Política

IMPEACHMENT

Divisões entre os defensores do impeachment, fortalecimento das demais saídas capitalistas

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sexta-feira 25 de março de 2016| Edição do dia

A “lista do fim do mundo” da Odebrecht abre espaço para que o judiciário, caso queira, possa partir para uma operação “Mãos Limpas”tupiniquim, que envolveria o judiciário fazer o que ainda não fez: partir para uma “limpa” também no PSDB, PMDB e vários outros partidos citados. Nunca é excessivo relembrar que esta operação ocorrida na Itália resultou em mudança no sistema de partidos, porém contribuiu para leis mais lenientes no combate a corrupção. Essa é uma tendência do que essa bomba política pode produzir, uma tendência ao extremo. O outro extremo é uma tendência à moderação, um aceitar de Lula como ministro ou assessor, e oposição e setores burgueses que partiram para o impeachment retornarem a uma tática de “sangria” e pressão por mais ajustes, coisa que Lula já anunciou que faria, mesmo com alterações na economia.

As dúvidas sobre o impeachment, pressão por renúncia, que governo assumir, ou até a nova tese de Marina sobre “eleições gerais” mostram uma divisão sobre como proceder, e em meio a esta divisão dos impeachmistas-renuncistas, que enfraquece uma das três respostas capitalistas da realidade, acaba fortalecendo as outras duas. Relembrando, uma delas seria o judiciário com uma “mãos limpas” que o coloque de árbitro para erguer um novo regime mais a serviço dos ajustes e do imperialismo, a do impeachment-renúncia, bem como a de Lula ministro utilizar seu capital político para salvar o governo e, mesmo com demagogia, implementar parte dos ajustes que imperialismo e burguesia querem.

Entre essas tendências extremas, a “extrema moderação” e deixar Lula entrar, ao outro extremo da “mãos limpas”, a tese do impeachment-renúncia parece ter perdido, relativamente, a força que mostrava. O ímpeto dos dias posteriores a 13 de março (mídia oferecia visão aumentada e mesmo com“marmitas Gourmet” da FIESP não emplacou com força inquebrantável). Segue sendo uma das tendências mais prováveis, mas seguramente não com a “quase certeza” que muitos atribuíam a essa possibilidade.

Divisão entre como tirar Dilma e o PT

A OAB anunciou que redigirá um segundo pedido de impeachment para protocolar na Câmara. Este novo pedido embaralharia as chamadas pedaladas (que é o que consta no atual pedido) com renúncias fiscais para a FIFA (vão se meter, finalmente, com a CBF?) e obstrução de justiça com a nomeação de Lula como ministro. A necessidade de um segundo pedido é porque o atual gera dúvidas. Muitas. Primeiro, há extenso debate político e jurídico se as pedaladas constituiriam um crime de responsabilidade, bem como o pandemônio que poderiam criar contra governadores e prefeitos igualmente imputáveis do mesmo fato.

Até mesmo a importante revista das finanças inglesas, The Economist, tem mostrado uma vacilação sobre que posição tomar sobre a crise política brasileira. Fez dias atrás uma capa de sua edição semanal com a imagem de Dilma e, em letras garrafais, falava que era "Hora de ir embora", argumentando a favor da renúncia e do impedimento por outros motivos (como a delação de Delcídio e a obstrução da justiça), começando a aventar a linha de “eleições gerais”. Após o discurso de Obama junto a Macri, dizendo que confiava nas instituições brasileiras e que o Brasil iria saber chegar a uma solução para sua crise, o "The Economist", misteriosamente, retirou da capa de seu site sua antiga matéria sobre o Brasil e agora coloca uma matéria unicamente analítica que fala das dificuldades do governo sem defender nenhuma linha. Essa mudança mostra parte das divisões do imperialismo e da burguesia local sobre o que fazer com o governo Dilma.

Outra divisão entre os “vá Dilma” se expressou nas críticas públicas de Aécio e outras alas tucanas a José Serra, por ter declarado que o PSDB poderia integrar um governo de “reconstrução nacional” junto com Temer. A REDE já se pronunciou que não faria parte. As dificuldades de um governo Temer que não fosse de “unidade nacional” para aplicar os ajustes e o fato de expoentes da oposição burguesa como Aécio e Alckmin terem sido rechaçados dos atos do dia 13/03, ilustram como para as elites uma das dificuldades do “sai Dilma” está menos em consensuar esta vontade, e mais no que colocar depois, o que paralisa a ação de hoje. A isto se soma a demonstração de forças que o PT conseguiu erguer no dia 18/03, com forças próprias e contando com um setor mais amplo que tomou para si um sentimento de defender a democracia contra a direita e elementos de golpe judiciário em curso.

Estas dúvidas entre aqueles que estavam com maior unidade de ação dias atrás colocam em primeiro plano o embaralhar das três grandes possibilidades de resposta capitalista à crise, quanto maior o impasse entre o assumir de Lula e o “sai Dilma”, mais o “partido judiciário” pode se oferecer como “árbitro”, apoiando-se em sua relação “carnal” com o imperialismo e o amplo apoio das classes médias abastadas dos “in moro we trust” e “morobloco”. Muito minoritariamente começam as movimentações de eleições gerais que ofereceriam um intermediário entre “mãos limpas” e só o mero impeachment.

As nuvens seguem escuras em Brasília, sabe-se que chuva virá, mas onde e primeiro é aposta do milhão na realidade nacional. Da parte da classe trabalhadora, cabe o combate à reacionária saída do impeachment, ao golpe judicial, bem como organizar sua luta contra os ajustes do governo do PT. Não fazer como a CUT e CTB fazem, blindando “seu” governo de uma séria luta da classe trabalhadora contra os ajustes, para além de panfletos e discursos, é o que em última instância deixa a direita e o judiciário com mãos soltas para ter maiores ambições. As armadilhas da situação são muitas, exige-se clareza na compreensão do momento e uma decisão para construir um urgente movimento contra os ajustes do PT e a impunidade de toda esta "democracia do suborno".




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