Teoria

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Dialética e marxismo: Hegel e a Fenomenologia do Espirito.

Continuamos com a série de marxismo e dialética com algumas linhas sobre o célebre livro de Hegel, que seria ponto de referência para algumas das reflexões filosóficas de Marx.

segunda-feira 25 de julho de 2016| Edição do dia

Assinalamos na nota anterior da série que durante o período que vai de 1803 a 1807 Hegel produziria suas diferenças com Schelling até chegar a uma ruptura aberta em a Fenomenologia do Espírito. Este texto, sumamente completo e discutido, foi terminado por Hegel em 13 de outubro de 1806, na noite anterior a batalha de Jena, nas quais as tropas de Napoleão derrotaram as de Frederico Guilherme III da Prússia.

O Prólogo foi enviado ao editor para ser agregado ao livro, já impresso, em 10 de janeiro de 1807 e constitui uma primeira exposição do método dialético propriamente hegeliano. Para esta introdução elementar, tomaremos como referência a segunda edição da Fenomenologia do Espírito publicada por Pre-Textos em 2009, com a tradução ao espanhol, estudo introdutório e notas de Manuel Jiménez Redondo, assim como as exposições de Héctor Raurich reunidas no volume Hegel e a lógica da paixão, publicado por Marymar em 1976.

Hegel parte de assinalar que o acesso “ao absoluto” (conhecimento do universal que contém o particular) somente pode dar-se em forma de ciência. Aqui o termo ciência não remete a sua variante mais “experimental”, mas sim a uma ideia, propriamente “alemã” de “sistema”, quer dizer, um conjunto de proposições teóricas interrelacionadas que buscam assumir a forma de uma totalidade. A verdade se conhece através do sistema científico da verdade, que supera as considerações gerais abstratas para captar em suas múltiplas determinações o próprio movimento do objeto da ciência (seja a natureza, a história, o Estado ou a história da filosofia). Hegel denomina como conceito este movimento de determinação do objeto para atingir o conhecimento do verdadeiro (singular, que une o universal e particular) e é o que distingue a ciência.

Para Hegel, a posição de Schelling, que postulava uma “intuição intelectual” como modo de conhecimento imediato do absoluto, o qual assumia a forma de uma substancia indeterminada, continuamente caia em um formalismo carente de desenvolvimento e conteúdo. Por isso, sua proposta filosófica consiste em entender o absoluto não somente como substância (que é) se não, também, como sujeito (que pensa).

Aqui faz-se importante destacar que, o próprio pensamento de Hegel, o idealismo distorce a dialética. Isto significa que para desenvolver esta ideia de “a substância é sujeito” Hegel constrói um sujeito mistificado que é o Espirito (espírito do povo na história nacional, espirito do mundo na história universal), este é um sujeito coletivo, mas não um sujeito concreto (a sociedade, a classe ou o Estado) senão uma abstração construída a partir das práticas humanas, que se apresenta acima destas. Esta operação tem efeitos contraditórios. Por um lado, representa de algum modo a ideia de que a humanidade constrói uma segunda natureza através das relações sociais e a culturais. Por outro, põe no lugar do sujeito uma ideia criada a partir de uma abstração que localiza os sujeitos reais como resultado de uma alienação ou objetificação do Espírito. Veremos mais adiante que Marx criticava este procedimento, sobre tudo na Filosofia do Estado de Hegel.

No caso concreto da Fenomenologia do Espírito, Hegel busca mostrar a experiência da consciência que se relaciona com a substância (que é substância espiritual, como dito anteriormente) como um objeto da consciência. Isto implica que a contraposição de substância e sujeitos é um estado necessário no desenvolvimento da verdade que logo será superada pela identidade de ambos os termos como resultado do caminho da consciência até a ciência.

Neste contexto, Hegel propõe entender a verdade e o absoluto como um resultado através de um devir que é um processo de mediação (ver a segunda nota desta série), próprio da Razão, que transforma a oposição entre a substância e o sujeito em seu processo de volta a unidade, através da reflexão filosófica.

De acordo com suas simpatias pela Revolução Francesa, Hegel considera que o espírito dos tempos modernos impõe a filosofia a tarefa de superar qualquer saber de tipo “exotérico” (somente apto para iniciados ou gênios) e prover a consciência comum os degraus que permitam elevar-se até a ciência.

Este caminho da consciência comum até a ciência é o que buscaria reconstruir a Fenomenologia do Espírito, considerada como a primeira parte do sistema científico da verdade proposto por Hegel, chegando ao indivíduo por distintos estados de conformação do espírito do mundo, os apropriando pela via do pensamento conceitual, quer dizer, os interiorizando sem ter que reconhecer cada uma de suas etapas tal qual foram na história real.

Neste marco, Hegel relativiza as oposições entre noções clássicas do verdadeiro e do falso, como parte de um movimento necessário. Caso se saiba de alguma coisa falsa, quer dizer, se o objeto está em desigualdade com o saber, precisamente dessa desigualdade surge o movimento “negativo”, quer dizer de mediações que vão superando as aproximações parciais ao conhecimento do objeto, que permite chegar a verdade.

Por esse motivo, considera que o conhecimento histórico e o matemático não se adaptam as necessidades conceituais da filosofia, um por ser pouco conceitual e o outro por ser formal.

Hegel reivindica o Entendimento (noção tomada de Kant) como faculdade de conhecer o objeto em suas determinações parciais, mas questiona o uso arbitrário da estrutura de três termos cunhada por Kant em sua tabela de categorias da Analítica Transcendental. Kant assinala que em relação com os critérios de quantidade, qualidade, relação e modo, convergiam três tipos de juízos e três tipos de categorias. Esta estrutura de três termos foi retomada por Fichte em sua Doutrina da Ciência, como tese, antítese e síntese, para dar uma explicação da relação entre sujeito ativo e o mundo objetivo e sua unidade. Para Hegel, esta triplicidade era utilizada pelos schellingianos como um esquema externo ao objeto e no qual havia que encaixar os conteúdos a força.

Hegel propõe um método distinto, que é reconstruir o Todo em seu movimento, um movimento de negações e superações destas negações, no que se pode reconhecer a famosa “lei” da dialética conhecida como “negação da negação”, reconstruindo mediante o conceito o movimento do objeto.

O método dialético, neste contexto, é simplesmente a estrutura da progressão deste devir superando os conceitos fixos e imutáveis e as determinações parciais, cada qual se apresente como um momento “necessário” do processo de desenvolvimento conceitual em seu conjunto, questão que abordaria profundamente em seu posterior Ciência da Lógica.

Recapitulando: Hegel propõe uma dialética consistente em um processo de determinações conceituais que buscam alcançar um conhecimento totalizante. Este processo consiste em um devir de mediações, caracterizadas pelo desenvolvimento das contradições internas de cada categoria do pensamento, que dá lugar a uma nova categoria que supera e contém a anterior, no que cada momento do processo é necessário e no que a verdade é um resultado. A forma especificamente idealista desta proposta apresenta este desenvolvimento como um “auto-movimento” do Espírito, quer dizer como um processo no qual o sujeito mistificado se aliena na realidade e volta a sua unidade. Este trâmite dialético é o que aplica Hegel a todos os planos da realidade e o pensamento.

No caso específico da Fenomenologia do Espírito, a dialética se desenvolve a partir da inadequação entre a certeza que a consciência tem do objeto e sua verdade (que não coincide com a certeza). Isto dará lugar a sucessão de um conjunto de figuras (termo associado a estética de Schiller como unidade viva de forma e conteúdo) da consciência que vão surgindo da própria experiência que a consciência faz sobre o objeto: este acaba por ser diferente do que parecia e, portanto, requer uma nova figura para captá-lo. A nova figura, por sua vez, consiste em uma superação da anterior, que por sua vez, a inclui e a toma como ponto de partida. Por exemplo, a primeira figura da consciência é a “certeza sensível”, na qual e apresenta o objeto em seu estado mais simples e imediato, mas a experiência que faz a consciência deste objeto imediato surge a verdade de que o objeto é uma coisa com propriedades, que requerem uma nova figura da consciência para captá-lo, que Hegel chama de “percepção”, a que realizará em relação com seu novo objeto (coisa com múltiplas propriedades) uma nova experiência que impulsiona o desenvolvimento de conjunto.

Através desta dialética de certeza e verdade, Hegel traça um panorama que abarca do capítulo I ao V a fenomenologia da consciência propriamente dita e nos capítulos VI, VII e VIII uma fenomenologia do espírito no sentido hegeliano da palavra, quer dizer como sujeito coletivo mistificado, protagonista da história, cultura, religião e do saber absoluto

Continuaremos.




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