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SEMANÁRIO

Divididos e polarizados - sobre o resultado das eleições argentinas

Fernando Rosso

Divididos e polarizados - sobre o resultado das eleições argentinas

Fernando Rosso

Traduzimos nessa sessão do Ideias de Esquerda um texto originalmente publicado pela revista Anfibia sobre as eleições legislativas que ocorreram na Argentina no dia 14/11, que colocou a Frente de Esquerda dos Trabalhadores, uma frente de independência de classe, como a terceira força nacional.

Para a desgraça dos talibãs do consenso, o pulso da dinâmica política ainda é marcado pela polarização. Uma tendência confirmada pelo ascenso da direita ultraliberal e da esquerda e pelo aprofundamento das tensões nas grandes coalizões. Sem uma liderança clara no governo e na oposição, o país enfrenta o bastão do Fundo Monetário que se assenta em uma profunda crise social. Nesse contexto, o desafio da esquerda consiste em articular a discussão parlamentar com a luta nas ruas, “o único lugar maldito do país burguês”.

A eleição da Frente de Esquerda [1], com enorme força em Jujuy, um avanço histórico na Cidade de Buenos Aires e um bom desempenho geral, confirmou que não estávamos diante de um giro unilateral à direita no cenário, como se havia proposto após as PASO [2] desde múltiplas potências políticas e jornalísticas. A polarização continua prevalecendo na dinâmica política, para a desgraça dos talibãs do consenso.

Não apenas se expressa na ascensão dos extremos que mostra o crescimento de uma direita dura que radicaliza uma fração dos eleitores do Juntos pela Mudança [3] e o ressurgimento da “extrema esquerda” que capitaliza as pessoas desencantadas em geral e da Frente de Todos [4] em particular; mas também nas tensões dentro das grandes coalizões. Embora o "antissistema" Javier Milei [5] tenha suavizado furtivamente seu discurso, foi excluindo da "casta" vários referentes do macrismo e - como afirmou Pablo Stefanoni - "com essa casta a geometria variável foi rapidamente construindo pontes com os ’falcões’ do PRO, principalmente com Patricia Bullrich ”. O mais provável é que os barulhentos libertários não queimem nenhuma sede do Banco Central e, pelo contrário, aqueçam seus bancos como coletores de fato ou de direito do Juntos pela Mudança. A casta virá e terá seus olhos.

No entanto, sob pressão da direita, a coalizão de oposição elevou a visibilidade de seus falcões. Mauricio Macri voltou a ocupar um lugar no palco e foi um fator muito importante na volta do partido no poder na província de Buenos Aires. A essência da recuperação se explica mais pela dinâmica política do que pela (escassa) “graninha” ou exército fantasma de remises pilotado por prefeitos superpoderosos. Também, pressionada pela esquerda, a Frente de Todos girou na última seção para um discurso mais duro com o Fundo Monetário Internacional, em parte por causa da campanha eleitoral e em parte porque a burocracia do órgão havia se tornado mais rígida nas negociações com a Argentina, após a tentativa branda de golpe contra Kristalina Georgieva.

Apesar do que a aritmética eleitoral parece mostrar, politicamente a "crise de representação" segue seu curso em cotas. A forma de coalizão que o sistema político assumiu após a estouro de 2001 é, em si mesma, uma manifestação desse fenômeno. O sistema disfuncional gera vetos cruzados, bloqueios mútuos e o resultado é a consequente fragilidade política: não há lideranças claras nem no governo nem na oposição.

Na Frente de Todos, assim que se soube dos resultados, começou o debate sobre quem seria o pai (ou a mãe) da retomada do território bonaerense. Como a recuperação ocorreu na fortaleza kirchnerista, Alberto Fernández continua a ser perseguido pela “sombra terrível” de Cristina Kirchner.

No Juntos pela Mudança, depois das PASO, havia uma legião de candidatos que se sentaram à mesa para jantar: Horacio Rodríguez Larreta, que se considera um candidato natural e tem um cercado na Cidade, embora não se saiba se a ponto de não poder mais sair de seu bastião; Facundo Manes ou Gerardo Morales, que acham que os radicais devem dar um passo à frente e Mauricio Macri, para quem, parafraseando Rodolfo Walsh, "a história lhe parece como uma propriedade privada cujos donos são os donos de todas as outras coisas", inclusive do PRO.

Em termos institucionais, a perda de controle do Senado pelo peronismo pela primeira vez na história pós-1983 também é uma manifestação dessa longa crise, assim como o declínio persistente da participação eleitoral em relação à média histórica.

A relação de forças mais estrutural que determina esses avatares superestruturais mostra que desde 2012, quando se esgotaram as condições de expansão econômica possibilitadas pelo ciclo anterior, ninguém reúne as condições políticas para impor um novo ajuste na medida em que exigem os poderes constituídos. É aí que reside o "laço" estrutural, remendado pela expansão de um Estado de exaustão com demandas cada vez maiores e menores capacidades estatais. O que vimos nesses anos foram os acelerados altos e baixos de saídas intermediárias ou negociadas: “gradualismos”, “ajustes finos” ou ajustes com rosto humano.

Em um futuro imediato, o bastão do Fundo Monetário buscará impor uma nova tentativa de ajuste sobre o país, uma vez que as ilusões colocadas sobre a "diplomacia de amigos" desabaram (em Manzur, amigo da esposa de Joe Biden; no Papa, amigo do próprio Biden, em Stiglitz, amigo de Martín Guzmán, do Papa, do Biden e de todos os outros também) e uma vez que se confirmou - mais uma vez - que o Fundo não tem amigos, tem interesses.

O ímpeto do organismo - que no mínimo pede aumento de tarifas e desvalorizações, ainda que seja controlada sobre uma economia com inflação alta - só pode agravar a polarização porque se baseia em uma grave crise social com indicadores que remetem à última grande hecatombe do início do século.

Isso anuncia confrontos mais decisivos e, não por acaso, a esquerda ganha peso político e faz uma eleição como não se via desde o explosivo 2001. Com a reeleição de Nicolás del Caño e Romina Del Plá na província de Buenos Aires, a histórica eleição de Myriam Bregman na cidade da fúria, a grande eleição de Alejandro Vilca, trabalhador, de origem coya, gari de San Salvador de Jujuy, que obteve um quarto dos votos na província do norte. O desafio está na necessidade de articulação entre a conquista da tribuna parlamentar e a mobilização extraparlamentar que —com o fim da pandemia— deve voltar e abrir a possibilidade de que a sociedade argentina retome seu tradicional caráter contencioso. Num país onde, apesar do avanço de vários ajustes, do ponto de vista das classes dominantes ainda sobram sindicatos, “organizações sociais” e o que o sociólogo Juan Carlos Torre chamou de “pobres em movimento”. E contribuir desde o Congresso e das legislaturas para impulsionar as ruas, único lugar maldito do país burguês.

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FOOTNOTES

[1FITU.

[2Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias argentinas.

[3Juntos por el cambio, coalizão do ex-presidente argentino Mauricio Macri, representante da direita neoliberal.

[4Coalizão do governo atual, de Fernandez e Kirchner.

[5Figura da extrema direita argentina, que se inspira em nomes como Bolsonaro e Trump.
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