CRÔNICA

Do que poderia ser só mais um dia no Metrô de São Paulo

terça-feira 30 de julho| Edição do dia

O sábado do 13 de Julho, poderia ter sido um como outro qualquer para os trabalhadores do Metrô de São Paulo. Em algumas estações no fim de semana há um número sem fim de turistas e pessoas que utilizam o Metrô para lazer e por isso têm mais dificuldade de usar o sistema, perguntas como onde fica o center 3, Teatro Municipal, o Memorial, a Casa das Rosas e tantos outros atrativos da cidade de São Paulo. Sábado foi um dia cheio de tudo isso, mas não somente isso. Ao chegar na estação, ainda sem uniforme, um rapaz desce do trem e olhando pra mim começa a gritar “ei, moça! Me dá esse lanche! Tô com fome, me ajuda!”. Passei o dia com o almoço atravessado na garganta. Aquela cena pra mim era mais uma expressão da miséria que estamos sujeitos todos os dias, e que os melhores prognósticos não se atrevem a prever melhoras, menos ainda há 3 dias de aprovada a reforma da previdência no congresso, um verdadeiro projeto de criação de fome e miséria para franjas enormes da classe trabalhadora e setores populares.

Logo na primeira meia hora do turno recebemos a notícia de que havia ocorrido um atropelamento na estação Paraíso. Pensei nos colegas que estavam lá, passando por isso que é algo que desde que entramos a trabalhar sabemos que pode ocorrer, que torcemos para que não ocorra, mas que poucos refletimos do porquê ocorre.

O dia passou com a tristeza da notícia, de certa forma estatisticamente estava afastada a possibilidade de outra situação parecida, ao menos naquele dia. No fim do turno recebemos a notícia de outro atropelamento, desta vez na linha verde, estação Trianon. Imagino o estrondo em meio ao silêncio que começa a se impor com o fim do pico e o som do trem acionando o freio de emergência. Penso nos colegas recebendo a temida mensagem de “atropelamento na via”. Ouvi relatos de alguns colegas que estiveram presentes, de que o restante da noite correu num misto de vertigem e adrenalina. Por momentos, toda a cena parecia irreal, mas não adiantava beliscar que não dava pra acordar. Era real e estava acontecendo ali na frente deles. Uma senhora havia se projetado na frente do trem, buscando terminar com a própria vida. Não temos como conhecer as razões, só temos acesso aos dados até o momento do resgate.

Passado o momento, fica a angústia. Pensar o que pode levar uma pessoa a uma ação tão desesperada como esta. Nas notas de Marx e Peuchet sobre o suicídio, podemos encontrar um delineamento que segue por todos os casos que vão nos descrevendo: o suicídio é o sintoma de uma sociedade doente e que precisa de uma transformação radical. Se baseia na ideia de que o que vivemos na nossa vida privada é também expressão das decisões que são tomadas na esfera política. Para isso, mostra como as leis da burguesia, que acabara de fazer a Revolução que a transformou em classe dominante, pautadas pelo princípio elementar da propriedade, atravessava os estados de espírito e levavam as pessoas à tal medida desesperada – o medo do julgamento social da mulher que se entregou ao marido antes das núpcias, o pai de família que ao não conseguir emprego, não consegue seguir vivendo com o martírio de ter que ser sustentado por sua esposa e filhas... entre outros exemplos. Qualquer semelhança com a nossa sociedade atual não é mera coincidência. A burguesia foi incapaz de resolver os problemas subjetivos fruto de uma sociedade pautada no acúmulo e nas relações de propriedade. Muito pelo contrário, aprofundou estas contradições.

Muito acima da média, neste fim de semana houveram quatro tentativas de suicídio no nosso trabalho. Penso se tem alguma relação com a situação política que estamos atravessando. Um país com 12,7 milhões de desempregados e outras tantas pessoas subempregadas, milhões de trabalhadores e trabalhadoras que terão que trabalhar até morrer por causa da reforma da previdência, onde o desmonte das relações de trabalho leva milhares de jovens a subempregos como os modernos aplicativos como Rappi, onde um trabalhador chega a ganhar um real por quilômetro pedalado e à situações tão cruéis quanto ter que morrer na porta de um cliente enquanto faz uma entrega, como aconteceu com o trabalhador Thiago de Jesus Dias.

Isso que parece muito assustador é o destino que quer reservar para a classe trabalhadora, a juventude e setores populares os capitalistas donos da dívida pública para quem governa Bolsonaro e toda a casta política junto ao imperialismo de Trump e da União Europeia.

Para nós que estamos sujeitos a presenciar tão alta expressão da miséria social e subjetiva que as pessoas estão a mercê, nos impõe o questionamento de como atuar: naturalizando viver em um mundo de tão completa dissociação que a medida em que se desenvolvem tantas tecnologias para nos conectar, nos sentimos cada vez mais isolados; ou nos rebelando contra esta ordem existente.

Acho que de alguma forma nós já escolhemos por rebelar ao não nos permitir petrificar pelo cinza do cotidiano. Pude ver a empatia de muitos colegas com a juventude e trabalhadores da educação nos dias 15 e 30 de maio, as primeiras grandes manifestações contra o governo Bolsonaro; a indignação de muitos com a chocante notícia que o exército tinha alvejado o carro de uma família negra no Rio de Janeiro, assassinando ao músico Evaldo Rosa; na raiva contra as políticas xenófobas de Donald Trump que ficou escancarada com a bruta imagem de Óscar Ramires e a pequena Valéria afogados tentando atravessar a fronteira rumo aos Estados Unidos, a disposição de luta ao ser a ponta de lança em São Paulo de uma paralisação nacional que, não fosse os freios impostos pelas burocracias encrustadas na centrais sindicais, poderia ter pesado a balança para nosso lado e freado a aprovação da reforma da previdência. Estas são algumas das expressões de onde devemos nos apoiar para construir nossa força, tentando resumir, lutar para que não nos limitemos a assistir a barbarie capitalista como meros expectadores, e sim para acabar com toda esta barbárie.




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