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Dialética e marxismo: Lenin

Continuamos a série de marxismo e dialético com algumas breves considerações sobre os Cadernos Filosóficos do dirigente da Revolução Russa.

quinta-feira 20 de outubro| Edição do dia

Em 4 de agosto de 1914 os deputados do Partido Operário Socialdemocrata Alemão votaram a favor dos créditos de guerra no parlamento. Para os marxistas internacionalistas, se impunha a necessidade de reagrupar aqueles que se opunham à guerra assim como de um rearme teórico, estratégico e programático. A II Internacional estava em “bancarrota”. O movimento operário alemão não era, como havia sonhado Engels, os herdeiros da filosofia clássica alemã, mas sim a bucha do canhão do nacionalismo alemão. Neste contexto, Lenin realizou uma série de leituras que lhe permitiram retomar a importância da dialética, em especial a de Hegel, para o pensamento marxista; assim como a do clássico da teoria da guerra e a estratégia Karl von Clausewitz. Nos referimos particularmente as primeiras.

Na biblioteca pública de Berna (Suíça), Lenin se dedicou ao estudo de uma série de obras de filosofia. Isto é interessante, em primeiro lugar, pois se Lenin considerava que o marxismo havia sido uma superação do ponto de vista da filosofia tradicional, o estudo das obras como as de Hegel, Feuerbach ou Aristóteles demonstrava que essa “superação” não é algo realizado de uma só vez e, mas sempre deve se pensar uma constante recriação, sobre tudo desde o ponto no qual interessava à Lenin: a compreensão da dialética para a compreensão e transformação da realidade.

O primeiro livro resumido por Lenin durante setembro-novembro de 1914 é o texto de Feuerbach Exposição, Desenvolvimento e Crítica da Filosofia de Leibniz destacando a crítica materialista de Feuerbach e os elementos de dialética presentes no pensamento de Leibniz. Salienta, em especial, a relação entre indivíduo e infinito através do conceito de “mónada”, conceito histórico de filosofia empregado para definir o princípio de unidade do ser e que Leibniz resignificou desenvolvendo a ideia de substancias espirituais autônomas dotadas de automovimento, a ideia de que “tudo na natureza é análogo” e o princípio de interconexão dos fenômenos. A respeito de Feuerbach, Lenin já havia estudado Lições sobre a Essência da Religião em 1909.

Quase paralelamente, entre setembro e dezembro de 1914, Lenin resumiu A Ciência da Lógica de Hegel. Logo após, em 1915 resumiria as Lições sobre a História da Filosofia, que na realidade é uma obra não publicada em vida do autor, mas sim postumamente e organizada por discípulos de Hegel com base em anotações de suas palestras.

A leitura destas obras permitiu Lenin desenvolver uma série de reflexões sobre a questão da dialética. Entre suas principais definições podemos destacar, primeiro, a ideia da dialética como uma lógica cujas as formas são inseparáveis dos conteúdos, exigência que Lenin reconhece em Hegel e que reformula nos seguintes termos:

“A lógica não é a ciência das formas exteriores do pensamento, mas sim das leis do desenvolvimento ‘de todas as coisas materiais, naturais e espirituais’ quer dizer, do desenvolvimento de todo o conteúdo concreto do mundo e de sua cognição, ou seja, a soma total, a conclusão da história do conhecimento do mundo”.

Partindo desta definição geral e na medida em que avança no resumo do trabalho de Hegel, Lenin define a dialética de modo mais específico:

“A Dialética é uma teoria que mostra como os opostos podem e, geralmente, são (devir) idênticos; em que condições são idênticos, ao transformar-se uns nos outros, por que o espírito humano não deve entender estes contrários como mortos, rígidos, mas sim como vivos, condicionais, móveis, que se transformam um nos outros”.

Este movimento do pensamento, para Lenin se caracteriza por uma especial forma de construir os conceitos teóricos:

“A multilateral e universal flexibilidade dos conceitos, uma flexibilidade que chega até a identidade dos contrários; tal é a essência do assunto. Esta flexibilidade, aplicada subjetivamente= ecletismo e sofismas. A flexibilidade, aplicada objetivamente, ou seja, se reflete a multilateralidade do processo material e sua unidade, é a dialética, é o reflexo correto do eterno desenrolar do mundo”.

Na mesma linha de análise, ao resumir o começo do Segundo Livro da A Ciência da Lógica que trata sobre a “doutrina da essência”, Lenin afirma:

“Se não me engano, há muito misticismo e pedantismo vazio nestas conclusões de Hegel, mas a ideia básica é genial: a ideia da conexão universal, multilateral, vital, de tudo com tudo, e o reflexo desta conexão – Hegel posto de cabeça para baixo em forma de materialismo – nos conceitos humanos, que também devem ser talhados, trabalhados, flexíveis, móveis, relativos, mutuamente vinculados, unidos em opostos a fim de abarcar o mundo. A continuação da obra de Hegel e de Marx deve consistir na elaboração dialética da história do pensamento humano, da ciência e da técnica”.

Este resgate do pensamento de Hegel levaria Lenin a tirar conclusões lapidadas contra os marxistas de seu tempo (e das últimas décadas do século XIX). Assinala que Plekhanov debateu contra os kantianos e o agnosticismo em geral desde um ponto de vista materialista vulgar mais do que dialético e que: “É completamente impossível entender O Capital de Marx, e em especial seu primeiro capítulo, sem ter estudado e entendido a fundo toda a Lógica de Hegel”. Por conseguinte, faz meio século que nenhum marxista entendia Marx!!

No mesmo sentido, no “Plano da Dialética (Lógica) de Hegel” que são comentário em forma de índice da “pequena Lógica”, ou seja, a Enciclopédia das Ciências Filosóficas, Lenin assinala que Marx não nos legou uma Lógica com maiúsculas, mas sim a lógica do O Capital, obra a qual aplicou a lógica, a dialética e a teoria do conhecimento.

Outra das questões que interessaria Lenin é a relação entre a dialética dos conceitos e a do desenvolvimento das teorias filosóficas e científicas. Em seus resumos das obras de Hegel faz algumas observações a respeito, mas é em um comentário crítico escrito também durante 1915, sobre o livro de Lassalle A Filosofia de Heráclito, o Obscuro de Éfeso, onde assinala:

“Milhares de anos passaram desde o momento em que nasceu a ideia ‘da conexão de todas as coisas’; ‘a cadeia das coisas’. Uma comparação de como vem sendo entendidas estas causas na história do pensamento humano ofereceria uma teoria indiscutivelmente concluinte do conhecimento”.

E mais adiante sustenta que a filosofia grega indicou em seus próprios desenvolvimentos esboços para a história das distintas ciências, a história do desenvolvimento mental da criança, a história do desenvolvimento animal, a história do desenvolvimento da linguagem, mais a psicologia, mais a fisiologia; e que em todos estes campos devem construir-se a teoria do conhecimento e a dialética. Estas afirmações, em especial as relativas ao desenvolvimento mental da criança, que em Lenin eram intuições, coincidem com os posteriores trabalhos realizados por estudiosos como Piaget ou Vigotsky e foram destacadas por um intelectual do nível de Rolando García em seu trabalho O conhecimento em construção: das formulações de Jean. Piaget à teoria de sistemas complexos, publicado por Ed. Gedisa em 2009 (em espanhol).

Em 1915, no marco destas leituras, Lenin escreve o texto Cadernos Sobre a Dialética de Hegel, que sintetiza de algum modo estas reflexões, destacando que “a ideia da divisão de um todo único e o conhecimento de suas partes contraditórias [...] é a essência (um dos “essenciais”, uma das principais, se não a principal característica ou traço) da dialética. Precisamente assim formula também Hegel o assunto. [...] A condição para o conhecimento de todos os processos do mundo em seu ‘automovimento’, em seu desenvolvimento espontâneo, em sua vida real, é o conhecimento dos mesmos como uma unidade de contrários. O desenvolvimento é a ‘luta’ de contrários”.

Esta identificação da “unidade de contrários” e o “automovimento” como pedras de toque da dialética não teve consequências unicamente teóricas. Não é muito difícil encontrar uma forte afinidade entre esta leitura da dialética e a proposição estratégica de Lenin de “transformar a guerra imperialista em guerra civil contra a própria burguesia”.

Nas mãos de Lenin, como nas de Marx, que considerava O Capital como um míssil lançado em direção a cabeça dos burgueses, a dialética se torna uma arma, que o líder bolchevique utilizaria na própria conjuntura da guerra buscando construir uma corrente revolucionária com posições como as elaboradas em O Socialismo e a Guerra (o qual, diga-se de passagem, se vê claramente a influência de Clausewitz) ou O Oportunismo e a Falência da II Internacional.

Uma vez regressado à Rússia, Lenin se concentraria em orientar o Partido e os setores mais ativos da classe trabalhadora em sua luta pelo poder, com formulações estratégicas muito bem sintetizadas em textos como as Teses de Abril ou O Marxismo e a Insurreição.

Esta releitura teório-prática da questão da dialética realizada por Lenin é em si mesma uma grande resposta a recorrente questão de “para que serve” a dialética. Como disse o revolucionário russo Herzen: é a álgebra da revolução.

Nota relacionada: Um amigo da dialética no meio da guerra




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