Política

VIII EPMARX

Diana Assunção debate sobre marxismo e luta de classes no Brasil na mesa de abertura em Joao Pessoa

A análise do cenário mundial, que hora se delineia, e sua relação com o golpe institucional, suas consequências no Brasil e perspectiva da luta de classes foram a tônica da fala de Diana Assunção, na mesa de abertura do VIII Encontro de grupos de Pesquisa marxista – EPMARX, ocorrido entre os dias 9-11 de novembro, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa.

sábado 19 de novembro| Edição do dia

A semana que se passou mobilizou estudantes, professores e movimentos sociais que, reunidos na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), discutiram, à luz do marxismo, a luta de classes no Brasil e as condições objetivas da atual crise do capital, que traz à reboque uma forte ofensiva dirigida contra as práticas sociais, as lutas e conquistas dos trabalhadores.

O evento, criado em 2008 com o intuito de promover o intercâmbio entre os grupos de estudo e pesquisas vinculados à tradição marxista no Nordeste, através da organização colegiada de evento acadêmico anual, teve nessa edição, em sua mesa de abertura, Diana Assunção, trabalhadora da Universidade de São Paulo (USP), militante do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), fundadora do grupo de mulheres “Pão e Rosas”, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), no qual impulsiono a Secretaria de Mulheres e também da Rede Internacionais de Jornais Esquerda Diário.

Com o mundo ainda impactado pela vitória, na terça, dia 08/11, de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos e suas consequências para países como o Brasil, a fala de Diana Assunção teve como preâmbulo uma breve análise desse fato.

Na sua intervenção, apontou para como a própria burguesia internacional - que impulsionou a campanha de Hillary Clinton – temendo a política econômica do candidato eleito, que anunciara em campanha um plano de infraestrutura cujo objetivo tenderia a aumentar o emprego e o crescimento do país, e também os gastos militares (fatos que a desagradam pelo aumento das taxas de juros e da inflação que dessa proposta resultariam) ainda tenta compreender o fenômeno que deu a vitória a esse candidato com discurso populista e de direita. Do ponto de vista das lutas no coração do capitalismo, essa vitória tem impacto também sobre movimentos como ’’Black Lives Matter’’, cuja luta contra a brutalidade policial vinha se soma à denúncia contra as condições econômicas, sociais e políticas que oprimem os negros dos EUA.

É importante, como pontuou Diana, compreender como o presidente golpista Michel Temer e sua forma de governo e base política se identificam com o candidato norte-americano vitorioso, posto que a atual cara da política brasileira se organiza de modo a tecer relações mais próximas, de maior realinhamento com os interesses imperialistas. Não é à toa que o golpista Michel Temer logo se apressou em parabenizar Trump pela sua vitória...

Na continuação, Diana abordou o cenário brasileiro e o acirramento de seus conflitos, momento esse em que se sobressai o protagonismo dos jovens secundaristas e estudantes de universidades públicas do país, que vêm dando aula de luta ao, por meio das ocupações, se colocarem contra os ajustes propostos pelo governo no sentido de tentar recompor o capital em crise às custas dos trabalhadores (como ocorre com a PEC 55 e sua proposta de congelar os orçamentos da saúde e da educação por vinte anos!) e, também, contra a reforma do ensino médio, feita de maneira arbitrária e de modo a minar as bases da luta que vem se articulando no país justamente por meio dos jovens.

Todas essas lutas em curso no Brasil, pontuou Diana, apontam para a necessidade de se romper com a paralisia dos aparelhos sindicais burocráticos, que em sua “oposição responsável”, agem no sentido muito mais de blindar uma possível candidatura de Lula em 2018, que de agir de maneira combativa contra os ataques desferidos pelo governo golpista de Temer aos trabalhadores. Não há indicativo que as principais centrais sindicais do país (CUT, CTB), mesmo diante dessa linha de governo que tende à intensificação dos ataques, por meio de uma política de cortes e austeridade, puxem uma greve geral organizada a partir de assembleias em suas bases. E tal fato precisa ser criticado, pois há uma tendência de que os conflitos se intensifiquem, principalmente com a perspectiva de um aprofundamento da crise econômica mundial.

Em relação ao avanço da direita, Diana apontou a responsabilidade política do Partido dos Trabalhadores (PT), que, ao assimilar todos os métodos corruptos de governo dos capitalistas - assim como também ao se posicionar de modo favorável a aplicar duras medidas de ajuste, desvalorização e inflação e endurecer a repressão contra as lutas operárias e populares e também valer-se de sua influência junto aos sindicatos e aos movimentos sociais para frear qualquer resistência aos ataques -, sem dúvida, abriu o caminho para o fortalecimento da direita. Também, assim, permitiu, que esta se apresentasse de maneira “renovada”, por meio de “movimentos”, que aparentemente se apresentam como não tendo representatividade partidária e com bandeiras democrático-burguesas como a “luta pela corrupção”.

A crise econômica que teve início, em 2008, no coração do capitalismo e que, ao se espalhar pelas economias mundiais, hoje se apresenta como uma crise orgânica do capital, e que atinge contemporaneamente o conjunto dos governos ditos “progressistas” na América Latina, também foi ponto importante abordado por Diana.

Demonstrando os limites tanto da estratégia que se pretendia “neodesenvolvimentista” – que manteve uma forte dependência externa e um padrão de dominação e acumulação típico de países semicoloniais - como também da política de aliança de classes que serviu de base política para a sustentação dos governos do PT, na última década, Diana explanou sobre esse instante de crise econômica que se abateu sobre a América Latina, no referido período e trouxe à tona o chamado “fim de ciclo” para esses governos “progressistas”.

Voltando às lutas em curso, destacou, no tocante às ocupações de secundaristas e universitários que estão acontecendo em todo o pais, a necessidade de coordenação das mesmas no marco de uma estratégia mais geral, que tenha como perspectiva frear os ataques, a partir dos métodos da classe trabalhadora. Assim, apontou esse como sendo um instante histórico complexo para a América latina e consequentemente para o Brasil (porque, em seu conjunto, a crise mundial se apresenta de maneira diferenciada das demais crises inerentes ao capitalismo; é mais profunda!), por ser de longa duração e por possuir caráter mundial e também se espraiar englobando o conjunto da vida social.

Em sua conclusão, reforçando a sua posição anticapitalista que reafirma a atualidade da revolução enquanto única saída possível tanto para operários, como para a juventude que luta, Diana apontou para a urgência em si organizar de maneira coletiva e independente a luta dos trabalhadores, de modo que somem forças às ações que exemplarmente vêm se dando por parte da juventude, momento que pode abrir espaço para que os trabalhadores assumam o seu papel e se coloquem na linha de frente dessa luta contra os ataques do governo Temer.




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