Política

RESPOSTA AO KIM KATAGUIRI

Dilma, Macri e a meta de absurdos dobrada

Essa semana eu até gostei da coluna do Kim Kataguiri na Folha. Não pelo que ele escreveu porque nesse quesito ele consegue piorar a cada texto, mas por ter comparado Dilma e Macri, novo presidente da Argentina. Gostei de ter feito a comparação porque ela pode trazer reflexões interessantes a serem feitas.

Flávia Toledo

São Paulo

quinta-feira 18 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Se você não sabe nada do que tava rolando na Argentina, vai um resumo: em 2015 o país passou por um processo eleitoral bem importante. Depois de anos de kirchnerismo (governos pós neoliberais) e com a Argentina enfrentando uma crise graças, entre outros fatores, ao refluxo econômico que se deu em toda a América Latina com o fim do super-ciclo das commodities, que gerou um crescimento econômico no continente no início da atual crise capitalista, Cristina Kirchner não conseguiu eleger seu sucessor (apesar de toda uma campanha a favor do “mal menor” que representava Scioli). Em uma eleição apertada, Maurício Macri venceu as eleições presidenciais, surfando numa onda de rejeição à política kirchnerista.

Assim como Macri, outros representantes da direita mais dura têm vencido governos populistas na América Latina, como ocorreu na Venezuela. E outras semelhanças podem ser apontadas, como a campanha de Scioli no segundo turno ter sido basicamente montada sobre a ideia do “mal menor”, lógica que o Brasil pós-2014 conhece melhor do que ninguém. Sobre uma nova configuração política por aqui e os desafios que teremos de enfrentar, sugiro que o leitor dê uma procurada nesse Esquerda Diário (e também o La Izquierda Diario argentino, pra quem lê em espanhol e quiser mais formulações sobre o país) que já temos bastante coisa publicada e muitas outras ainda virão. O que eu quero com esse texto é apontar uma outra coisa.

O colunista pinta o presidente argentino como o grande herói perfeito e, óbvio, faz meia dúzia de formulações que comprovam como Dilma é malvada. Algo como um roteiro Disney.

Em seu texto, Kim aponta algumas medidas que Macri implementou nesse início de governo, como a diminuição de impostos pra exportação, acordos políticos com grandes empresas para garantir investimentos, a “qualidade da democracia” ao “voltar atrás em decreto que nomeou juízes da Corte Suprema” e a escolha por doar seu salário de presidente para uma ONG como sinais da eficiência do seu governo liberal.

Mas Kim não cita as consequências da política econômica de Macri para a população argentina. Não fala uma única palavra sobre como as medidas implantadas nos ramos de exportação têm beneficiado unicamente os donos das empresas exportadoras, e como o aumento da inflação e a desvalorização da moeda têm feito com que os trabalhadores tenham de fazer malabarismos com o salário para que chegue até o final do mês. A carestia de vida tem aumentado com o encarecimento dos produtos, especialmente comida, medicamentos e os aluguéis, e já se aproxima o aumento de luz e gás, ao mesmo tempo em que ocorrem demissões em massa num país cujo governo se mostra uma grande camarata de empresários, em todos os cargos, que governam a seu bel prazer.

Quando Kim defende a eficiência do governo Macri, opta por não dar nome aos bois e dizer a quem ele está sendo eficiente. A população argentina o sabe: aos patrões, porque pros trabalhadores a situação segue se complicando. Trata-se de um movimento muito consciente do colunista, que ambiciona ser o grande porta-voz de uma direita reacionária que em toda a América Latina tem travado uma forte disputa para se alçar como voz hegemônica no momento em que a crise mundial chega com tudo, uma direita que busca desesperadamente oportunidades de lucro às custas da pauperização dos trabalhadores.

Um exemplo é a afirmação no mínimo infantil de que Macri “também erra, mas se corrige”, apontando que o presidente teria voltado atrás depois de nomear por decreto dois juízes. Acontece que essa não foi uma ação isolada de Macri. Com o Congresso parado, ele tem governado em base a Decretos de Necessidade e Urgência, aperfeiçoando o que o mesmo criticava no governo Kirchner. É uma forma de passar no início do seu governo, quando ainda há um certo fôlego e certa popularidade, medidas anti-populares de ataques e cortes, um grande número de demissões ao funcionalismo público e inclusive prisões de figuras da oposição, como é o caso do kirchnerista Millagro Sala, gerando uma forte campanha pela sua soltura, da qual o PTS tem participado ativamente.

A discussão sobre o privilégio dos políticos é fundamental a se fazer agora. Na eleição argentina de 2015, uma figura despontou também por conta dessa discussão. Nicolás Del Caño, do PTS, ex candidato à presidência pela FIT (Frente de Esquerda dos Trabalhadores, na sigla em espanhol), ficou conhecido como deputado por, bem como os demais parlamentares do PTS, ganhar o equivalente a uma professora, doando o restante para as lutas dos trabalhadores.

Quando Macri aparece “questionando” os privilégios de políticos não passa de uma brincadeira de extremo mau gosto. Como poderia um presidente reacionário, que governa com e para os empresários e que desde o início aplica cortes e ataques mexer minimamente em privilégios da casta política? No caso de Macri, a doação nada mais é do que uma máscara para firmar certa governabilidade. O debate que o PTS trava questiona profundamente os privilégios com que se cercam os políticos no Estado burguês. Trata-se de questionar a enorme distância entre um trabalhador médio e a casta política que governa o país, uma diferença que aponta claramente a que interesse servem as políticas que o Estado leva a frente.

Doar o seu salário para uma ONG que serve comida a pessoas pode parecer muito bonito, mas quando a doação parte de alguém cujos ataques que vem implementando estão, concretamente, tirando a comida do prato do trabalhador é preciso realmente parar pra analisar a que serve esse governo. Para nós está claro: serve aos interesses do capital. Mas essa discussão não interessa a Kim, que vive num mundo de fantasias onde os únicos políticos privilegiados e corruptos são os do PT. A única resposta que ele apresenta é o “Fora Dilma, Fora PT”, mas sem qualquer discussão de pra quem a oposição governaria.

Kim Kataguiri definitivamente mostra o que deseja ao defender o impeachment: um governo do tipo Macri no Brasil, uma direita cada vez mais dura, mais anti operária, mais reacionária e autoritária. Um governo de empresários que governará para empresárias, enquanto a população se desespera para fechar as contas no final do mês.

Não há qualquer possibilidade de o “Macrizinho” brasileiro apresentar qualquer resposta para a crise, pois para eles a crise é exatamente uma grande oportunidade. Oportunidade de lucro, crescimento político, obtenção de privilégios. Por trás da máscara de que defende o interesse do “povo brasileiro” contra os cortes de Dilma, o que ocorre nada mais é do que a tentativa de alavancar um governo cuja política econômica e social será totalmente desviada dos interesses e necessidades dos trabalhadores.

Em palavras muito claras, Kim e os tantos candidatos que o MBL vai soltar nas próximas eleições defendem unicamente cortes, ataques, demissões. Sufoco para os trabalhadores e bonança para os patrões. Essa é a política de Macri, essa é a política que o MBL quer que seja aplicada no Brasil, essa é a política que está tentando galgar seu espaço em toda a América Latina. E é a ela que devemos responder nas ruas, nas fábricas e escolas. A resposta para essa crise não está em Macri, nem em Dilma, nem em Kim e sua trupe. Está na organização dos trabalhadores independente dos governos e da direita, como fazemos na Argentina com o PTS, como fazemos aqui no Brasil. Uma resposta que chegue de fato ao cerne da questão, que defenda os interesses da classe trabalhadora e da juventude e combata cada privilégio de empresários e políticos.




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