Mundo Operário

ATO ANTI-SINDICAL E DISCRIMINAÇÃO

Diretor do SINTUSP e membro da Congregação é ameaçado pela administração da Faculdade de Odontologia da USP

Reproduzimos abaixo a Carta Aberta escrita por Adriano Favarin, Diretor do SINTUSP e representante dos trabalhadores da FOUSP na Congregação, sobre as ameaças que vem sofrendo do assessor administrativo por exercer suas obrigações sindicais ao manifestar solidariedade aos trabalhadores terceirizados que estão sendo discriminados.

segunda-feira 18 de setembro| Edição do dia

Carta aberta à comunidade sobre a ameaça que estou sofrendo pela administração da Faculdade de Odontologia da USP

Na manhã de sexta-feira, dia 15/09, o assessor administrativo da Faculdade de Odontologia da USP (FOUSP), Sr. Renato Alves de Moraes, me chamou em sua sala – na presença de minha chefe imediata, Sra. Selma Regina dos Santos Marques e do chefe dos Recursos Humanos, Sr. José Clovis Bezerra de Sousa – para dizer que eu estaria “proibido de falar ou divulgar qualquer assunto referente aos trabalhadores terceirizados”, que eu estava “sendo advertido” e que se eu “continuasse me envolvendo nos assuntos referentes aos trabalhadores terceirizados iria enfrentar consequências piores”.

Essa ameaça feita a portas fechadas veio imediatamente após eu tornar público que já fazia 28 dias que as trabalhadoras terceirizadas da Faculdade de Odontologia estavam sendo proibidas de entrar e utilizar a Copa da Clínica Odontológica e que já fazia 17 dias que o Sindicato havia enviado ofício para a Direção com um abaixo-assinado dos funcionários efetivos da Clínica contrários a essa medida discriminatória, e nada ainda havia sido feito. Se não bastasse, tem circulado a ameaça de que querem transferir/demitir todas elas e contratar novas trabalhadoras que sejam previamente orientadas a não conversar com os funcionários efetivos, estudantes e professores, o que tem gerado medo e segregado ainda mais os terceirizados do restante da Faculdade.

Tenho 28 anos, sou funcionário da USP desde 2013 e sempre me chamou atenção a situação de trabalho e de vida a que são submetidos milhares de trabalhadores terceirizados dentro da Universidade – em sua maioria mulheres, negras, e moradoras das comunidades pobres do entorno. Por trabalhar na Clínica Odontológica, tanto eu quanto os demais funcionários efetivos reparamos que as trabalhadoras terceirizadas não estavam mais utilizando a Copa. Consideramos a situação ultrajante e desumana e eu, enquanto representante dos trabalhadores na Congregação, busquei informar e propor alternativas junto à Direção da FOUSP no sentido de não aceitar ou naturalizar qualquer tipo de atitude discriminatória e de segregação dos terceirizados. Entre estas medidas, os trabalhadores efetivos da Clinica realizaram um abaixo-assinado para que elas voltassem a frequentar a Copa.

Qual não foi minha surpresa quando, em vez de receber alguma resposta da Direção frente o apelo à promoção da integração entre os distintos grupos que constroem a USP – professores, estudantes, efetivos e terceirizados –, fui chamado pelo assessor administrativo para ser advertido e ameaçado por simplesmente exercer as obrigações do mandato pelo qual fui eleito.

Essa intimidação do Sr. Renato contra mim representa uma intervenção direta da administração naquilo que compete exclusivamente aos trabalhadores: definir o papel e a atuação de seus representantes sindicais. Lamentavelmente esse não é o primeiro caso de ingerência na atividade sindical que ocorre dentro da FOUSP. Há dois anos o ex-Chefe da Clínica Odontológica, Sr. Adauto, tentou me transferir alegando que, embora reconhecesse minha competência enquanto funcionário, "minhas funções sindicais seriam incompatíveis com o meu trabalho na Clínica Odontológica".

Agora o Sr. Renato pretende decidir a quem e de que forma eu devo exercer minhas funções sindicais, tendo a ousadia de me fechar dentro de uma sala e me ameaçar caso eu não o obedeça. Se é com esse grau de assédio que a administração trata um dirigente sindical e militante político organizado, não é difícil imaginar como eles pretendem tratar os demais trabalhadores.

É importante ressaltar que o apoio, a defesa dos terceirizados e a solidariedade a todos os membros da classe trabalhadora, da USP ou de qualquer outra categoria, efetivo ou terceirizado, é resolução do Congresso dos Trabalhadores da USP, e o Sindicato, assim como qualquer um de seus Diretores, esta obrigado a praticar e levar essas resoluções adiante. Então, para além das minhas convicções pessoais e ideais, não faço mais do que cumprir a orientação de minha categoria, a quem eu represento tendo sido eleito Diretor do SINTUSP de 2017/2019 e, pelo segundo ano consecutivo, pela maioria dos trabalhadores da FOUSP, como representante na Congregação.

Por isso, é ainda mais absurdo que, pela via do assédio e ameaça, estejam tentando me coagir a violar com minhas obrigações sindicais e com o mandato pelo qual eu fui eleito. O Sr. Renato está disposto a sacrificar sua própria dignidade e manchar a imagem da melhor Faculdade de Odontologia do mundo me intimidando e ameaçando me punir por me solidarizar frente às condições de trabalho a que estão submetendo as trabalhadoras terceirizadas. Mas a verdade é que nem eu nem o Sindicato dos Trabalhadores da USP estamos dispostos a ser coniventes com a implementação dessas medidas segregacionistas e injustas, nem aceitar qualquer repressão autoritária e anti-sindical, e chamamos os estudantes e toda a comunidade acadêmica a não naturalizarmos essa situação.

Adriano Brant Favarin
Auxiliar-administrativo do Almoxarifado da Clinica Odontológica
Diretor do Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP)
Representante dos Trabalhadores na Congregação da FOUSP




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