Teoria

MARXISMO

Do mundo das coisas de Karl Marx ao universo Cyborg

sábado 23 de julho de 2016| Edição do dia

Há mais de um século, Karl Marx acertava contas com a filosofia materialista que o precedeu. Segundo o autor de O Capital:

“O defeito fundamental de todo materialismo anterior — inclusive o de Feuerbach — está em que só concebe o objeto, a realidade, o ato sensorial, sob a forma do objeto ou da percepção, mas não como atividade sensorial humana, como prática, não de modo subjetivo. Daí decorre que o lado ativo fosse desenvolvido pelo idealismo, em oposição ao materialismo, mas apenas de modo abstrato, já que o idealismo, naturalmente, não conhece a atividade real, sensorial, como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis, realmente diferentes dos objetos de pensamento; mas tampouco concebe a atividade humana como uma atividade objetiva.”(Marx, I Tese sobre Feuerbach)

Para Marx a realidade não é unicamente objeto (objekt), é também coisa (gegenstand). Entendendo coisa como algo onde, além dos fatores objetivos – a materialidade natural – estão presentes e são determinantes os fatores subjetivos que modificam e vão dando forma e uma nova existência a essa materialidade natural objetiva.

Portanto, para Marx o problema do materialismo filosófico que lhe precedeu é que, quando reconhece a atividade do ser humano, só o faz como atividade intelectual quando se trata de reconhecê-la como atividade sensível. Ainda mais, ao transformar o mundo dos objetos, o ser humano não produz somente coisas, mas também, de certa forma, produz a si mesmo. Ao intervir no mundo, transforma também suas próprias capacidades cognitivas, lhes dando novas formas e novas propriedades.

Nesta perspectiva o mundo, a natureza e o entorno podem conceber-se como coisas, não como objetos, porque são produtos da interação permanente entre a natureza e o ser humano: uma relação mediada a todo momento pela práxis. Uma interação na qual, ao mesmo tempo, o natural e o artificial não são entidades estanques, delimitadas de uma vez e para sempre. O ser humano é também coisa (gegenstand), na medida em que é produto da relação dialética com a natureza. Isto se verifica com maior força no fato de que as capacidades cognitivas são produzidas, modeladas e transformadas incessantemente como resultado desta interação.

O universo Cyborg

A literatura de ficção científica nos tem permitido imaginar cenários onde os seres humanos podem ser artefatos ou coisas transformadas e transformadoras. Como sustenta Raúl Cuadros Contreras “(...)nos tem fornecido um espaço, uma ponte ou fenda para a alteridade”. (Cuadros Contreras: 2012).

Em 1985, Donna Haraway publicou seu “Manifesto Cyborg”, onde aproveitando este espaço criado pela ficção cientifica recupera, e ao mesmo tempo revisa, a concepção marxista anteriormente descrita no calor da emergência de novas entidades humanas, ora maquinistas, ora artefactuais. Resgata Marx primeiramente porque toma partido dos oprimidos, aqueles corpos que na sociedade capitalista se encontram às margens da normalidade do “eu fictício racional”: pela raça, por ser explorado no trabalho assalariado, por sua identidade sexual ou de gênero. Revisa Marx porque radicaliza – até absolutizar – o caráter artefactual do ser humano ao defender que “os corpos não nascem, são fabricados. Sendo completamente desnaturalizados como signo, contexto e tempo”.(Aguilar García: 2012).

O Cyborg, para Haraway, é a possibilidade metafórica de uma entidade “distinta ao humano”. E é o que o ser humano como artefato (como coisa, nas palavras de Marx) é um ser técnico; especialmente nas sociedades contemporâneas. É “um monstro” e um robô segundo Cuadros Contreras:

“Um centauro constituído pelo “animal” e o “cultural”. E ao mesmo tempo, enquanto artefato, como um ser técnico relacionado por essas circunstâncias com o robô. A ficção cientifica evidencia essa impureza, demonstra, por contraste, que o homem não tem uma essência completamente distinta de outras, mas se encontra relacionado com os animais, robôs, e com os deuses, porém que, por sua condição híbrida, se assemelharia mais a um Cyborg.”

Nesta perspectiva, perde sentido discernir entre a separação radical entre o natural e o artificial ou sua descontinuidade. Uma critica da tecnologia à luz da experiência Cyborg teria que questionar sobre a teia de relações que o ser humano teceu em seu devir histórico com outros seres, outros artefatos e coisas que deixaram sua marca implacável no “humano”.

À luz do Cyborg é plausível abandonar a visão separatista da cultura e da natureza, do técnico e do vivente, que não são mais que variantes do dualismo tradicional corpo-espirito ou corpo-mente, para encontrar os aspectos libertadores das suas possibilidades identitárias.

No entanto, tal leitura esconde de algum modo que a relação entre a natureza e o ser humano – com suas descontinuidades intrínsecas – implica, na sociedade capitalista, uma forma de atividade humana específica que alimenta o capital: o trabalho. Atividade humana que, colocada sob a égide das necessidades de reprodução do capitalismo, torna-se uma “desvalorização do mundo humano” proporcionalmente inversa à valorização do “mundo das coisas”. Nas palavras de Marx:

“Partiremos de um fato econômico contemporâneo. O trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza e sua produção cresce em força e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria ainda mais barata à medida que cria mais bens. A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento de valor do mundo dos objetos. O trabalho não cria apenas objetos; ele também se produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e, deveras, na mesma proporção em que produz bens em geral.” (Marx, Manuscritos econômicos-filosóficos).

Daí que os “corpos desnaturalizados” de Haraway são corpos alienados, coisificados e ocupam um lugar específico no processo de trabalho. Se admitimos que na sociedade contemporânea estes corpos estão sob a égide do capital de forma cada vez mais acentuada, a liberação dessas novas formas de identidade que povoam o universo Cyborg só pode acontecer em uma perspectiva anticapitalista, ou seja, revolucionária.

Referências Bibliográficas:
Aguilar García, Mayte: Ciberontología. Identidades fluidas en el mundo de la información en http://serbal.pntic.mec.es/~cmunoz11/ciberontologia.pdf, Facultad de Filosofía, Departamento de Filosofía, UNED, Madrid, 2012.
Cuadros Contreras, Raúl: Ontología y epistemología cyborg: representaciones emergentes del vínculo orgánico entre el hombre y la naturaleza en Revista Iberoamericana de ciencia, tecnología y sociedad, Vol. 7, No. 19, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, jul/dic 2012.
Haraway, Donna: “A cyborg manifesto: Science, technology and socialist feminism in the late twentieth century” en Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature, New York; Routledge, 1991




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