Cultura

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Dias de Criança

Fábio Nunes

Vale do Paraíba

quarta-feira 5 de outubro de 2016| Edição do dia

A mãe limpa a casa da mulher rica e depois volta com um monte de comida que a dona ia jogar fora. Tem bolo, frango assado do domingo e até coisa que a gente nem sabe o que é. Não dá pra comer tudo de uma vez porque senão no outro dia não tem mais. Como pedaço bem pequenininho, daí parece que não acaba.

A mãe tem ferida no estômago e quando dói ela fica chorando deitada na cama. Eu choro também. Um dia o filho da mulher rica tava em casa e ele deu um murro na barriga doente da minha mãe. Ele apanhou até ficar sem ar. Fiquei olhando ele caído no chão. Dei risada. Queria que não respirasse mais, mas ele respira ainda.

O pai chega do trabalho as seis da tarde. Fico vendo o relógio. O barulho do passo dele no corredor dá um negócio estranho, paro até de brincar. Ele diz que homem não pode ter medo e espera anoitecer e chover bem forte pra mandar eu comprar pinga no bar. O relâmpago dá medo. Queria ser rápido igual o raio. Aprendi a correr de olho fechado no escuro.

Tem um monte de garrafa de pinga debaixo do tanque. O pai vai ficando doente, doente e depois já nem sai mais de dentro de casa. Ele vomita sangue. Fica bebendo e xingando. O corpo dele tá muito magro, também, não come, só quer saber de ficar falando que eu sou medroso. Um dia sentei no sofá com a faca na mão.

A mãe fica feliz porque eu ajudo ela. Até carrego coisa pesada. Ela passa a mão na minha cabeça e eu durmo. Tenho vergonha de abraçar ela. Só no aniversário, no Natal e no Ano Novo. Abraço rápido. O pai é assim também, abraça rápido e tem vergonha de chorar. Quando a mãe dele morreu ele chorou bastante.

O irmão pequeno era bonzinho, mas depois ele ficou muito na rua, não conseguia ficar dentro de casa por causa do pai. Já corri da polícia também, mas a mãe não sabe. Um dia a polícia levou meu irmão. Parecia que tinha uma flecha entrando bem aqui no peito. Chorei bastante. Mas ele voltou, era pequeno ainda. Não gosto de polícia.

Eu tinha um cachorro. Era meu amigo. Eu entrava dentro da casinha dele. Depois não cabia mais. Mas o pai ficava sem trabalho e não conseguia pagar o aluguel e toda vez tinha que sair escondido. O cachorro era velho e tava com muito carrapato. O pai falou que não dava pra levar ele porque na casa dos outros não podia. O caminhão da mudança foi indo embora e ele ficou sentadinho na frente do portão, nem conseguiu correr atrás. Ele pensou que a gente ia voltar.




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