VIOLÊNCIA POLICIAL

Dois anos do desaparecimento de Amarildo

Juan Chirioca

RIO DE JANEIRO

terça-feira 14 de julho de 2015| Edição do dia

Hoje, terça feira 14 de julho faz 2 anos que a polícia militar do Rio de Janeiro torturou, matou e desapareceu com o corpo de Amarildo de Souza, negro de 47 anos, pedreiro e morador da Rocinha. A última vez que Amarildo foi visto estava sendo levado de um bar pela Polícia Militar da UPP até a sede da instituição na Rocinha.

O desaparecimento de Amarildo causou grande indignação num agitadíssimo Rio de Janeiro ainda quente desde os levantes protagonizados pela juventude nas jornadas de junho. Os jovens continuaram na rua exigindo o imediato aparecimento do ajudante de pedreiro. Mas essa indignação não era só por causa dele. Semanas antes 13 moradores da Maré morriam assassinados em mãos da Polícia Militar do Rio. O rosto do Amarildo virou o símbolo dos casos não esclarecidos e seu sumiço provocou uma forte resposta contra os crimes da PM nas favelas e sua repressão as manifestações no asfalto.

"O morro desceu" e a juventude junto com os moradores da Rocinha interditaram a autoestrada Lagoa-Barra e marcharam da Rocinha até o Leblon na frente da casa do então governador do Rio, Sérgio Cabral onde ocorria uma ocupação da rua exigindo sua renúncia. A luta pelo aparecimento do ajudante de pedreiro e pela punição da polícia esteve presente em todas as lutas durante o agitado 2013 no Rio de Janeiro e mais do que isso, significou um novo impulso as lutas da juventude no Rio. "Cadê o Amarildo?" foi, tal vez, uma das frases mais repetidas pelos cariocas esse ano, e uma pichação recorrente nos muros da cidade.

O trágico sumiço do Amarildo marcou um ponto de inflexão para as UPPs. Após o 14 de julho, as unidades da polícia começaram a ser amplamente questionadas, deixaram de ser as responsáveis de "recuperar o orgulho carioca" ou do ganho de cidadania para as favelas, mas passaram a representar a repressão sistemática e cotidiana nos morros e comunidades (desde sua implantação aumentou em 50% o número de desaparecimentos na cidade agora “pacificada”).

O caso envolveu um grande número de tentativas de acobertar a responsabilidade da polícia. Desde as primeiras versões que buscavam associar o pedreiro ao tráfico, à suposta “falha” dos GPS das viaturas, ao pagamento da polícia a moradores para darem falsos testemunhos. Hoje, passados dois anos, o jornal O Globo traz a notícia que duas testemunhas do caso também foram desaparecidas. Justamente as testemunhas que haviam sido compradas para dar falso versão dos fatos e depois denunciariam que a polícia tinha as compradas, “misteriosamente” também sumiram. Poucas semanas atrás outra reviravolta no caso envolveu novas denúncias implicando, além da UPP e seu comando, o prestigioso (e assassino) BOPE no caso.

Passados 2 anos da morte de Amarildo em mãos da PM, a repressão e violência policial continua sendo parte do cotidiano da vida nas favelas, onde abundam as "balas perdidas" como a que matou o menino Eduardo no Complexo do Alemão na zona norte do Rio. Dois anos depois houve Cláudia, DG, e muito outros, mas o grito “Cadê Amarildo”, marcou uma inflexão na não aceitação da impunidade.

A impunidade persiste, tal como o canto de junho daquele ano “a polícia mata pobre todo dia”, ainda se mantém verdadeiro, mas também o questionamento à polícia, às UPP não é mais o mesmo desde a luta da família de Amarildo e como esta foi abraçada pela juventude. A maioria dos PMs envolvidos neste caso e em muitos outros chamados “autos de resistência” seguem impunes, mas a disposição de denunciar a polícia nas favelas, pelos movimentos de direitos humanos, pela juventude e pelo movimento estudantil cresceram. Na luta pelo fim da impunidade policial, pelo fim das UPPs e fim dos assassinatos policiais chamados de autos de resistência, junho segue vivo.




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