Sociedade

DEMARCAÇÃO JÁ!

Diálogo com a letra da música Demarcação Já! Para aprender mais sobre os indígenas

Esse artigo faz uma análise e dialoga com os mais diversos temas relevantes sobre a questão indígena apresentada na música "Demarcação já" e que foi interpretada por diversos artistas. Conheça os termos e se inteire sobre essa questão de primeira ordem.

quinta-feira 22 de junho| Edição do dia

Assista ao vídeo aqui

Primeira estrofe, interpretada por Chico César:

Já que depois de mais de cinco séculos
E de ene ciclos de etnogenocídio
O índio vive, em meio a mil flagelos
Já tendo sido morto e renascido

Tal como o povo Kandiwéu e panará

Demarcação Já!

O primeiro verso trata de todo o tempo em que os índios vêm sendo dizimados, ou seja, desde a chegada dos portugueses em 1500. Como já tratado em artigo do esquerda diário. O segundo verso menciona o etnogenocídio que é a morte da etnia, da cultura, dos costumes de um povo. Mas o índio vive em meio aos flagelos e renasce.

A letra cita o povo Kandiweu que é o povo que se localiza no Pantanal mato-grossense. São índios que assim como os Guarani-Kaiowá lutaram na guerra do Paraguai e perderam os seus territórios. Hoje residem em áreas ínfimas sob nenhuma proteção. Sobre sua cultura, a literatura que muito é a expressão da elite intelectual dominante já os apelidou de “índios cavaleiros”, por aparentemente esses índios serem exímios montadores de cavalos.

Além disso, esses índios descendem do tupi, e os institutos mais renomados dizem que sua cultura e mitologia é hierarquizada em “senhores e cativos”. Além desse povo também é citada a etnia Panará, que vivia na região da estrada Cuiabá-Santarém nos estados do Mato Grosso e Pará. Perceba que as terras pertencentes a estes povos originariamente eram imensas! Hoje esses índios, depois de terem sido removidos ao Parque do Xingu, vivem no que foi preservado de suas terras, pois a elas retornaram; mas estão em uma região muito menor depois de terem dois terços de seu povo dizimado.

Segunda estrofe, interpretada por Maria Bethânia:

Já que diversos povos vêm sendo atacados,
Sem vir a ver a terra demarcada
A começar pela primeira no Brasil,
Que o branco invadiu já na chegada:

A do tupinambá

Demarcação Já!

Perceba o jogo que o autor da letra faz com a palavra já, pois as estrofes se iniciam e terminam com a palavra já. Trabalha-se a ideia de que já que uma coisa negativa foi feita com o índio, então que se tenha também demarcação já. Além da repetição ser uma técnica para reforçar na mente de quem lê ou ouve uma ideia específica.

Esta segunda estrofe é autoexplicativa e fala sobre os Tupinambá que são o povo originário que vivia na costa do Brasil e que também sofreu etnocídio de forma que seus filhos que podem viver ainda hoje nas cidades não se reconheçam.Isso porque hoje se usa o termo “pardo”, que junto com o apagamento histórico da cultura faz com que a maioria da população não se reconheça indígena. Logo se fizéssemos um resgate histórico do que temos da cultura dos Tupinambá até hoje, talvez as demarcações de suas terras atravessassem grande parte do território nacional.

Terceira estrofe, interpretada por Nando Reis:

Já que, tal qual as obras da Transamazônica,
Quando os milicos os chamavam de silvícolas,
Hoje um projeto de outras obras faraônicas,
Correndo junto da expansão agrícola,

Induz a um indicídio, vide o povo Kaiowá,

Demarcação já!

O primeiro verso faz menção à rodovia transamazônica que possui 4.223 km de extensão e liga o estado da Paraíba ao estado do Amazonas e passa por sete estados brasileiros Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas.

Essa rodovia foi projetada pelos militares na época do AI-5 no então governo Médici em 1970, sendo inaugurada em 1972. Segundo estudoshouve extermínio de populações indígenas nas áreas em que essa rodovia foi construída e em 2013 a Comissão Nacional da Verdade (CNV) apurou que cerca de 8.000 indígenas (segundo dados oficiais) foram mortos nos projetos da rodovia e comunidades indígenas como os Aikewara e Parakanã, no sudeste do Pará, tiveram a sua população reduzida pelo indicídio ou extermínio dos índios. Além disso, a construção da rodovia exterminou mais 29 grupos indígenas que viviam isolados em toda a região da rodovia.

O segundo verso faz referência a essa contextualização histórica e diz que os "milicos" ou militares, naquela época, chamavam os índios de floresta de "silvícola" que segundo os dicionários é todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é intensificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional. Ou seja, aos índios não era dado nem mesmo o direito de terem uma identidade nacional ou serem chamados brasileiros, como se eles simplesmente não existissem no cotidiano do Brasil. Isso por causa da ideia de que índio é aquele que vive em floresta. Obviamente esse índio poderia viver na cidade se assim quisesse, bem como há muitos índios na cidade que devido a essa campanha etnocida, que também esteve presente na ditadura militar, não se reconhecem como indígenas e na escola "aportuguesada" perderam o direito de aprenderem suas línguas e sua história.

O terceiro e quarto verso desta estrofe mencionam outras obras faraônicas que estão aumentando o indicídio, por exemplo a usina de Belo Monte. No quinto verso faz referência ao povo Guarani-Kaiowá. Ao deixar em aberto, ou seja, sem especificar qual obra faraônica em questão, pode-se dizer que a letra da música faz referência não apenas às obras mais conhecidas, mas a qualquer obra ou a todas elas. Enfim, se pensarmos bem, todas as cidades construídas até hoje foram obras faraônicas que exterminaram e escravizaram índios e negros.

Sobre os Guarani-Kaiowá pode te interessar uma resenha que faz um resumo do filme "Martírio" que conta como esses índios perderam seus territórios por causa da expansão agrícola no país. Veja aqui em "Filme ’Martírio’ e um relato da resistência dos índios Guarani-Kaiowá.

Quarta estrofe, interpretada por Zeca Baleiro:

Já que tem bem mais latifúndio em desmesura
Que terra indígena pelo país afora;
E já que o latifúndio é só monocultura,
Mas a T.I. é polifauna e pluriflora,

Ah!,

Demarcação já!

Essa estrofe denuncia mais uma vez o quanto os latifúndios estão crescendo no país, seja por terras griladas ou não, e o quanto se matam índios para que os fazendeiros possam expandir suas propriedades, que na maioria dos casos servem ao agronegócio. O último verso traz um apelo socioambiental, comparando o modelo de produção do agronegócio, limitado a um tipo de plantio, com a forma como os índios cuidam da terra, diversificada tanto em relação às plantas quanto aos animais. O discurso ambiental é correto, mas quando se trata dos indígenas é insuficiente, pois os índios são pessoas, e mesmo isolados possuem total capacidade de aprendizagem. Ou seja, não são apenas seres da natureza, mas também têm cultura.

O governo golpista de Temer vem entregando as nossas florestas e com isso debilitando ainda mais a proteção dos índios que vivem isolados, como o Esquerda Diário já denunciou e você pode ver aqui. Mas é bom lembrar que os governos do PT, absolutamente nada fizeram pelos indígenas entregando-os nas mãos de Kátia Abreu, ministra que sempre e incansavelmente defendeu os latifundiários. A constante morte dos indígenas não foi parada com Lula e Dilma e o sangue dos índios também estão na conta do PT.

Quinta estrofe, interpretada por Margareth Menezes:

E um tratoriza, motosserra, transgeniza,
E o outro endeusa e diviniza a natureza:
O índio a ama por sagrada que ela é,
E o ruralista, pela grana que ela dá;

Hum… Bah!

Demarcação já!

Essa estrofe faz uma crítica ampla sobre como o agronegócio destrói a natureza com a motosserra e tratores, bem como "transgeniza" os alimentos. Em contraponto a letra diz que o índio ama a terra pelo que ela é. Isso é simples de compreender quando entendemos que os índios se entendem como parte da natureza, a natureza não é um objeto que se pode destruir, mas uma continuação da vida e que permite que haja vida; já o ruralista não possui esse ponto de vista e quando comete todas essas atrocidades, como destruir a natureza e tão ruim quanto, e por isso e não menos pior mata os índios para possuir as terras. Tudo isso visando apenas o lucro. Conclui-se que o lucro, ou o capitalismo é o responsável pelos crimes que são cometidos contra os indígenas diariamente.

Sexta estrofe, interpretada por Zélia Duncan:

Já que por retrospecto só o autóctone-
mantém compacta e muito intacta,
E não impacta, e não infecta, e se
Conecta e tem um pacto com a mata

–Sem a qual a água acabará –,

Demarcação já!

Essa estrofe levanta a questão da forma como se lida com a mata. Mesmo com suas inúmeras vertentes, a cultura indígena sempre teve com a natureza uma relação de conservação, de manter a capacidade de renovação dos recursos utilizados. Isso difere da cultura do homem branco ocidental, baseada no extrativismo e no uso desmedido de todos os recursos até que se esgotem. Por fim ainda reflete sobre o bem mais precioso que temos e que está em risco justamente porque não lidamos com ele da forma que os índios lidariam: a água. Essa é uma questão séria, pois a cada dia são mais e mais denúncias de áreas, rios e mares que estão sendo poluídos e que futuramente podem trazer um grave risco à humanidade.

A questão ambiental é mesmo importante. É fundamental para a manutenção das condições que proporcionam a existência da vida em nosso planeta que pensemos sobre sustentabilidade, proteção ambiental e utilização consciente dos recursos naturais. Mas nada disso é viável no capitalismo, um sistema cujo único objetivo é a acumulação de riquezas por uma parcela minúscula da população. Só será possível de fato termos uma relação harmoniosa com a natureza quando a sociedade estiver organizada com uma economia planificada, na qual os recursos utilizados sejam realmente apenas os necessários, e que aí sim poderão ser renováveis.

Sétima estrofe, interpretada por Felipe Cordeiro e dona Onete:

Pra que não deixem nem terras indígenas
Nem unidades de conservação
Abertas como chagas cancerígenas
Pelos efeitos da mineração

E de hidrelétricas no ventre da Amazônia, em Rondônia, no Pará…

Demarcação já!

Essa estrofe traz à tona a questão da construção de hidrelétricas na região da Amazônia, e nos estados de Rondônia e do Pará; e também trata das unidades de conservação que são constantemente atacadas pela mineração. O Esquerda Diário já denunciou esses fatos em artigo crítico à Funai e mostrou que o povo Ianomâmi tem seu território invadido constantemente por garimpeiros, mesmo com a demarcação já feita. A luta da etnia Ianomâmi é conhecida há décadas, e volta e meia retornam as denúncias de novos focos de doenças, poluição por mercúrio nas águas, desmatamento para pistas de pouso ilegais, e todos os outros rastros de destruição que o garimpo deixa.

A cada nova informação fica mais claro que a forma de lidar com a natureza não é apenas uma visão de mundo ou um costume, mas uma necessidade nos dias atuais. Contudo é necessário ressaltar que em um sistema como o capitalismo, que só visa o lucro, não há visão de mundo que sustente a destruição gradativa dos nossos bens naturais, pois não há socialização do trabalho e nem da produção de modo que se produza apenas o necessário, ao contrário se produz em excesso, como no caso de alimentos, e quando sobram os produtos são descartados. Não há um plano inteligente de produção nem quantitativo, quem dirá sustentável.

Oitava estrofe, interpretada por Elza Soares:

Já que “tal qual o negro e o homossexual,
O índio é ´tudo que não presta´”, como quer
Quem quer tomar-lhe tudo que lhe resta,
Seu território, herança do ancestral,

E já que o que ele quer é o que é dele já,

Demarcação, tá?
Demarcação já!

O debate que a oitava estrofe coloca é sobre minorias. Didaticamente a letra explica que ser índio é também ser "tudo o que não presta" aos olhos dos latifundiários reacionários, e sofrer racismo como os negros e discriminação como os LGBTs. É certo que no imaginário popular o índio não é considerado um ser inferior, sendo visto em alguns poucos casos da intelectualidade como o "anti-herói" nacional, como em "Macunaíma". Porém, pela antropologia que tem como um de seus mentores Gilberto Freyre, os índios brasileiros são vistos e descritos como seres animalescos que se encontravam em um estado de infância eterna. Incrível notar como o simples desenvolvimento distinto de civilizações foi utilizado como justificativa para as maiores arbitrariedades que atendiam aos interesses mais escusos, como foi e é o indicídio e o etnocídio.

Do terceiro ao quinto verso o que se coloca é que o que o índio reivindica, que são suas terras, já o é de direito. Apesar de ainda haver índios que não se identificam como indígenas nas grandes cidades e de a discussão sobre quem é índio ou não no Brasil parecer muito complexa, na realidade é bem simples, pois ser indígena não é somente possuir o fenótipo indígena, mas sim reivindicar uma cultura e uma ancestralidade que ao longo dos séculos tentou-se apagar.Sobre os índios de hoje a discussão é longa, pois se poderia dizer que os nordestinos, por exemplo, por serem descendentes diretos e por afirmação da identidade indígena, são de fato índios. Sobre tudo isso, porém, caberia uma longa campanha de identificação indígena para que pudesse se resgatar também a cultura indígena.

Nona estrofe, interpretada por Lenine:

Pro índio ter a aplicação do Estatuto
Que linde o seu rincão qual um reduto,
E blinde-o contra o branco mau e bruto
Que lhe roubou aquilo que era seu,

Tal como aconteceu, do pampa ao Amapá,

Demarcação lá!
Demarcação já!

Sobre essa estrofe o primeiro verso ao dizer "estatuto", se refere ao que está lei, ou seja, a própria demarcação. Além disso, há um Estatuto do índio de 1973 que precisa ser revisto, pois os índios não o reivindicam. O verbo "lindar", significa delimitar e "rincão" significa terra, então, um estatuto que delimite a terra do índio. Na terceira estrofe usa-se o verbo "blindar" o índio que significa proteger. Essa é uma outra discussão, pois não basta apenas delimitar as terras indígenas, é necessário proteger essas terras como também a própria vida dos índios, pois se ficarem desassistidos serão atingidos pelo garimpo, agronegócio e latifúndio.

Sobre o branco ser "mau e bruto", obviamente não se está se dizendo que o branco por natureza é ruim, mas sim que historicamente e por isso concretamente foram os brancos que dizimaram os índios. Obviamente hoje não se trata de uma luta entre raças mas do reconhecimento do que aconteceu do pampa ao Amapá como a música coloca. Não há reparação que pague o sangue da cultura e dos corpos mortos dos índios até hoje, somente o socialismo como transição ao comunismo poderia começar a pautar as demandas indígenas para que num futuro que poderá ser longínquo possa haver uma equiparação histórica.

Equiparação entre índios e brancos nas cidades e direito de autodeterminação para aqueles que quiserem viver em suas comunidades isolados. Ou ainda, viverem nas comunidades e nas cidades.

Décima estrofe, interpretada por Arnaldo Antunes:

Já que é assim que certos brancos agem:
Chamando-os de selvagens, se reagem,
E de não índios, se nem fingem reação
À violência e à violação

De seus direitos, de Humaitá ao Jaraguá;

Demarcação já!

Essa estrofe trata sobre a questão dos índios reagirem à violência ou não. Segundo a carta de Pero Vaz de Caminha, o índio é apresentado como bastante receptivo ao que vem de fora, o que não é um erro se considerarmos as descrições de como os índios agiam ao mostrar as terras e suas riquezas diante do branco. Contudo, ser receptivo não significa ser resignado e a reação dos índios também é importante e vemos isso cotidianamente com denúncias de ataques às terras que foram demarcadas e como os índios bravamente resistem ao longo dos séculos a todo tipo de violação e violência. Porém a repressão estatal contra os índios é algo que torna difícil qualquer reação, pois os índios não possuem o armamento do Estado e sobre isso o Esquerda Diário também denunciou recentemente um grande atentado contra os índios pelo aparato estatal no MA, em que 13 índios ficaram gravemente feridos.

Quanto a chamar os índios de selvagens, isso é bastante comum, porém é bastante grave. Trata-se de um ato de racismo, pois pensar no índio como um animal da floresta e não como um ser humano munido de todas as capacidades mentais, simplesmente porque sua civilização se desenvolveu em meio à floresta é extremamente preconceituoso. O índio possui cultura, história e tradição. Sua linguagem oral é extremamente complexa, pois os índios são exímios historiadores e sabem as datas dos acontecimentos de cor, além disso são completamente capazes de aprenderem e fazerem uso da linguagem escrita como os brancos. Isso para os povos isolados, porque a maioria das comunidades indígenas hoje são alfabetizadas e bilíngues, pois falam sua língua ancestral e o português.

Décima primeira estrofe, interpretada por Céu:

Pois índio pode ter Ipad, freezer,
TV, caminhonete, “voadeira”,
Que nem por isso deixa de ser índio
Nem de querer e ter na sua aldeia

Cuia, canoa, cocar, arco, maracá.

Demarcação já!

Essa estrofe é interessante, pois traz à tona a discussão sobre o que é ser índio em 2017. Obviamente que os índios não precisam viver isolados em suas aldeias sem usufruir em nada os avanços tecnológicos. Ter uma geladeira, computador não os impede de manter sua tradição e sua cultura. O índio não é um ser folclórico que deve ser mantido na floresta como se fosse um animal. Como qualquer pessoa nos dias atuais também pode ter celular, estudar, ter internet e continuar sendo índio. Defender o contrário seria defender que o índio não pode ser sujeito nessa sociedade e utilizar de todos os recursos que ela possui.

Cuia, canoa, cocar, arco, maracá são os utensílios que os índios desenvolveram e que atendiam completamente suas demandas, agora se o índio está inserido na sociedade ocidental é justo que também faça uso de toda tecnologia que essa sociedade possui.

Décima segunda estrofe, interpretada por Zaca Pagodinho:

Pra que o indígena não seja um indigente,
Um alcoólatra, um escravo ou exilado,
Ou acampado à beira duma estrada,
Ou confinado e no final um suicida,

Já velho ou jovem ou – pior – piá.

Demarcação já!

Em 2014, foram 70 casos – excluindo os muitos que devem ocorrer sem registro oficial – de assassinatos de indígenas, quase sempre motivados por disputas para roubar suas terras. A mortalidade entre crianças foi de 785 crianças nesse mesmo ano, chegando a 141,64 a cada mil nascidos entre os xavantes, no Mato Grosso do Sul.

As populações indígenas resistem, a muito custo, mas a brutalidade da vida que o capitalismo lhes impõe cobra preços altíssimos a esses povos, cuja vida é uma guerra cotidiana pela sobrevivência. Grande parte do povo Guarani-Kaiowá, por exemplo, reside à beira das estradas. Ninguém em sã consciência poderia considerar a elevadíssima taxa de suicídios dos povos indígenas, que recai sobretudo em cima dos jovens ou “piá”, cujas perspectivas de vida são extremamente precárias, de forma separada dessas condições de vida.

Em 2014, o relatório de violência contra os indígenas apontou 135 casos de suicídio entre os povos de diversas regiões, uma morte a cada três dias, sendo 90% deles entre jovens de 10 a 29 anos. No Amazonas e Mato Grosso do Sul estão concentradas as maiores taxas, com números que representam, literalmente, um extermínio dos povos atingidos: em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a taxa de suicídio é de 33,3% na população entre 10 e 19 anos. Em Tacuru, no Mato Grosso do Sul, o índice foi de 100%. Entre os Guarani, a taxa de suicídios é 30 vezes maior do que no restante da população. Dados coletados entre 2000 e 2005 mostraram que entre os Kaiowá a taxa de suicídios era 19 vezes maior do que no restante da população.

Essa verdadeira barbárie mostra o efeito devastador do cruzamento entre pobreza, racismo, privação de direitos humanos e de condições mínimas para uma vida digna. Todos frutos do capitalismo. Desde o golpe institucional, os ataques aos direitos indígenas, que já eram imensos sob os governos petistas, tiveram carta branca para avançar. A barbárie capitalista como fator indutor de suicídio entre os povos indígenas está longe de ser uma realidade exclusiva do Brasil: a própria OMS aponta que povos indígenas nos EUA, Canadá, aborígenes australianos e na Nova Zelândia também possuem taxas de suicídio muito acima da média das populações de seus respectivos países, em especial entre os homens jovens.

Décima terceira estrofe, interpretada por Gilberto Gil:

Por nós não vermos como natural
A sua morte sociocultural;
Em outros termos, por nos condoermos –
E termos como belo e absoluto

Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná.

Demarcação já!

Morte sociocultural é a morte social e cultural de uma realidade construída pelo homem e que se relaciona com a interação de pessoas, com o meio-ambiente e com outras sociedades. Muito já se escreveu sobre a contribuição indígena sobre a forma de lidar com a natureza, agora é hora de pensar um pouco em sua cultura.

Os tupis que eram os índios que vivam em toda a costa do Brasil possuíam maneiras diferentes de entender a sua sexualidade. Os índios não eram monogâmicos, nem os homens e nem as mulheres, e dentro da família quanto mais mulheres havia, melhor era para os feitos na comunidade. As indígenas não entendiam o conceito de ciúme e para catequizá-las, os jesuítas diziam que era necessário sentir ciúme e que o contrário era pecado. A sociedade burguesa heteronormativa não apenas mata LGBTs todos os dias, mas também acabou gradativamente com a forma de vida de relação entre os índios.

A destruição dessa cultura também foi possível devido ao apagamento da língua tupi, sendo Marquês de Pombal o responsável pela proibição dessa língua. Não há lado a se tomar, se dos jesuítas que colonizavam “mais brandamente”, ou da coroa portuguesa que expulsou os jesuítas. Ambos mataram os índios, seja pela bala, seja escravizando ou ainda eliminando gradativamente a sua cultura.

Em tupi não se pode dizer “minha árvore” porque não se pode possuir elementos da natureza, isso explica e contradiz muitos teóricos que dizem que os índios são bons selvagens e mostra que a não resistência em relação a extração de pau-brasil tem muito a ver com a visão de mundo ou com a cultura indígena que a língua resguarda. Indo mais além, aparentemente esse conceito se expande e pessoas também não são possuíveis, o que explica mais amplamente as relações entre esses índios.

Décima quarta estrofe, interpretada por Ney Matogrosso:

Pois guaranis e makuxis e pataxós
Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós;
É quem dentro de nós a gente traz, aliás,
De kaiapós e kaiowás somos xarás,

Xará.

Demarcação já!

Guarani, makuxis, kaiapís e kaiowás são povos indígenas. Nesse trecho a letra da música amplia o alcance do que são os povos indígenas e o que pode ser a influência desses povos no dias atuais, pois guarani são os indígenas que ocupam e apesar da história ainda ocupam alguns territórios na Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruiguai e a porção centro meridional do Brasil na figura dos Kaiowás.

Essa estrofe dispensa comentários. A interpretação de Ney Matogrosso emociona no vídeo. Nós somos índios! Somos xarás! Isso precisa ser dito. Não podemos deixar que apaguem a nossa ancestralidade. Resgatemos a nossa história, o nosso passado e tentemos reconhecer o que nos nossos costumes cotidianos é indígena. O etnocídio não vai apagar a nossa cultura, os indígenas vivem e resistem!

Décima quinta estrofe, interpretada por Tete Espíndola:

Pra não perdermos com quem aprender
A comover-nos ao olhar e ver
As árvores, os pássaros e rios,
A chuva, a rocha, a noite, o sol, a arara

E a flor de maracujá,

Demarcação já!

Aqui os temas parecem mais apaixonados mas não são menos importantes. Não se trata apenas de retomarmos a nossa relação com a natureza como se ser indígena implicasse amar a natureza. Obviamente os índios veem beleza na natureza, mas porque a sua vida concreta se dá em meio a ela. Pode haver quem diga que precisamos retornar a viver em harmonia com a natureza e não há nada de problemático nisso, mas ser indígena em 2017 também é ser um ser metropolitano.

O mais importante dessa estrofe é o verbo “aprender”, pois reconhecer que muito se tem a aprender com os índios é algo necessário, vide por exemplo, o quanto de territórios na Amazônia são perdidos para os imperialistas quando se diminui a proteção. O interesse imperialista na cultura indígena também reside no conhecimento que os indígenas carregam sobre as plantas. Com certeza trata-se de um patrimônio da humanidade e devemos ser contra os imperialistas não para resgatar nenhum tipo de nacionalismo, mas porque a classe trabalhadora e os oprimidos são os que morrem cotidianamente para atender os interesse mais escusos, sendo os indígenas uma dessas minorias. Os trabalhadores e oprimidos não têm pátria já disse Marx.

Décima sexta estrofe, interpretada por Marlui Miranda e Djuena Tikuna:

Pelo respeito e pelo direito
À diferença e à diversidade
De cada etnia, cada minoria,
De cada espécie da comunidade

De seres vivos que na Terra ainda há,

Demarcação já!

Essa estrofe traz novamente o discurso ambiental que também é importante. Não cabe colocar em um patamar de importância o meio-ambiente, ou os índios. Fato é que nas nossas florestas ainda há índios isolados e que protegê-las também significa proteger os índios.

Além disso, a estrofe fala sobre o respeito à diferença e à diversidade de cada etnia. Isso é muito acertado, pois é necessário saber que cada povo indígena possui uma tradição distinta, que deve ser preservada e respeitada.

Décima sétima estrofe, interpretada por Letícia Sabatella:

Por um mundo melhor ou, pelo menos,
Algum mundo por vir; por um futuro
Melhor ou, oxalá, algum futuro;
Por eles e por nós, por todo mundo,

Que nessa barca junto todo mundo “tá”,

Demarcação já!

Sobre essa estrofe, dialogamos com uma citação do testamento de Leon Trotsky: “A vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda a opressão, de toda a violência e possam gozá-la plenamente.”.

Décima oitava estrofe interpretada por Lira:

Já que depois que o enxame de Ibirapueras
E de Maracanãs de mata for pro chão,
Os yanomami morrerão deveras,
Mas seus xamãs seu povo vingarão,

E sobre a humanidade o céu cairá,

Demarcação já!

Ibirapuera em tupi significa “árvore que morreu”, ou “árvore que já era”. Essa estrofe volta a falar da questão do desmatamento e da biodiversidade, pois marcanã é uma ave. Sobre os yanomami, já dissemos que esses sofrem diariamente a ação dos garimpeiros em seus territórios. De fato sob a ação do garimpo, o desmatamento e a extinção de espécies só aumentará.

Décima nona estrofe, interpretada por Zé Celso Martinez Correia:

Já que, por isso, o plano do krenak encerra
Cantar, dançar, pra suspender o céu;
E indígena sem terra é todos sem a Terra,
É toda a civilização ao léu

Ao deus-dará.

Demarcação já!

Os krenak são os últimos Botocudos do Leste, vítimas de constantes massacres decretados como “guerras justas” pelo governo colonial. Hoje, vivem numa área reduzida reconquistada com grande dificuldade, em MG, MT e SP.

Historicamente não há como dizer que toda a civilização é indígena. Não se trata de supremacia indígena. Porém, sem dúvida alguma há muitos indígenas que perderam a sua cultura e que por isso não se reconhecem indígenas.

Vigésima estrofe, interpretada por Criolo:

Sem mais embromação na mesa do Palácio,
Nem mais embaço na gaveta da Justiça,
Nem mais demora nem delonga no processo,
Nem retrocesso nem pendenga no Congresso,

Nem lengalenga, nenhenhém nem blablablá!

Demarcação já!

Essa estrofe é autoexplicativa, mas cabem algumas curiosidades. “Embaçar” nas gírias de periferia significa “demorar”, então o que a letra quer dizer é que não se demore mais as reivindicações dos indígenas nos poderes.

É interessante também saber que “nhenga”, é o verbo falar em tupi e deu origem à expressão “nhenhenhém” em português que significa “falar demais”. Sobre as reivindicações indígenas, recentemente o Esquerda Diário noticiou a dura repressão que os indígenas sofreram no Palácio do Planalto em um dos seus atos, você pode ver aqui em “Flechas, tacapes e cores de guerra! Um dia histórico na praça principal de Brasília” http://www.esquerdadiario.com.br/Flechas-tacapes-e-cores-de-guerra-Um-dia-historico-na-praca-principal-de-Brasilia .

Vigésima primeira estrofe, interpretada por Russo Passapusso ( Baiana System):

Pra que nas terras finalmente demarcadas,
Ou autodemarcadas pelos índios,
Nem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros,
Mandantes nem capangas nem jagunços,

Milícias nem polícias os afrontem.

Vrá!

Demarcação ontem!
Demarcação já!

Essa estrofe fala da repressão aos indígenas que já foi bastante trabalhada no decorrer do texto, o mais importante é o novo termo que surge “autodemarcação”.

Como seria se os índios dissessem “as nossas terras são x e y, e por isso queremos demarcá-la daqui a acolá”. Quanto do território nacional seria deles?

E se os tupis perdidos por toda a costa brasileira, em 2017, dissessem: “somos índios e queremos nossas terras”? Todo o Brasil é território indígena.

Última frase da música:

E deixa o índio, deixa o índio, deixa os índios lá.

Essa estrofe parece um apelo para que não haja intervenção onde ainda há índios isolados. Essa é uma grande questão, mas se defendemos autodeterminação, isso é o mais correto a se fazer.

Ainda assim é necessário “deixar o índio lá”, mas também permitir que ele transite por todo o território nacional como bem queira, que estude nas universidades que deveriam ter cotas para indígenas, e que depois, se assim o quiser, retorne a sua terra.

Por uma resposta plausível

Os crimes praticados contra os povos indígenas das américas ainda representam uma história praticamente não contada. São crimes conscientemente ocultados pelos Estados, inclusive o Estado brasileiro, e certamente – provavelmente ao lado do que foi feito aos povos africanos – constituí um dos maiores genocídios da história da humanidade. São 525 anos de crimes impunes contra esses povos, desde os bandeirantes, passando pelos extermínios em massa e remoções forçadas da ditadura, e chegando às atuais violações e massacres dos latifundiários, madeireiros, capangas e policiais, sob a cumplicidade criminosa do Estado brasileiro.

Por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que paute as grandes questões nacionais, inclusive a questão indígena e as questões de demarcação e autodemarcação.

Assista ao vídeo aqui

Cantam:

Chico César
Maria Bethânia
Nando Reis
Zeca Baleiro
Margareth Menezes
Zélia Duncan
Dona Onete
Felipe Cordeiro
Elza Soares
Lenine
Arnaldo Antunes
Céu
Zeca Pagodinho
Gilberto Gil
Ney Matogrosso
Tetê Espíndola
Djuena Tikuna
Marlui Miranda
Letícia Sabatella
Lira
Zé Celso Martinez Correia
Criolo
Baiana System (Russo Passapusso)
Edgard Scandurra

Letra: Carlos Rennó




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