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Ditadura militar, maio de 1968 e a repressão na UnB: depoimento de um setentista

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 23 de abril| Edição do dia

A UnB conformou, a partir da reitoria, sua Comissão da Verdade e, por volta de três anos atrás, recolheu depoimentos de ex-estudantes daquela universidade que foram ativistas e perseguidos pelo golpe de 1964, na UnB.

Como já foi mencionado em outra nota, o relatório final foi entregue ao governo federal e ponto. Nada foi feito, tudo morreu no memorialismo. Torturadores continuaram na paz de todos os terroristas de Estado, a paz da impunidade, Dilma, ex-torturada, não levou nenhum torturador ao banco dos réus e o PT, no governo ou fora dele, seguiu abraçando aquela Anistia que livra os torturadores de qualquer punição.

Vários ex-estudantes fizeram depoimento naquela comissão. Ali não se solicitava mais do que relatos pessoais. Nem a direção da comissão nem a maioria dos depoentes foi além do memorialismo pessoal e, eventualmente político, de época; que era, obviamente, necessário. No entanto, de nenhum de nós foi solicitada uma opinião política sobre a época, muito menos sobre a própria comissão e seus evidentes limites políticos.

Não foi o nosso caso: nossa perspectiva é a da punição dos torturadores e vemos o aparato repressivo da ditadura completamente de pé, oprimindo e torturando no Haiti, antes e nas comunidades pobres e negras de cidades como o Rio de Janeiro, todo o tempo. Generais egressos da ditadura treinaram essa polícia assassina e generais da cúpula do governo, hoje em dia ameaçam com alguma coisa parecida com a volta a 64.

Portanto, além do nosso relato pessoal e da repressão na UnB daquele momento [1968/1970], também fizemos uma intervenção, procurando examinar os acontecimentos do nosso “maio de 68”, a confluência operário-estudantil na França, no Brasil de meados e final de 1968, quando veio o golpe dentro do golpe [após Contagem, Mannesman, Osasco etc], e também problematizamos a questão de contra quem foi o golpe de 64. Nos faltou a direção, no movimento operário-estudantil, que promovesse explicitamente aquilo que estava no ar – a confluência operário-estudantil – e, obviamente, o PCB, stalinista e que ficou colado no janguismo, jamais poderia cumprir esse papel. Ele acreditava em uma suposta – e que nunca existiu – burguesia “democrática” e “progressista”.

A lição que nos fica, para os dias atuais, é que a classe operária brasileira deu mostras de ações de independência de classe, mas não havia o partido com consciência para desenvolver o volume de forças proletário e camponês disponível em perspectiva e estratégia anticapitalista. Sem isso, nem nós, do movimento estudantil, poderíamos ter ido adiante, mas tampouco o movimento operário.

O foquismo, a guerrilha, foi outra forma de não entender a centralidade da classe operária e substituí-la – para além das boas intenções da juventude heroica envolvida nesse projeto – por focos de combatentes isolados e armados.

O vídeo abaixo reproduz o nosso depoimento àquela comissão da UnB, na condição de ex-preso político e dirigente estudantil de época. Não vai além de 30 minutos e, nele, ao relato mais pessoal, se segue um exame crítico daquele momento político e da não-estratégia de parte da esquerda de mais visibilidade [os stalinistas, mas mesmo da esquerda minoritária, que inclui o trotskismo de J. Posadas, também este, para além da sua combatividade - inclusive no meio camponês -, refém do nacionalismo burguês].
Você pode conferir o vídeo abaixo.




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