Internacional

Do empoderamento das armas à explosão social na Colômbia

Treze mortos é o saldo dos três dias de protesto contra a violência depois do assassinato de Javier Ordoñez por parte da polícia colombiana. A protagonista foi a juventude em uma rebelião contra os órgãos repressivos que disparavam armas de fogo diretamente contra os manifestantes. Aqui analisamos o significado destas jornadas e a situação aberta.

segunda-feira 14 de setembro| Edição do dia

Forças do Esquadrão Móvel Anti-distúrbios (Esmad) enfrentam manifestantes no segundo dia de protesto. Fotografia EFE/Ernesto Guzmán Jr.

Uma semana de agitação e revolta na Colômbia. Tudo se acelerou, mas foi o grito de protesto o que chegou antes em forma de fúria incontrolável. Os protestos pelo assassinato policial o Estado repressor respondeu com mais crimes. As vítimas, jovens entre 17 e 27 anos, morreram por impactos de bala no tórax e no abdômen, atiravam para matar como parte de uma política de um Estado militarista e assassino. É resultado do empoderamento das armas que nos tempos de pandemia o governo de Duque acentuou.

O compasse da quarentena apenas havia sido um intervalo do último novembro, mas no mundo subterrâneo continuava se desenvolvendo a crítica situação da Colômbia. O controle social através dos corpos repressivos dos que se valeu o Governo de Duque, dando carta branca para os atropelos e todo tipo de ações criminais, foi por onde eclodiu a raiva social que veio se intensificando durante anos, como já havia se adiantado no último outono de mobilizações e paralisações nacionais.

Ali fez seus primeiros ensaios e acendeu a juventude que por fim havia perdido o medo diante de um Estado repressor e a impunidade dos braços armados das elites poderosas que durante décadas submetiam com o terror. Na Colômbia existe uma polícia militarizada e um exército policial. A polícia foi braço do exército na guerra contra a insurgência que nas cidades impunha seu terror, e continuou sendo pois até o dia de hoje depende do Ministério da Defesa.

Sobre esta militarização basta mencionar a unidade de operações especiais militares conhecido como o grupo de Comandos Jungla, que são parte da Polícia Nacional da Colômbia, equipados e treinados pelos Estados Unidos como parte do Plano Colômbia, e contam com sofisticados armamentos. Não é coincidência que tem um homônimo no Chile, famoso por violar direitos humanos.

Durante os protestos o próprio governo contabilizava que um terço dos 156 Comandos de Atenção Imediata (CAI) de Bogotá foram incendiados e destruídos. Para os jovens os CAI, criados em 1987, são focos de abusos, violações de direitos humanos, violações sexuais, corrupção e tráfico de drogas. Por isso sabiam pra onde dirigir-se e ali canalizaram toda sua raiva.

o aborrecimento da juventude colombiana não é novo, a resposta sim. Já não era possível conter a irritação diante de justificações governamentais de massacres e assassinatos. Nem escândalos nem os homicídios por abusos na polícia colombiana são novos: entre 2017 e 2019, cada mês morreram uma média de 18 civis por conta de abusos policiais, de acordo com a ONG Temblores. Há um elemento em comum na maioria dos casos, jovens e pobres.

Como escrevemos em um artigo no segundo dia da revolta, "o foco da raiva é essa maldita polícia que goza de completa impunidade na Colômbia repressiva e assassina de jovens, de lutadores sociais, dirigentes comunais, de indígenas, sindicalistas, enfim, contra aquele que se atreve a sair a protestar e defender seu direito. Não é coincidência que o primeiro que fez Duque foi sair em defesa dessas forças policiais assassinas, e seu mentor, Álvaro Uribe, fazendo chamado a mais militares nas ruas.

O assassinato de Ordoñez e as jornadas de protestos contra a violência policial tem lugar no marco de uma nova onda de assassinatos em todo o país, que tem a marca das máfias e os narcoparamilitares. recentes massacres e assassinatos de líderes sociais, comunitários e desmobilizados vem tingindo a realidade nacional. Ao menos 218 mortos em 55 massacres perpetrados durante o ano de 2020, segundo cifras do Observatório do instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz). Entre as vítimas das matanças das últimas semanas há menores de idade, jovens universitários, indígenas, lutadores sociais, sindicalistas, entre outros.

Porém, além da repressão policial com a juventude, está o flagelo sobre os jovens pela situação laboral. De acordo com o estudo sobre a precariedade laboral da Cuso internacional, no país 86,1% das pessoas que residem nas cidades entre 14 e 28 anos de idade, de estratos 1 e 2, trabalham sem poder exercer seus direitos como trabalhadores, nem gozar dos benefícios de um contrato convencional. Falamos de 3,2 milhões de jovens que trabalham na precariedade, que como diz um analista do estudo mencionado, isso faz com que essa juventude "viva em condições semelhantes a um buraco negro da pobreza e exclusão".

Em um artigo para a revista Ideias de esquerda em novembro do ano passado, escrito ao calor da rebelião desse mês, dizíamos que "na Colômbia, as leis trabalhistas são das mais neoliberais possíveis, dos 6 milhões de pessoas em idade avançada, 4 milhões não tem uma pensão nem meios de sobrevivência, e uma juventude cresceu literalmente sem futuro, a não ser mão de obra barata para os capitalistas e na maior das precariedades, situação pior é a que ocorre no campo. Todas essas condições do capitalismo colombiano foram impostas a base do terror do Estado, que como é sabido se vale não só da repressão judicial, policial e militar oficial, mas também dos grupos paramilitares, verdadeiros esquadrões da morte. Uma política na qual se envolveram em tal nível a classe dominante e seus partidos, que até pouco tempo uma porção enorme do parlamento estava investigada por seus vínculos com o paramilitarismo.

Colômbia segue sendo o país de grandes desigualdades em todos os terrenos, em uma juventude precarizada a qual se nega o futuro, onde todos os trabalhadores permanecem na miséria produto das leis trabalhistas que favorecem aos grandes empresários e aos investidores estrangeiros, e sobretudo, a quem o acesso a terra se refere.

Estes acontecimentos recentes prenunciam crises mais profundas em uma Colômbia cuja economia é golpeada pela pandemia e com forças de repressão querendo conter o protesto por meio de assassinatos. Não é coincidência o chamado de desespero a "reconciliação" como faz a prefeita de Bogotá, Claudia López. "Convidei" o presidente para que junto com seu gabinete e as famílias das vítimas e feridos nos unamos nessa jornada de perdão no início da manhã", afirmou a mandatária capitalina. Temem uma irrupção maior que questione ao regime de conjunto e que seja difícil conter, abrindo crises superiores.

Mas tudo indica que as lutas dos explorados e oprimidos tendem a ocupar o centro do cenário político. Na Colômbia há demandas estruturais, econômicas e sociais muito profundas e é o que se colocou em movimento com esta juventude nas ruas e hoje se coloca desatar a força social capas de derrotar aos inimigos das massas e as forças de repressão do Estado ao calor da revolta.




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