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Dialética e marxismo: Plekhanov, entre Hegel e Spinoza

Continuamos com a série sobre marxismo e dialética, com uma passagem sobre algumas considerações filosóficas do fundador do marxismo russo.

segunda-feira 12 de setembro| Edição do dia

Georgi Valentinovitch Plekhanov (1856-1918) foi uma figura chave nas origens do marxismo russo tradicional. Foi populista em seus anos de juventude, em seguida, fundador do grupo Emancipação do Trabalho (antecedente do Partido Operário Socialdemocrata Russo), quando o POSDR se dividiu em 1903 simpatizou primeiro com os bolcheviques para voltar-se, posteriormente, aos mencheviques, com alguns pontos de confluência com Lenin entre os anos de 1908 e 1912. Partidário da “defesa nacional” na Primeira Guerra Mundial e depois adversário da revolução de Outubro, a imagem negativa de seus últimos anos geralmente é projetada sobre o conjunto de sua trajetória.

No entanto, o próprio Lenin em mais de uma ocasião e apesar de sua evolução política, recomendava a leitura dos textos filosóficos de Plekhanov, assim como Trotsky.

A produção teórica de Plakhanov foi fértil e muito ampla no que diz respeito aos assuntos, desde os fundamentos da teoria marxista até a história da literatura. Havendo sido parte da camada de intelectuais marxistas que protagonizaram o que se conhece como o período de “sistematização” do materialismo histórico, junto com Antonio Labriola (a quem nos referimos no segundo artigo desta série), Franz Mehring e Karl Kautsky, Plekhanov se propôs a desenvolver a teoria marxista em polêmica com certas concepções históricas e filosóficas que tinham peso em sua época, desde variantes do materialismo vulgar, até as tentativas de “voltar a Kant” propiciados pelo “revisionismo” de Berstein.

Cunhador do termo “materialismo dialético” (que já havia sido utilizado de modo menos “doutrinário” por Engels em seu Anti-Dühring: “este materialismo essencialmente dialético”), Plakhanov foi um dos primeiros marxistas a indagar sobre duas questões que logo seriam temas de profundos debates no marxismo do século XX: a relação de Hegel com o materialismo histórico e a relação de Marx com a filosofia de Spinoza.

Em trabalhos como A 60 años de la muerte de Hegel* ou El Significado de Hegel*, escrito em 1891 em razão do 60º aniversário da morte do filósofo alemão, Plekhanov resgatava a importância de voltar a estudar Hegel (ideia que seria então retomada por Lenin em seus Cadernos Filosóficos). Fazia uma leitura crítica de sua filosofia da história, da qual destacava centralmente quatro aspectos positivos: o caráter histórico das instituições estatais e religiosas, assim como dos sistemas filosóficos; certos esboços materialistas que postulavam a importância da geografia e das práticas econômicas para a compreensão da história; uma tendência incipiente da identificação da economia como base das mudanças históricas; um método dialético de racionalização que dava lugar a mudanças através de saltos, em lugar de uma mera evolução gradual quantitativa.

Esta reivindicação de Hegel foi acompanhada por uma crítica do seu idealismo, em especial o emprego de certos argumentos “teológicos” como por exemplo explicar a queda da Grécia porque “o espirito não poderia se manter por muito mais tempo”, no caso de identificação total do indivíduo com a cidade-estado, próprias do procedimento hegeliano de transformar o Espírito no sujeito da história. Por todos estes motivos, Plekhanov considerava Hegel como um pensador superior ao materialismo do Iluminismo (que havia permanecido “idealista” na questão da história, a qual adjudicava caráter de “erro” quando as instituições sociais não coincidiam com seus princípios teóricos).

Se bem que Plekhanov continuava a tradição de Engels, de considerar que havia de separar o método de Hegel de seu sistema, Plekhanov destacava os elementos de continuidade entre Hegel e o marxismo desde o ponto de vista dos conteúdos: certos esboços de materialismo assim como destacava a dialética entendida em termos de saltos qualitativos para a compreensão das mudanças históricas. Um aspecto problemático ou polêmico é que em sua indagação sobre as intuições materialistas de Hegel, Plekhanov ressaltava a ideia de que a economia era uma “fonte originária” da prática social em seu conjunto. Se bem que esta ideia foi dirigida contra as correntes burguesas que sustentavam a “interação dos fatores” como explicação dos processos sociais, deixando de lado suas causas profundas, a ideia de uma “fonte originária” tem um viés marcadamente “metafísico”, como uma espécie de mito de uma origem ao que se remetiam todos os desenvolvimentos, em direção a um determinismo unilateral.

Mas a indagação de Plekhanov sobre as bases filosóficas do marxismo não se limitaria a um resgate de certos aspectos do legado de Hegel. Traçando uma genealogia que se tornaria central em certos debates filosóficos do século XX, Plekhanov destacava tanto a heresia hegeliana do marxismo como suas afinidades com o pensamento do grande filósofo judeu-holandês Baruch de Spinoza (1632-1677). Em distintos trabalhos como Ensaios sobre a História do Materialismo (1891), Bernstein y el materialismo (1898)*, Cant contra Kant (1901)*, Plekhanov assinala a dívida de Marx para com Spinoza.

Plekhanov considerava o marxismo como uma concepção “monista” (quer dizer que reconhece para tudo o que existe somente um princípio) da história. Embora seja uma leitura que leva a certos problemas, entre eles o de uma possível determinação unilateral de todos os fenômenos pela economia, esta interpretação estava relacionada com certos debates filosóficos do momento, em especial aquelas posições que propunham voltar ao “dualismo” kantiano. Antonio Labriola também considerava a “tendência ao monismo” como uma característica do materialismo histórico, frente as teorias burguesas que propunham a “multiplicidade de fatores”, como uma tentativa de sustentar o que ficava do idealismo, dando lugar ao reconhecimento do “fator econômico”, mas sem ceder ao embate do marxismo. Plekhanov, assim como Labriola, buscava também rebater as variantes do materialismo mais vulgar, estritamente mecanicistas.

Por estes motivos, o pensamento de Spinoza se mostrava atrativo. Sua concepção de uma substância única, da qual o pensamento e a extensão eram atributos, característica de sua Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras, permitia sustentar um princípio unitário, material e espiritual por vez.

Além disto, Plekhanov considerava Spinoza também como um pensador dialético. Para realizar esta afirmação, retomava a frase omnis determinatio est negativo (toda determinação é negação), que utilizara Engels em seu Anti-Dühring, assim como Marx em O Capital, fórmula que provém de uma certa distorção que realizara Hegel de uma afirmação de Spinoza. A frase em questão está em sua carta 50 à Jarig Jalles, na qual Spinoza fala sobre os corpos finitos e determinados e neste contexto utiliza a expressão determinatio negativo est (determinação é negação).

Mas é em suas polêmicas com Bernstein e sua contraposição filosófica (o “retorno a Kant”) onde Plekhanov realiza as afirmações mais assombrosas sobre a suposta filiação spinozista do marxismo. Questionando o materialismo vulgar de certos personagens do momento, afirmava que Feuerbach e Diderot haviam sido spinozistas e que o marxismo era uma “variante do spinozismo” e um “spinozismo modificado”. Inclusive citava uma recordação pessoal no qual Engels, em polêmica com o materialismo vulgar que considerava tudo como um fenômeno físico, lhe havia dito que “o velho Spinoza” havia tido razão ao considerar pensamento e extensão como atributos de uma única substância.

Por último, contra a volta de Kant propiciada pelo próprio Bernstein e outros marxistas, Plekhanov localizava Spinoza como um percursor de Marx, precisamente no questionamento do “dualismo” de Kant: para Spinoza, como para Marx, podia-se conhecer a matéria como tal, sem incógnitas.

Em resumo, Plekhanov introduz uma série de novidades na abordagem da questão da dialética no materialismo. Resgata elementos de materialismo na filosofia da história de Hegel, em especial no tratamento da questão econômica, destacava a compreensão das instituições estatais, sociais e religiosas como sujeitas a um devir histórico e a dialética como método de pensamento centrado em saltos que interrompem as evoluções graduais. Da mesma forma, de Spinoza destacava sua concepção de uma “substância única”, que a diferencia do materialismo vulgar onde está incluída na esfera “espiritual” e em sua concepção do conhecimento, o faz contra as tentativas de “voltar a Kant” como antecessores diretos da concepção marxista. Uma operação teórica que em muitos aspectos foi percussora de posteriores debates que tiveram lugar dentro e fora do marxismo durante o século XX.

* Textos disponíveis em espanhol, NDT.




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