dão a suas ditaduras de aluguel, por exemplo, na África? Ou ao Estado terrorista de Israel? Será pelos defeitos do regime cubano, ou pelas qualidades da revolução cubana?

Provavelmente para despistar da verdadeira discussão sobre o significado das conquistas da revolução cubana; ou de que Cuba – no dizer de Michael Moore – cercada e sabotada pela maior potência do mundo, levantou um sistema de saúde público e universal superior ao dos Estados Unidos. Como dizia Fidel: os Estados Unidos são um grande país, mas “quando troca de presidente só troca de coleira”; carrega milhões de excluídos nas costas, quando em Cuba nenhuma criança dormia com fome. Ou seja, parece claro que é preciso manter na sombra as conquistas das primeiras décadas da revolução cubana. E isso por uma razão ainda mais profunda, de algo que incomoda bem mais: os métodos de Estado operário. Sim, porque, na verdade, o que mais incomoda são os métodos usados para resolver o problema sanitário, por exemplo, ou seja, os métodos da revolução socialista: estatização do capital imperialista, da burguesia local, reforma agrária, planificação da economia. Resumindo: Cuba é um mau exemplo; por isto e não pelo ditador.

Incomoda a qualquer “coxinha”, a qualquer batedor de panela, ter que ouvir que Cuba só saiu da condição de bordel dos Estados Unidos porque usou métodos da revolução socialista. Mesmo usados pela metade, o fato é que a pronta eliminação da burguesia do espaço cubano e a planificação da economia já deu aqueles frutos. Imaginemos se Fidel Castro e seus companheiros não tivessem impedido -e sejamos honestos: sempre o fizeram - que os trabalhadores cubanos se desenvolvessem como sujeito político!

E precisamente aqui se encontra o lado sombrio da lenda. Ou o elemento que a esquerda, amplamente, sobretudo a petista, elude ou mitifica todo o tempo: Fidel não se deu ao papel revolucionário de desenvolver o potencial emancipador das massas cubanas. Não levantou e nem permitiu um único órgão de massas realmente deliberativo, nem de empresa e nem soviético. Não permitiu a liberdade de tendências de esquerda, o pluralismo político de esquerda, anticapitalista, tudo isso foi deliberada e sistematicamente bloqueado e tratado de forma policial pelos irmãos Castro. Incluindo aqui a repressão homofóbica, feita em defesa da cultura patriarcal típica do capitalismo e também típica de toda burocracia.

O problema então não é de fracasso do socialismo, como insinua certa mídia, a mesma que, convenientemente, fala apenas da “morte do ditador”.

Que socialismo? O problema é de socialismo de menos; de desvio e degeneração do projeto socialista que, na verdade, Fidel nunca teve; prova disso é que se apoiava nas massas contra os Estados Unidos, mas ao mesmo tempo, como todo bonapartista, impedia, travava e reprimia qualquer organização independente dos trabalhadores. Seus parceiros tipo Chávez também rezaram nessa cartilha. Mesmo que falem 24 horas em nome de Marx ou do socialismo, seus regimes nada têm a ver com o regime político na perspectiva de Marx e do socialismo.

Pois bem, esse elemento da mitificação de Fidel, na condição de fetiche intocável de certa esquerda, se não for debatido abertamente, sem neura, jamais entenderemos o fenômeno da volta de Cuba ao capitalismo, pelas mãos do mesmo castrismo. É preciso entender a lenda, decifrar o enigma da lenda, de forma que a esquerda aqui construa sua independência política, de classe.Fidel foi contraditório, se queremos ser diplomáticos, mas é muito mais: na verdade, não podemos educar uma nova esquerda na ideia de socialismo sem sovietes, sem comitês de fábrica, sem democracia pela base, sem pluralismo de correntes anticapitalistas e este foi precisamente o lado sombrio e burocrático de Fidel Castro que pôs a gloriosa revolução cubana em marcha-a-ré.

2— Fidel deixou um legado de resistência ao imperialismo por décadas e de apoio a governos progressistas, a exemplo de Allende e do próprio Chávez.

É um fato. E a resistência cubana ao imperialismo faz parte do potencial revolucionário que todos os povos que tiveram chance [lembremos os palestinos, os vietnamitas e a lista é longa] já demonstraram contra o inimigo imperialista. Até porque, a verdade é que “todos os inimigos podem ser vencidos”, como dizia o próprio Fidel. Esse potencial existia na revolução venezuelana, na nicaraguense, na chilena e assim por diante. Onde está a ironia?

Está em que a política de Castro colaborou ativamente para desviar aquelas revoluções. Na Venezuela as massas tinham a riqueza do petróleo e estavam em uma maré francamente revolucionária: o que não encontraram foi a direção política à altura. E, vale repetir, os conselhos de Fidel a Chávez, de ir por etapas, de governar para ricos e pobres [na verdade dando passagem a uma gorda burguesia “bolivariana” que agora quer o governo de volta para si], enfim, o ideário baseado na conciliação de classe, era, na verdade, o único conselho que esses povos não precisavam. Eles tinham melhores condições revolucionárias que Cuba, mais meios econômicos, mais peso proletário, por que ficar marcando passo na etapa de colaboração de classe?

Mas essa era a orientação de Fidel: não aconselhou Allende, Chávez e os nicaraguenses [Ortega] a levantarem organismos de auto-atividade de massas, deliberativos, e isso em meio a um processo revolucionário... E nem entremos no fato de que Fidel também estimulou o foquismo na América Latina, uma estratégia destinada ao fracasso e, na melhor das hipóteses – casode Cuba – a levantar um Estado operário deformado [porque exclui aos trabalhadores e camponeses pobres de sua condição de sujeito político e põe em seu lugar o partido-exército e sua estratégia não-soviética].

Como resumo daquela desorientação estratégica de Fidel, se pode argumentar o seguinte: em nossa época imperialista, as “etapas” democrática e socialista da revolução são inseparáveis uma vez que as burguesias nativas [coloniais e semi-coloniais] são servis ao imperialismo, indissociáveis dos interesses imperialistas, caso explícito de Cuba, Venezuela, Chile e assim por diante. Ou seja, as tarefas da revolução “democrática” só podem ser levadas adiante, só triunfam de fato, através da vitória da revolução socialista e, portanto, da instalação de um governo dos trabalhadores em ruptura com o capitalismo, dinâmica [da revolução permanente] que Fidel invariavelmente se empenhou em impedir e travar burocraticamente.

A verdade é que as massas revolucionárias da América Latina, que almejam construir suas próprias Cubas, conquistar sua emancipação social e política, não podem viver de mitos e nem de lendas.

E nem de ícones, mesmo que esse ícone seja Fidel Castro. E a esquerda que pretenda se fundir com a classe trabalhadora brasileira, diante de qualquer ascenso revolucionário, não pode se dar ao vacilo de embrulhar no mesmo pacote as conquistas possíveis através de uma economia estatizada e planificada, lado a lado com a anti-estratégia de Fidel Castro de imaginar um socialismo “sem povo” e um socialismo em um só país.

O potencial revolucionário e emancipatório que os camponeses cubanos em armas e os trabalhadores manifestaram [por exemplo, com aquela greve operária que permitiu aos companheiros de Fidel entrarem vitoriosos em Havana] para conduzir aquela direção de Fidel ao poder, não poderia ter sido usurpado por uma elite política. Elite que foi se acostumando aos privilégios do poder, de burocratas, e executando um jogo perigoso, sem futuro [como tanto analisou Trotski sobre a stalinização da revolução russa] de ter as massas como ponto de apoio para a resistência ao imperialismo mas sem permitir, nunca, que ELAS, as massas em movimento,pudessem ser o sujeito político, o poder de Estado. E impedindo que o projeto de emancipação fosse conduzido pela classe trabalhadora que, invariavelmente, dá provas de uma abnegação, uma extrema generosidade e uma radical disposição para mudar o mundo, qualidades que nenhum burocrata – por mais que se proclame comunista ou fiel discípulo de Karl Marx – jamais terá.

Este legado de Fidel, a história não absolverá.




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